Publicado 16/03/2022 09:48 | Atualizado 16/03/2022 09:52
Rio - O Ministério da Justiça alterou a classificação indicativa do filme "Como se tornar o pior aluno da escola", de Danilo Gentili, nesta quarta-feira. A recomendação etária passou de 14 para 18 anos. No documento, a pasta cita que o longa possui "tendências de indicação como coação sexual; estupro, ato de pedofilia e situação sexual complexa". Também é recomendado que, na TV aberta, o filme só seja exibido após às 23h.
"Como se tornar o pior aluno da escola" foi lançado em 2017 e entrou recentemente na Netflix. Com isso, apoiadores de Bolsonaro começaram a fazer postagens nas redes sociais afirmando que o longa incentiva a pedofilia. Na trama, Fábio Porchat interpreta Cristiano, um pedófilo que tenta abusar dos adolescentes, mas não consegue.
"Vamos esquecer isso tudo, deixar isso de lado? A gente esquece o que aconteceu e, em troca, vocês batem uma punheta pro tio", diz o personagem de Porchat, que também coloca a mão de um dos meninos em seu pênis na cena em questão.
O Ministério da Justiça já havia determinado, na terça, que o longa fosse retirado das plataformas de streaming. Em nota enviada ao DIA, o Globoplay e o Telecine, ambos propriedade do Grupo Globo, classificam a determinação judicial como censura.
“O Globoplay e o Telecine estão atentos às críticas de indivíduos e famílias que consideraram inadequados ou de mau gosto trechos do filme 'Como se Tornar o Pior Aluno da Escola' mas entendem que a decisão administrativa do Ministério da Justiça de mandar suspender a sua disponibilização é censura. A decisão ofende o princípio da liberdade de expressão, é inconstitucional e, portanto, não pode ser cumprida”, diz o comunicado.
O comunicado encerra destacando que a decisão de assistir o filme, ou não, é de responsabilidade do assinante: “As plataformas respeitam todos os pontos de vista mas destacam que o consumo de conteúdo em um serviço de streaming é, sobretudo, uma decisão do assinante – e cabe a cada família decidir o que deve ou não assistir. O filme em questão foi classificado, em 2017, como apropriado para adultos e adolescentes a partir de 14 anos pelo mesmo ministério da Justiça que hoje manda suspender a veiculação da obra”, conclui.
Danilo Gentili e Fábio Porchat também se pronuciaram sobre o assunto. "O maior orgulho que tenho na minha carreira é que consegui desagradar com a mesma intensidade tanto petista quanto bolsonarista. Os chiliques, o falso moralismo e o patrulhamento: veio forte contra mim dos dois lados. Nenhum comediante desagradou tanto quanto eu. Sigo rindo", escreveu Danilo Gentili no Twitter.
Porchat enviou um comunicado à imprensa. "Como funciona um filme de ficção? Alguém escreve um roteiro e pessoas são contratadas para atuarem nesse filme. Geralmente o filme tem o mocinho e o vilão. O vilão é um personagem mau. Que faz coisas horríveis. O vilão pode ser um nazista, um racista, um pedófilo, um agressor, pode matar e torturar pessoas...", começou Porchat, em nota enviada por sua assessoria.
Em seguida, o humorista citou atores que interpretaram vilões famosos do cinema e da TV, relembrando personagens como Don Corleone, de "O Poderoso Chefão", Nazaré Tedesco, de "Senhora do Destino", e Dóris, de "Mulheres Apaixonadas". "O Marlon Brando interpretou o papel de um mafioso italiano que mandava assassinar pessoas. A Renata Sorrah roubou uma criança da maternidade e empurrava pessoas da escada. A Regiane Alves maltratava idosos. Mas era tudo mentira, tá, gente? Essas pessoas na vida real não são assim", destacou.
"Temas super pesados são retratados o tempo todo no audiovisual. E às vezes ganham prêmios! Jackie Earle Haley concorreu ao Oscar em 2007 interpretando um pedófilo no excelente filme 'Pecados Íntimos'. Só que quando o vilão faz coisas horríveis no filme, isso não é apologia ou incentivo àquilo que ele pratica, isso é o mundo perverso daquele personagem sendo revelado. Às vezes é duro de assistir, verdade", continuou o ator.
Fábio encerrou o texto citando fatos trágicos que se tornaram temas de grandes clássicos do cinema nacional: "Quanto mais bárbaro o ato, mais repugnante. Agora, imagina se por conta disso não pudéssemos mais mostrar nas telas cenas fortes como tráfico de drogas e assassinatos? Não teríamos o excepcional 'Cidade de Deus'? Ou tráfico de crianças em 'Central do Brasil'? Ou a hipocrisia humana em 'O Auto da Compadecida'. Mas ainda bem que é ficção, né? Tudo mentirinha", finalizou o comediante.
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