Pedro DuarteFoto Divulgação
Representa significativa mudança o início da operação do Bilhete Único das Margaridas (BUM), que, desde o último dia 1 de maio, oferece a passageiros uma nova modalidade de integração tarifária conectando os ônibus intermunicipais de parte da Baixada ao sistema BRT do Rio. Isso já é sentido no bolso: o passageiro pode agora realizar até quatro embarques entre BRT, VLT e ônibus municipais (ao longo de 20 horas) pagando apenas uma tarifa de R$ 5. Além desse benefício imediato, há avanços não tão óbvios assim à primeira vista.
Na ponta do lápis, o benefício imediato trará uma economia para trabalhadores que pagavam até abril, pelo mesmo trajeto em outros modais, quase o dobro em relação aos R$ 18,40 que passam a pagar agora em uma jornada completa de ida e volta entre a Baixada e o Centro do Rio. Não tão mensurável ainda - mas tão importante quanto - é a possibilidade que estamos criando para a criação de uma autoridade metropolitana de transportes, capaz de planejar rotas, tarifas e modais de forma integrada.
Quem me acompanha nesta coluna, sabe que essa é uma defesa minha antiga. Há tempos, defendo que precisamos parar de tratar a Região Metropolitana do Rio como uma colcha de jurisdições e passar a enxergá-la pelo que é: uma única realidade urbana, vivida por milhões de pessoas que atravessam fronteiras invisíveis todos os dias. Isso não beneficiaria só os cariocas, mas todos os cidadãos que moram nas cidades limítrofes à capital fluminense.
É interessante perceber que essa virada de chave acontece dois meses após um imbróglio conhecido - e imbróglios de nada ajudam a vida dos contribuintes! Em março, acompanhamos a briga causada pela inauguração do Terminal BRT Metropolitano, em Irajá. Na ocasião, teve de tudo um pouco: reboques de ônibus, ameaça de prisão a servidores. O impasse expôs a fragilidade da governança metropolitana. Não deveria ser assim. Não devemos tratar competências institucionais como muros, mas como pontes.
E é fato que uma promissora ponte se estabelece agora com a operação do BUM. Com essa ampliação da integração da tarifa, dez linhas intermunicipais passam a operar no terminal. Além das três de Mesquita que já estavam ativas, sete novas, sendo quatro de Nova Iguaçu e três de São João de Meriti, foram incorporadas; e, em breve, mais seis linhas de Nova Iguaçu se juntarão. A redução estimada do tempo de viagem chega a 50%.
O avanço é evidente em uma região onde cerca de 60% dos moradores trabalham na capital. É política pública com efeito direto sobre renda e qualidade de vida. Mas tais avanços não esgotam a agenda. Alguns exemplos: o Bilhete Único Intermunicipal segue limitado a um teto tarifário que ainda pesa no orçamento de muitos usuários; e a cobertura geográfica da integração metropolitana permanece aquém do necessário. É preciso mudar isso.
De qualquer forma, o BUM nos mostra que a coordenação entre estado, município e operadores em torno do passageiro, e não dos respectivos perímetros administrativos, melhora a vida concreta de centenas de milhares de pessoas. O desafio agora é transformar isso em prática constante. Que o BUM não seja exceção em uma trajetória marcada por conflitos, mas o primeiro passo de uma forma sistemática de pensar a mobilidade da Região Metropolitana do Rio.
Pedro Duarte é vereador e presidente da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara de Vereadores do Rio




Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.