Pedro DuarteFoto Divulgação

Trabalho na Cinelândia há anos. Passo por ali praticamente todos os dias, nos mais diversos horários. Escrevo como quem vive a rotina do lugar, como quem almoça diariamente nos restaurantes do entorno, conversa com trabalhadores, comerciantes e até com turistas. E a sensação é recorrente: a Cinelândia pede socorro.
Estamos falando de alguns dos maiores símbolos culturais do Rio de Janeiro. Ali estão o Theatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes, o Cine Odeon e, claro, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Há, portanto, um conjunto urbano que deveria ser vitrine do Centro, do Rio e do Brasil. Um espaço pensado para acolher quem trabalha, quem mora e quem visita a cidade e não para afastar pessoas pelo medo.
O cenário atual preocupa. Relatos de arrastões, furtos e roubos se multiplicaram nos últimos meses, inclusive em plena luz do dia. Só no Centro, foram mais de 4 mil registros de roubo entre janeiro e setembro de 2025. Turistas têm celulares arrancados das mãos. Comerciantes acumulam prejuízos. Trabalhadores relatam assaltos na saída do expediente.
Chama atenção que exista uma base do Segurança Presente em frente ao Odeon. Além disso, há também um trailer do 5º BPM, responsável pela região central da cidade. Vale destacar ainda que o Quartel-General da Polícia Militar fica a poucos metros da Cinelândia, localizado na Rua Evaristo da Veiga, via que liga a Lapa à Cinelândia. Ainda assim, a sensação de insegurança persiste. A partir das 23h, a situação é ainda mais preocupante. Apesar da vida noturna da Cinelândia, impulsionada pelo Rival, pelo Amarelinho e pelos hotéis da região, o policiamento desaparece. Roubos chegam a acontecer a poucos metros de viaturas da Polícia Militar, o que evidencia que presença pontual não basta.
É preciso atuação constante, integrada e visível, com planejamento específico para uma área que concentra cultura, transporte, turismo, grandes eventos e intensa circulação de pessoas, especialmente em períodos como o carnaval.
A situação é tão preocupante que a própria Câmara Municipal cobrou um choque de ordem para a região. Novas reuniões estão sendo realizadas com forças de segurança para exigir um plano urgente de policiamento.
O Centro do Rio vive um novo momento. Mais pessoas estão voltando a morar na região, novos empreendimentos residenciais surgem, o turismo cresce e a ocupação por temporada, como os aluguéis de curta duração, se intensifica. Essa transformação é positiva e necessária, mas exige responsabilidade.
Cuidar da Cinelândia é estratégico. Ela deveria funcionar como uma grande vitrine do Centro, assim como a Times Square representa Nova York: um espaço vivo, movimentado, iluminado e seguro. Os anúncios de que a Força Municipal, braço armado e de elite da Guarda Municipal, iniciará atuação pelo Centro trazem esperança, assim como a ampliação do sistema Civitas. O desafio que se impõe é a otimização do efetivo e a integração com o batalhão da Polícia Militar e com o Segurança Presente.
Preservar a Cinelândia não é apenas conservar prédios históricos. É proteger as pessoas, fortalecer a economia local e garantir que todos possam circular sem medo. A Cinelândia merece atenção contínua, investimento e cuidado à altura de sua importância para o Rio de Janeiro.