Pedro DuarteFoto Divulgação
O episódio ocorrido esta semana em Copacabana, onde uma ação de ordenamento urbano resultou na apreensão de dezenas de bicicletas de entregadores, escancarou um dilema: como organizar o uso da bicicleta na cidade sem criminalizar quem depende dela no dia a dia?
A Prefeitura agiu com base na legislação vigente, e o ordenamento do espaço público é, sim, necessário. Mas o impacto da ação mostrou um ponto essencial: a fiscalização deve existir, mas deve vir acompanhada de políticas públicas e soluções que acompanhem tendências, inclusive em relação ao comportamento de uso da bicicleta, que mudou muito com os novos modelos de negócios e serviços.
O crescimento do uso da bicicleta no Rio não é improviso. Ele reflete mudanças reais na mobilidade urbana, mercado de trabalho e custo de vida. Entregadores, trabalhadores de serviços e moradores que combinam bicicleta com transporte público já fazem parte do cotidiano da cidade. O problema é que a infraestrutura urbana não acompanhou essa transformação.
Enquanto isso, cidades brasileiras e do mundo afora mostram que é possível conciliar ordenamento urbano com incentivo à mobilidade ativa. Em São Paulo, bicicletários integrados a estações de metrô e trem permitem estacionamento seguro, inclusive com possibilidade de pernoite.
Enquanto isso, cidades brasileiras e do mundo afora mostram que é possível conciliar ordenamento urbano com incentivo à mobilidade ativa. Em São Paulo, bicicletários integrados a estações de metrô e trem permitem estacionamento seguro, inclusive com possibilidade de pernoite.
Em Niterói, o Polo Cicloviário Arariboia virou referência ao oferecer centenas de vagas gratuitas, com controle de acesso e integração ao transporte aquaviário. Fora do Brasil, cidades como Utrecht, na Holanda, e Londres tratam o estacionamento de bicicletas como infraestrutura essencial, tão importante quanto ônibus ou metrô.
O Rio, inclusive, já tem legislação que aponta nessa direção. Existe lei (LC 195/2018) que obriga a oferta de vagas para bicicletas em locais de grande circulação. O desafio não é jurídico, é de implementação. Faltam bicicletários, sejam públicos ou privados, especialmente em áreas com grande concentração de trabalhadores, estações de transporte e bairros de alta demanda.
Ordenar a cidade não pode significar penalizar quem está tentando se virar dentro dela. A ausência de espaços adequados para estacionar bicicletas empurra trabalhadores para soluções improvisadas, que depois viram alvo de fiscalização. É um ciclo que só se resolve com planejamento urbano, não apenas com apreensões.
O episódio desta semana deve servir como ponto de inflexão. O Rio precisa avançar de uma lógica punitiva para uma lógica de solução. Criar bicicletários de pernoite, estimular a participação da iniciativa privada e envolver concessionárias de transporte em um pacto pela mobilidade ativa, integrando a bicicleta à política urbana, não são luxos. Isso é reconhecer a realidade da cidade.
Metrô, trens, barcas, estacionamentos privados e grandes polos geradores de viagens precisam fazer parte dessa visão. Em cidades que apostaram no uso da bicicleta, o poder público não atua sozinho: ele coordena, regula e cria incentivos para que diferentes atores compartilhem a responsabilidade.
Se queremos uma cidade mais organizada, sustentável e justa, precisamos tratar a bicicleta como parte da solução urbana, não como um problema a ser removido da paisagem. Planejamento dá trabalho. Mas o improviso dá conflito. E o Rio já teve conflito demais!

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