Rio - O produtor carioca, Papatinho, de 38 anos, que já assinou faixas com Shakira e Snoop Dogg, decidiu voltar às raízes no novo álbum "Música Popular Carioca". Unindo nomes como Anitta, Fernanda Abreu, MC Marcinho (1977 - 2023), Cabelinho e Stevie B, o disco resgata a sonoridade dos bailes funk dos anos 1990 e transforma isso em festa: tem clipe inspirado na Furacão 2000, parcerias inusitadas e uma turnê que começa pelas comunidades do Rio — berço do ritmo que projetou o beatmaker para o mundo.
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- O título do álbum, "Música Popular Carioca", carrega uma dupla referência: à sigla MPC e à sonoridade dos bailes dos anos 90. Como surgiu a ideia de revisitar esse período tão marcante do funk carioca?
A ideia do Música Popular Carioca não surgiu de uma hora para outra - é algo que sempre esteve dentro de mim. Eu cresci ouvindo os pioneiros do funk dos anos 90, Rap Brasil 1, Rap Brasil 2, os álbuns da Furacão 2000…tudo isso fez parte da minha essência quando comecei a produzir rap e, depois, quando passei a viajar para fora do Brasil, percebi a força que eu tinha de levar essa batida daqui. A vontade era resgatar essa fase que moldou a minha história, mas não trazendo só para o meu mundo - eu quis entrar de vez no mundo deles e juntar essa galera toda com a nova geração.
- Você utilizou equipamentos originais da época, como a MPC, para compor e produzir o disco. Que impacto esse resgate técnico teve no processo criativo?
Usar a MPC original e as máquinas clássicas foi essencial para ter o som cru, autêntico, que marcou aquela fase. É diferente de usar só plugin. Eu gosto de sentir o beat na mão mesmo, samplear, cortar. Isso trouxe uma energia de estúdio que hoje em dia se perde um pouco. Foi tipo abrir uma cápsula do tempo, só que com a minha bagagem de hoje.
- Acredita que esse retorno às raízes pode provocar uma renovação no mercado?
Acho que sim. O trap já vem ficando repetitivo, então revisitar as raízes é uma forma de mostrar para a molecada de onde tudo veio. E ao mesmo tempo, isso dá um frescor para o som de hoje. Conecta o que é clássico com o que está rolando na pista agora. O funk é muito vivo, então mexer nessa essência sempre cria algo novo.
- O disco traz encontros inusitados entre gerações, como Fernanda Abreu com BK e Naldo Benny. Como foi o processo de curadoria desses feats e o que você buscava ao unir artistas tão distintos?
Eu sempre tive essa vontade de juntar lendas com nomes da cena atual. O conceito foi misturar quem abriu caminho lá atrás com quem está no seu momento agora. Por isso tem, por exemplo, MC Marcinho com Xamã, Cidinho com TZ da Coronel, Fernanda Abreu com BK e Naldo. Cada feat é uma ponte - eu entrei no mundo deles para fazer essa conexão acontecer de forma natural, respeitando o som de cada um.
- Algumas parcerias já haviam feito sucesso anteriormente, como Anitta e MC Cabelinho, mas outras foram inéditas. Qual faixa mais te surpreendeu durante as gravações?
Uma que me marcou muito foi a do MC Marcinho. A gente tinha gravado uma música há anos, mas estava numa pegada mais trap. Quando fiz o primeiro beat de Miami Bass, pensei na hora: 'vou refazer isso para o mundo dele'. E foi mágico ouvir aquilo ganhando vida com a energia certa. A faixa do Kevin O Chris, que foi tudo muito orgânico - ele apareceu no meu estúdio e saiu a música na hora, também foram incríveis os encontros de gerações como Cidinho General e Tz da Coronel, e Duda do Borel com Maneirinho e Stevie B com Ari.
- Além do som, Música Popular Carioca também tem um forte apelo visual, com clipes inspirados no programa da Furacão 2000. Como foi reconstruir essa estética e qual o desafio em reunir tantos artistas em um mesmo projeto audiovisual ?
Quis que o visual fosse bem fiel à época e por isso resolvi fazer os vídeos inspirados nos programas de TV dos anos 90, da Furacão 2000, na CNT. O figurino, assinado por Jady da Cal, foi essencial para essa viagem no tempo, assim como o cenário, dançarino, tudo remetendo àquela era. O desafio maior foi conciliar a agenda de tanta gente grande, mas quando a galera entendeu o conceito, todo mundo abraçou. É um tributo, mas também é algo novo.
- Como você enxerga a recepção do álbum entre os jovens que talvez não tenham vivido a era retratada, mas consomem o funk de hoje?
A molecada que não viveu aquilo vai entender de onde veio o beat que toca hoje. Vai ouvir e ver que muito do que rola no TikTok, nos paredões, vem desse som lá de trás. Eu acho que é uma forma de educar sem ser chato - é baile, é dança, é festa, mas também é cultura.
- Nos últimos anos, você rompeu fronteiras e tem levado o funk a estúdios internacionais, trabalhou até com a Shakira. Como tem sido a receptividade lá fora a esse som tão enraizado na cultura do Rio? Acredita que estamos diante de um momento de virada internacional do gênero?
Total! Eu vi o funk sair de um detalhe em uma produção para virar o elemento principal lá fora. Antigamente eu colocava um tamborzinho, um groove. Agora os gringos querem o 'Brazilian funk', do jeito que é aqui. E isso é só o começo - estamos num momento em que o funk vai dominar a pista no mundo todo.
- Você revelou uma parceria com o Kanye West, um dos nomes mais influentes da música global. Como surgiu esse convite e como foi a experiência de trabalhar ao lado dele? Já tem data para sair esse trabalho?
Cara, o Kanye sempre foi uma referência para mim como produtor. Foi uma conexão que rolou muito por causa da galera em comum em estúdios lá fora. Ainda não posso dar detalhes de data porque tudo muda muito rápido, mas o mais irado foi ver que ele curte essa fusão do som daqui com o que ele já faz. É uma troca absurda.
- Você anunciou uma turnê que vai passar por comunidades cariocas, o berço do funk. O que representa para você retornar a esses espaços com esse projeto e o que podemos esperar?
Voltar para as comunidades é fechar o ciclo. O funk nasceu ali, então não fazia sentido lançar esse álbum e não levar de volta para as origens. Vão ser shows mais próximos do público, vibe de baile de verdade - e a ideia é que cada show conte um pedaço dessa história.
- Após Música Popular Carioca, você já tem outros projetos em andamento? Podemos esperar uma continuação ou algo completamente novo?
Estou sempre criando. Já tenho ideias para seguir essa linha e outras viagens sonoras também. Mas agora quero viver o MPC ao máximo. Turnê, conteúdo, collabs. Depois disso, vem novidade.
- Pensando a longo prazo, você vislumbra um álbum voltado totalmente para o público internacional, mas ainda com a base do funk carioca?
Sem dúvida. Eu quero fazer isso de forma natural, sem perder a raiz. Eu tenho muita música inédita feita com artistas de fora do país. O som do Rio é minha identidade, mas acho que o mundo está pronto para ouvir o funk como ele é. Então, pode esperar que isso vai acontecer na hora certa.
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