Cena do longa ’Irmãos Por Escolha’Divulgação

Rio - O documentário "Irmãos Por Escolha", do diretor Gabriel Mattar, é o primeiro longa filmado na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e acompanha o dia a dia intenso de treinamento dos cadetes, homens e mulheres que, em meio à rotina exaustiva, criam vínculos de amizade durante o processo de formação. Novidade no catálogo da Netflix, o filme surgiu da vontade do diretor, que perdeu o irmão ainda na infância, em explorar a relação de irmandade entre os jovens cadetes. 
"A ideia surgiu nessa busca de compreender quais são os mecanismos que tornam as pessoas irmãos por escolha, unidas e coesas. Como eu tive a morte do meu irmão muito cedo, eu sempre me interessei por esse assunto. O meu primo, que também passou por isso, fez um laboratório na AMAN para uma novela e me contou como esse laço era forte lá dentro. A gente cresceu vendo todo o tipo de filme de guerra e esses filmes sempre influenciaram, sempre foi claro que existe essa ligação. Lá nos deparamos com outras coisas, como a superação, o amor, a relação com a família, desenvolvimento pessoal e outros atributos que são trabalhados. O pontapé inicial foi essa camaradagem, mas a gente saiu de lá com várias outras coisas legais", destaca Gabriel. 
Vivência 
Para a gravação do projeto, o diretor e sua equipe imergiram na vivência dos cadetes. Ele detalha o processo, desde o consentimento para as filmagens até o dia a dia no batalhão. "Costumam dizer que o Exército tem muros baixos, e assim foi. Bati na porta da AMAN sem conhecer ninguém e prontamente fui direcionado ao Departamento de Comunicação. Falei da minha ideia e fui levado a um oficial, que entendeu o projeto e na mesma hora me apresentou ao comandante da Academia. Tudo isso em poucos minutos. Depois, fui até Brasília para oficializar e pegar as devidas autorizações. O mais interessante foi fazer todos os cadetes entenderem que, a partir daquele momento, haveria uma câmera civil presente em seus treinamentos e alojamentos. Demorou alguns meses para se tornar algo natural lá dentro", conta. 
"Tem um lado meu que gostaria de ter servido ao Exército, talvez tenha uma frustração nesse sentido. Então foi muito bacana ver de perto como funciona e passar um pouco do que eles passaram. O calor, a unidade na selva, alguns medos... Eu consegui me sentir parte da tropa. Eu percebi como eles se ajudam e queriam nos ajudar o tempo todo. É uma sensação muito boa você estar com um grupo forte e me faz pensar, em algum lugar um pouco inocente, de que isso pode se estender para a sociedade, quem consegue chegar nesse grau de união vai muito longe. No processo de fazer o filme eu aprendi que o perrengue e as dificuldades unem."
Dificuldades
Gabriel Mattar analisa o treinamento intenso realizado pelos cadetes durante as simulações e aponta o maior desafio enfrentado junto com eles. "Eu sempre pratiquei esportes radicais, então, me senti a vontade nas situações de perigo, mas fazer uma transposição na Amazônia foi algo desafiador para mim, carregando equipamentos por dias em longas distâncias, dentro da selva debaixo de chuva e sujeito a todos os riscos presentes na mata. Mas foi um sentimento muito bom acompanhar os jovens nesses lugares incríveis e superando as dificuldades enquanto eu me preocupava com a dramaturgia e a estética", relata. 
"Já a a maior dificuldade conceitual que eu tive foi isolar os assuntos e saber o que eu não poderia colocar no filme. É claro que tiveram as dificuldades físicas, de peso, condições climáticas, mas elas, quando você tem uma visão e um objetivo, se tornam aventuras divertidas. Dormir totalmente molhado na Floresta Amazônica, não dormir durante uma atividade dentro da AMAN, passar o calor do meio-dia no pátio, tudo isso são aventuras e divertido quando você sabe para onde está indo", completa. 
Visão da AMAN 
Sem conhecimentos prévios sobre a Academia Militar, o diretor entrega que suas primeiras impressões foram muito boas. "Eu sempre achei que fosse um lugar sério e cheio de disciplina, e é mesmo, mas eu não imaginava o carinho e o afeto que tem lá dentro. É realmente muito mais forte do que eu pensava, tanto entre os cadetes quanto dos instrutores para os cadetes. Durante as atividades de campo, aquela gritaria e punições todas são importantes para colocar os cadetes em um lugar de estresse, isso tudo faz parte de uma estratégia para colocá-los em um lugar emocional de crescimento. Mas no fundo, é um carinho muito grande. A privação da família e de casa faz com que eles se tornem famílias e os canais emocionais são supridos por eles."
Turma de Mulheres da AMAN
Durante as gravações, Gabriel Mattar pode acompanhar o primeiro grupo feminino de cadetes após 210 anos de existência da Academia. Ele explica como chegou até essas personagens. "Elas são chamadas de 'As Pioneiras'. Essas mulheres são pessoas que querem se superar e vencer os desafios. Isso se provou diariamente no campo. Elas carregam as mesmas mochilas e fuzis, superam os mesmos obstáculos, ainda que seus atributos físicos sejam diferentes. A abordagem foi bem simples e direta: filmamos as meninas da mesma forma que filmamos os meninos. Então, isso não chega a ser um tema do filme, o público apenas testemunha o que acontece. Tenho muito orgulho delas."
Reportagem da estagiária Letícia Pessôa sob supervisão de Tábata Uchoa