As adolescentes Melina, Millena, Manuella e Pietra são fãs de K-popÉrica Martin / Agência O Dia
'Não existe idade para ser feliz': Fenômeno do K-pop une diferentes gerações
Gênero musical sul-coreano ganha cada vez mais espaço entre brasileiros
Rio - Em 2012, a indústria fonográfica se via impactada com uma única música sul-coreana que quebrou todos os recordes e até obrigou o Google a modificar os códigos do YouTube a fim de contabilizar o real número de visualizações do hit "Gagnam Style", do cantor PSY. Desde então, o K-pop, estilo musical importado da Coreia do Sul, apenas cresce e cria cada vez mais fãs, arrastando multidões ao redor do mundo, independente da idade.
Apesar de PSY ter sido o responsável por furar a bolha do gênero para o ocidente, no estilo musical, os grupos, formados por um grande número de homens ou mulheres, são mais comuns. Atualmente, entre os mais e menos conhecidos, há uma estimativa de que existam mais de 200 bandas de K-pop, que investem nas canções chicletes, coreografias e um comportamento social próprio, que influenciam diferentes gerações no modo de agir, se vestir e até mesmo se alimentar.
Grupo sul-coreano arrastou multidão no Rio
Há pouco mais de dois meses, o Stray Kids, um dos maiores no meio do K-pop, mostrou sua força ao arrastar uma multidão de 55 mil pessoas em um show com estrutura grandiosa no Estádio Nilton Santos, o Engenhão, em uma terça-feira à noite. A apresentação do grupo - formado por oito integrantes: Bang Chan, Lee Know, Changbin, Hyunjin, Han, Felix, Seungmin e I.N -, que estava prevista para durar duas horas e meia, se estendeu por mais uma hora e ainda deixou os fãs com gostinho de "quero mais".
O grupo de amigas, que se uniu por causa do amor em comum pelo gênero, as adolescentes Manuella Gonzalez, 12 anos, Millena Freitas, 13, Melina Dantas, 13, e Pietra Chaves, 13, marcaram presença no Engenhão. Em conversa com O DIA, elas falaram sobre a emoção que foi ver os ídolos de perto no que foi o primeiro show de suas vidas.
"Foi inesquecível", celebra Manuella, que ficou marcada por dois momentos do show, quando a plateia emocionou o grupo ao continuar cantando "Cinema" e durante o momento em que o público levantou as lanternas. "Eu gostei quando começou, mas não gostei quando acabou", brinca Millena.
Para Melina e Pietra, os momentos de interação com o público em que os integrantes homenagearam o Brasil foram os mais marcantes. "Eu gostei quando o Bang Chan cantou 'Ai Se Eu Te Pego', foi muito legal", diz Melina. "Eu gostei muito dessas partes que elas falaram, mas eu também achei muito engraçado quando o Felix sambou, foi muito engraçado", ri Pietra.
Amor pelo gênero
Para algumas meninas, a paixão pelo gênero começou durante a pandemia de covid-19, enquanto outras descobriram a música coreana há pouco tempo. No entanto, uma delas carrega o amor pelo K-pop desde a infância. "Eu tinha 7 anos quando comecei a escutar Blackpink", conta Melina, que estava acompanhada da mãe, Roberta Dantas. "Faz seis anos que ela começou a escutar Blackpink, já fez até aniversário com o tema. Para mim aquilo era coisa de adolescente, mas a vi com 7 anos e já gostando", diz Roberta.
Algo muitas vezes visto como para crianças ou adolescentes, na verdade, arrasta uma multidão independente da idade. Ao DIA, a dentista Hellen Mary Costa, 54, contou que conheceu este universo através dos doramas, séries sul-coreanas de romance, e logo se apaixonou, inclusive, pela música.
"Eu tenho uma vida muito agitada, corrida. E um dia eu assisti um dorama chamado 'Sorriso Real', e me encantei. A nossa vida é muito dura, é muita cobrança. Quando você entra na sua casa e assiste a um dorama, te dá um conforto, vai acalentando. Já o K-pop, é maravilhoso. É um estilo de música dançante, leve, que te empolga", declara ela, que tem o grupo BTS como seu favorito.
Antenados a tudo que os idols, como são conhecidos os cantores de K-pop, fazem, os fãs usam as redes sociais para acompanhar os lançamentos e seguir os passos dos artistas. Para eles, o Spotify é um dos meios para escutar as músicas que seus ídolos produzem.
De acordo com a plataforma de streaming, de dezembro de 2023 a dezembro de 2024, o volume de streams de K-pop aumentou 9% no mundo e 20% no Brasil, número que reforça o crescimento de fãs brasileiros do gênero. No ranking dos 10 artistas mais ouvidos, estão BTS, Jimin, Jung Kook, Stray Kids, V, Jennie, Blackpink, TWICE, NewJeans, Aespa. Enquanto “Who”, de Jimin, “Seven” de Jung Kook com Latto, “Like Crazy”, de Jimin, “APT.” Rosé com Bruno Mars, e “FRI(END)S”, de V, são as músicas com mais plays.
Para Hellen, os integrantes do BTS já fazem parte de sua família. "Eles começaram jovens e deixaram as fãs acompanharem o crescimento deles. Parece que eles são da nossa família. A gente os viu crescendo, torcendo pelo sucesso deles. Eles fazem lives, como uma que o Jung-kook fez, dobrando as cuecas deles. Depois eles saem, vão cozinhar… e a gente vai acompanhando aquilo. Eles entraram nas nossas casas", conta ela, que usa a plataforma Weverse, do próprio grupo, e já combinou de assistir a transmissão ao vivo da saída do exército coreano de dois dos integrantes com as amigas.
