Pedro DuarteFoto Divulgação
A cena chocou a cidade e os cariocas: no último dia 30 de março, uma segunda-feira, mãe e filho de nove anos morreram atropelados por um ônibus na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Estavam numa bicicleta elétrica. No dia seguinte, o asfalto amanheceu com duas cruzes pintadas e um pedido explícito da população: ‘ciclovia’. Mas a frase mais dura sobre o caso veio do pai da criança, ainda abalado pela perda: "Ele (meu filho) não teria morrido na Zona Sul porque, lá, tem ciclovia."
A declaração dói, mas é difícil contestá-la. Sabemos que a Zona Sul do Rio de Janeiro concentra a maior parte da infraestrutura cicloviária da cidade. Na Zona Norte, a cobertura é incomparavelmente menor. E, mais precisamente na Grande Tijuca, é praticamente inexistente. A Conde de Bonfim, uma das vias mais movimentadas da região, não tem nenhuma. Quem pedala ali disputa espaço com ônibus, vans, carros e motocicletas, sem qualquer separação física. Uma temeridade!
Essa desigualdade de infraestrutura é um enorme problema para a cidade. É o reflexo de décadas de investimento concentrado em áreas já privilegiadas. A malha cicloviária do Rio cresceu voltada para a orla, para o lazer e para o turismo. Falta olharmos para a bicicleta também como transporte de verdade, usado por quem precisa se deslocar todos os dias em bairros como Méier, Madureira, Penha, Irajá, Engenho de Dentro, entre tantos outros. A Zona Norte, assim como a Zona Oeste, concentra algumas das regiões da cidade onde a bicicleta mais funcionaria como meio de transporte. E é onde menos se investe em segurança para quem pedala.
Os números em toda a cidade do Rio de Janeiro reforçam a urgência dessa pauta. De acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde, os acidentes envolvendo veículos de micromobilidade no Rio saltaram de 274, em 2023, para 2.199 em 2024. Trata-se de um aumento superior a 700% no período de apenas um ano. Ou seja: isso não é nada pouco.
Importante ressaltar que esse crescimento no número de acidentes não veio acompanhado de uma melhoria urgente na infraestrutura. A cidade tem cerca de 500 quilômetros de malha cicloviária no papel, segundo a própria CET-Rio. Entre 2023 e 2024, a expansão foi de apenas 1,9%, um dos menores índices entre as capitais do país.
E, honestamente, o debate que surgiu após a tragédia da Tijuca não pode se concentrar na regulamentação desses veículos elétricos. Isso seria fugir do problema verdadeiro. A questão estrutural é outra: a cidade não oferece alternativa segura para quem se desloca sobre duas rodas. Uma ciclofaixa na Conde de Bonfim, conectando a Tijuca ao Centro e às estações de metrô, não é luxo. É uma medida de segurança viária. O mesmo vale para eixos como a Avenida Marechal Rondon, a Rua São Francisco Xavier e os corredores de bairros como Vila Isabel e Grajaú.
Um dos recados da tragédia da semana passada grita ao nossos ouvidos. É o seguinte: infraestrutura cicloviária precisa deixar de ser tratada como política de lazer e passar a ser encarada como infraestrutura de transporte. A Zona Norte, assim como outras regiões do Rio de Janeiro, não pode continuar sendo o lugar onde pedalar é, por falta de opção segura, um risco de vida.
Pedro Duarte é vereador e presidente da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara do Rio

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