Temas abordados em ‘Babilônia’ provocam debate sobre questões morais

Para o autor Ricardo Linhares, repercussão da trama com discussão social na internet e nas ruas é sucesso que vai além da audiência

Por daniela.lima

Rio - Desde o primeiro capítulo, os temas abordados em ‘Babilônia’ vêm provocando um debate sobre questões morais. Muito mais do que o beijo entre Estela (Nathalia Timberg) e Teresa (Fernanda Montenegro), criticado pela bancada evangélica do Congresso Nacional, a trama de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga é um retrato de novas relações da sociedade. Conflitos ente pais e filhos, ambições desenfreadas, corrupção, traições e assassinatos fazem de ‘Babilônia’ um novelão clássico, com pitadas exageradas de uma realidade que não pode ser resumida apenas ao tema homossexualismo. 

Inês (Adriana Esteves)%2C Regina (Camila Pitanga) e Beatriz (Gloria Pires)%3A temas polêmicosDivulgação


“A reação progressista à novela é muito maior e mais forte do que o incômodo que o beijo de Teresa e Estela possa ter causado. Ele foi libertador para milhares de pessoas que são discriminadas no dia a dia pela sua condição sexual. E também atraiu o apoio do público esclarecido”, analisa Ricardo Linhares.

Não é a primeira vez que uma novela do horário nobre provoca reações extremas. Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia brasileira e latino-americana pela USP, lembra que outra trama de Gilberto Braga, ‘Corpo a Corpo’, de 1984, causou muita polêmica na época ao unir uma negra, Sônia (Zezé Mota), a um jovem empresário branco, Cláudio (Marcos Paulo). Sobre a repercussão de ‘Babilônia’, ele vê um movimento “natural e saudável” e ressalta que a arte funciona como mediadora social. “Em particular a telenovela brasileira contribui decisivamente para o bom convívio social ao eleger todos os temas do cotidiano como matéria-prima para a ficção”, diz.

A cada capítulo, essa discussão de relações familiares e temas sociais se amplia. Depois de mostrar Inês (Adriana Esteves) e Alice (Sophie Charlotte), mãe e filha, se estapeando, a novela levou ao ar anteontem uma cena em que Guto (Bruno Gissoni) enfrenta o pai, Evandro (Cássio Gabus Mendes). E, mais uma vez, ofereceu combustível para aqueles que acusam a trama de destruir a família.

Para Linhares, independentemente da audiência, a novela é um sucesso de repercussão, tanto na internet quanto nas conversas cotidianas. “É um excelente termômetro”, afirma. Mas o autor admite que, quando se aborda temas polêmicos, que ainda são tabu na sociedade, como a relação homoafetiva entre duas mulheres na terceira idade, não dá para agradar a todos. “É natural que haja certa dificuldade de parte do público, que é mais resistente. Junta-se dois preconceitos: contra as lésbicas e contra o amor maduro”, diz ele.

Ricardo Linhares garante que não há motivos para mudar nada na trama. “Ainda não há previsão para o primeiro grupo de discussão, promovido pela Globo para ouvir a opinião de telespectadores. Normalmente, a reunião acontece por volta do capítulo 24, com mais ou menos um mês de novela no ar”, calcula Linhares.

No debate moral provocado pela novela, o sociólogo Marcos Mello aponta o avanço de dois segmentos distintos: um grupo mais libertário, que aproveita as redes sociais para se manifestar, e outro bem mais conservador, ligado ao crescimento das igrejas evangélicas. “Na verdade, cada grupo está brigando por sua clientela. Os valores morais não são os mesmos. Os segmentos mais modernos estão falando de uma nova família e aceitam outras combinações. Já os conservadores estão defendendo a família padrão, tradicional, com pai, mãe e filhos”, explica.

“Acho impressionante que as pessoas se sintam mais agredidas com beijo gay do que com homem casado que engravida outra, uso de sexo para manipular e mãe que faz a filha virar prostituta. É uma inversão de valores”, analisa a professora Sandra Marques.

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