Pedro DuarteDivulgação para o on-line
O sistema ferroviário metropolitano do Rio trocou de mãos no último sábado. É a primeira vez em quase três décadas. A Nova Via Mobilidade, que passará a operar sob a marca TrensRJ, assumiu os cinco ramais que ligam a capital a outros onze municípios da Região Metropolitana. Cerca de 270 quilômetros de trilhos, 104 estações, mais de 300 mil passageiros diários. Os desafios são enormes.
Nos anos 1980, os trens metropolitanos do Rio chegaram a transportar mais de um milhão de passageiros por dia. Eram o principal eixo estruturador da metrópole, conectando a capital à Baixada Fluminense num ritmo que o sistema atual não consegue sequer imaginar. Hoje, o volume diário não chega a 300 mil.
Parte dessa diferença não é queda de demanda; é demanda reprimida por um serviço que deixou de ser confiável. O subinvestimento crônico, os furtos sistemáticos de cabos de sinalização e a ausência de uma política tarifária coerente levaram a SuperVia a comunicar ao governo estadual, em 2023, que não tinha mais condições de manter a operação.
O novo contrato prevê investimentos superiores a R$ 600 milhões ao longo de cinco anos, com remuneração agora calculada por quilômetro rodado, um modelo que, em teoria, incentiva a oferta de mais viagens e não apenas a cobrança de mais passageiros.
A operação prática ficará a cargo do grupo português Barraqueiro, com experiência em concessões de transporte em três continentes. São premissas razoáveis. Mas elas não resolvem, por si só, o problema estrutural dos trens metropolitanos.
O que falta não é apenas um operador competente, é uma política metropolitana de transporte. A malha que a TrensRJ está herdando atravessa uma dezena de municípios, mas é operada como se existisse dentro de um único ente político. Não há integração tarifária com o metrô. Não há bilhetagem unificada com os ônibus municipais.
Não há autoridade com poder real para planejar, coordenar e fiscalizar o sistema como um todo. Cada modal funciona na sua própria lógica, e quem paga o preço dessa fragmentação é o passageiro, que faz baldeação entre trens, metrô e ônibus sem racionalidade alguma de rede.
No nível municipal, a Prefeitura do Rio avançou nessa direção com o Bilhete Único Margaridas, que integra BRT, VLT e ônibus municipais num mesmo sistema de pagamento. Mas essa integração, hoje, para no limite do município. Quem embarca num trem em Japeri e precisa continuar de metrô até o destino final paga duas vezes, em sistemas que não se comunicam.
No nível municipal, a Prefeitura do Rio avançou nessa direção com o Bilhete Único Margaridas, que integra BRT, VLT e ônibus municipais num mesmo sistema de pagamento. Mas essa integração, hoje, para no limite do município. Quem embarca num trem em Japeri e precisa continuar de metrô até o destino final paga duas vezes, em sistemas que não se comunicam.
A Região Metropolitana do Rio tem mais de doze milhões de habitantes. Uma parcela expressiva deles depende do transporte coletivo para trabalhar, estudar e acessar serviços básicos. Melhorar os trens é uma condição necessária para o fluminense ter uma melhor qualidade de vida.
Em municípios como Mesquita, Japeri e Queimados, mais da metade da população ocupada trabalha fora dos limites municipais, e depende do transporte para isso. Melhorar nossos trens é também uma forma de investir na nossa produtividade e na nossa economia.
A TrensRJ pode marcar o começo de um novo ciclo ferroviário para o Rio. No entanto, o Estado precisará ir além da troca de operador e construir, finalmente, a governança metropolitana de transporte que a região nunca teve.
Pedro Duarte é vereador e presidente da Comisssão de Assuntos Urbanos da Câmara do Rio




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