Hellen, que para muitos pode ser considerada "velha demais" para gostar do gênero, afirma que os comentários negativos não a desanimam. "A questão aqui não é idade. A questão aqui é que cada um tem a sua válvula de escape, alguns escolhem academia… e a gente tem que respeitar. Não existe idade para você ser feliz e realizar seus sonhos. No meu tempo, eram os Menudos e eu não tinha condições de ver, de comprar uma revista…", afirma.
"Hoje eu me permito fazer o que quiser. Se eu puder alimentar a minha criança interior, a minha adolescente interior, vendo, indo em fan meeting, tocando na mão dos artistas… por que não?", acrescenta ela, que vai a eventos de fãs e certa vez encontrou com uma idosa chilena de 74 anos.
Cultura coreana em alta
Para os fãs de K-pop, apenas ouvir as músicas não é o bastante para sanar o desejo de se sentir mais perto de seus ídolos. O fenômeno trouxe consigo uma grande difusão da cultura coreana, que vem crescendo. Desde itens de decoração até comidas, passando pelas vestimentas e mudanças comportamentais, a estética de diversos elementos da Coreia do Sul toma cada vez mais espaço entre os brasileiros.
"A cultura asiática entrou com força total dentro das nossas vidas. Eu mudei a minha casa. Comprei um sofá novo para ver meus doramas, tenho todos os streamings que passam as séries… Eu já fui várias vezes a São Paulo para fazer imersão coreana, comprar produtos de skincare… porque você começa a se identificar com os personagens", diz Hellen, que já está com a viagem para a Coreia do Sul marcada.
Melina, por sua vez, é uma que já faz questão de deixar claro: "Eu já falei para a minha mãe que eu vou juntar meu dinheiro e vou para a Coreia, morar lá". Roberta conta que até os hábitos alimentares da filha mudaram. "Ela passou a consumir aquele macarrão instantâneo de copinho, porque eles fizeram propaganda. Tudo o que eles fazem, elas estão lá, atrás", afirma.
A comida, não somente coreana, mas a asiática como um todo, é uma das partes da cultura que foi importada pelos fãs de K-pop. Enquanto Hellen afirma ter mudado completamente seus hábitos alimentares, as adolescentes já têm um pé atrás. "Eu sou fresca para comer", revela Millena.
"Eu não gostava de comida apimentada, mas a comida coreana é apimentada, e eu comecei a frequentar restaurantes. Hoje eu tenho produtos, bebidas, doces… aqui em casa que compro quando vou a São Paulo e faço um estoque. Hoje é a minha comida favorita. Chego em casa, preparo minha comidinha e vou assistir dorama comendo", conta Hellen.
Idioma não impede paixão
Embora a língua seja uma barreira, os fãs de K-pop não se deixam desanimar por não entender o idioma. "Eu não entendo coreano, mas estou querendo aprender. Quando a gente vai escutar as músicas, vamos vendo a tradução delas", explica Manuella. "Eu só entendo o inglês, não entendo nada de coreano e coloco legenda em tudo", conta Millena, que brinca: "Canto em árabe, eu invento a minha própria língua".
"Eu não sei, mas prefiro quando eles falam inglês, que fica mais fácil. Mas, às vezes, algumas palavras mais básicas, quando eles repetem muito, já dá para pegar. Até no inglês, quando a gente começa a aprender, a gente acaba pegando, porque as pessoas falam com frequência”, diz Pietra.
Itens colecionáveis
Para aproximar os fãs, muitos grupos lançam bichinhos de pelúcia inspirados em seus integrantes. Além dos brinquedos, os kpopers, como são conhecidos os admiradores do gênero, colecionam diversos photocards, que são cartões colecionáveis com fotos de seus idols favoritos.
“Eu comprei uma caneca, bichinho de pelúcia do Stray Kids, e photocards”, conta Manuella. “Eu tenho os bichinhos, photocards e as camisas”, diz Pietra, que explicou como funciona a compra dos itens. “Os mais caros são os originais, porque eles enviam para o Brasil e tem impostos e taxas, então acaba ficando mais caro do que, por exemplo, na Coreia do Sul ou nos Estados Unidos. A gente consegue comprar pela internet, acho que não tem muito em loja física”, afirma.
“Tenho bastante itens. Tenho um quadrinho aqui na mesinha de cabeceira da minha cama, mas já mandei fazer um quadro maior”, conta Hellen, que também coleciona diversas fotos de seus ídolos.
Coreografias
Conforme lançam as músicas, boa parte dos grupos também criam coreografias próprias, algo que virou um fenômeno dentro do universo de K-pop. Embora tímidas, as adolescentes assumiram que gostam de dançar, mas que não dominam este aspecto. “Eu sei algumas, gosto de dançar, mas às vezes eu pareço uma lacraia”, brinca Melina.
“Eu gosto bastante de dançar, sei algumas coreografias, mais do grupo de meninas do que os de meninos”, diz Manuella. “Eu não sei muito, mas gosto”, conta Pietra. Acompanhada do pai, Bruno Freitas, Millena desconversa sobre o assunto, mas logo é entregue: “Ela aproveita que não tem nenhum apartamento aqui embaixo e às vezes, de noite, está aqui fazendo as danças”, ri.























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