Pedro DuarteDivulgação para o on-line

O Rio de Janeiro está prestes a viver uma quebra de paradigma na mobilidade urbana. O lançamento do novo sistema de transporte aquaviário no Complexo Lagunar da Zona Sudoeste, abrangendo Barra da Tijuca, Jacarepaguá e Recreio, abre uma perspectiva inédita para a cidade: o uso de nossas lagoas como aliadas na integração entre bairros e modais de transporte.
A previsão é de que 85 mil pessoas utilizem diariamente os barcos que irão conectar regiões densamente povoadas - como Rio das Pedras, Gardênia Azul e Muzema - a pontos estratégicos, tais como o metrô da Linha 4, estações de BRT e até mesmo áreas de comércio e lazer, Barra Shopping por exemplo. Um trabalhador que hoje enfrenta o engarrafamento da Avenida das Américas e Av. Ayrton Senna poderá ter trajeto mais rápido, confortável e seguro. É disso que a cidade precisa: opções reais de deslocamento.
Mas, para dar certo, o sistema precisa nascer integrado. Não basta criar barcos modernos e terminais bem planejados se o passageiro não puder fazer conexões de maneira simples e acessível. A integração com a Linha 4 do metrô, com os corredores do BRT, linhas de ônibus municipais, além de ciclovias e faixas exclusivas, será decisiva para o sucesso da operação. E, nesse ponto, o Bilhete Único Carioca e o Jaé possuem papel central: não podemos admitir que o morador tenha que pagar tarifas múltiplas para concluir o seu itinerário. Um sistema de transporte eficiente é aquele que olha para o bolso e para o tempo do cidadão.
Há, no entanto, uma condição fundamental para que o transporte nas lagoas seja viável: a qualidade ambiental. Durante anos, o Complexo Lagunar da Barra e Jacarepaguá conviveu com esgoto e assoreamento. A entrada da concessionária de saneamento, com investimentos de R$ 250 milhões em despoluição e dragagem, foi passo importante. Hoje, já é possível notar melhorias, como águas mais claras em alguns trechos e retorno de aves antes desaparecidas. Mas o trabalho está longe de acabar. É preciso fiscalizar de perto as concessionárias e garantir que o compromisso de recuperar nossas lagoas seja cumprido até o fim.
Esse aspecto ambiental tem um efeito colateral positivo: quanto mais pessoas passarem a circular e enxergar de perto as lagoas, maior será a consciência coletiva sobre a necessidade de preservá-las. O transporte aquaviário pode, assim, não apenas levar trabalhadores mais rápido para o seu destino, mas também colocar em evidência os problemas e fortalecer a pressão da sociedade por soluções. Mobilidade e sustentabilidade, quando caminham juntas, ampliam o poder de transformação da cidade.
O transporte aquaviário na Zona Sudoeste não é apenas uma nova opção: é uma oportunidade de integrar pessoas, modais e regiões. É a chance de transformar a Barra e Jacarepaguá em territórios mais conectados, eficientes e sustentáveis. O Rio precisa acreditar nesse caminho e, principalmente, garantir que esse projeto seja acompanhado com seriedade, transparência e total integração.
Se bem conduzido, o sistema lagunar pode se tornar símbolo de um novo tempo: um Rio que aprende a usar seus recursos naturais não como obstáculos, mas como aliados de um futuro mais humano, acessível e integrado.