Rio - Provavelmente desde que entrou na televisão, há quase 42 anos, todos os personagens de Christiane Torloni usam leque. Isso veio da avó da atriz, dona Luzia. “O leque é um elemento de comunicação; eu não tenho um personagem sem leque. Já tentaram, mas não conseguiram”, entrega Torloni. Eles vão quebrando, ela nem sabe quantos já teve, muitos com certeza. Para a intérprete de Iolanda, de ‘Velho Chico’, o acessório é uma extensão do corpo dela e faz parte da formação dela como pessoa.
“Tenho muitas histórias, mas não posso contar. De vez em quando, a gente esbarra com o leque nas pessoas. Antigamente, as pessoas fumavam e eu esbarrava no cigarro delas. Tem gente que gosta do leque no elevador. E ele delimita um espaço que a pessoa deve chegar ou não perto de você. As pessoas têm que ficar pelo menos 50 cm longe de você”, confessa.
Na novela das 21h da Globo, a personagem de Torloni vira e mexe aparece com um leque em mãos, principalmente quando está nervosa. E na reta final da novela, o acessório será muito utilizado. Depois da morte da sogra, Encarnação (Selma Egrei), a “gitana” abandonará o marido Afrânio (Antonio Fagundes).
“Com a morte da Encarnação, a casa deixa de ter sentido. Na verdade, o coronel está num caminho que aparentemente é sem volta. Ele vive consigo mesmo, uma solidão blindada, e de qualquer maneira a Tereza e o Miguel já saíram. Com a morte da Encarnação, ela não vê sentido em ficar. Por que ela vai ficar lá? Ela vai em busca do que sobrou dela”, conta a atriz. “O amor não é uma coisa abstrata. O amor é prática. Você conta o amor. É uma ciência contábil, sim. Você materializa o amor. Porque você dá uma aliança, um presente, uma flor, entre outros? Está materializando o afeto. E o Afrânio destrói o roseiral dela”, completa.
FUTURO DE IOLANDA
Torloni torce para que sua personagem termine feliz. Não importa se o desfecho dela será com Afrânio, com um novo amor ou sozinha. Para Iolanda, tanto faz porque a saída dela de casa é justamente para buscar algo e não desistir de si mesma.
“Tem gente que desiste. Que pendura a chuteira. Enquanto há vida, há esperança”, frisa.
Aos 59 anos — ela completa 60 em fevereiro de 2017 —, Christiane tem muitos sonhos. Aliás, não vive sem eles. E um deles é fazer uma das minisséries que levam um olhar mais cinematográfico para a TV. “Acompanho desde ‘Amores Roubados’ e antes também. É uma perspectiva de dar ao ator o melhor chão para ele poder se apoiar e voar. Acho muito difícil eu voltar imediatamente pra novela, até porque os personagens precisam de um tempo. Se imaginar, a personagem Tereza Cristina ficou em um lugar. Eu e Marcelo Serrado estamos em cena, e ninguém ligava aos personagens antigos (de ‘Fina Estampa’)”, compara.
A atriz também é conhecida por seu engajamento ambiental. O sentido de proteger o meio ambiente sempre esteve presente nela. Quando mais nova, Torloni até cogitou fazer oceanografia, mas a vida tinha outros planos. “O destino me mandou fazer outras coisas, então tive que fazer o que tinha que fazer pra poder depois cumprir minha missão. Agora, falo melhor, talvez, como atriz do que se eu estivesse em outra área”.
MEDO DE ACIDENTE
Torloni é uma mulher prática. “O único medo que tenho na vida é ter um acidente físico que me impossibilite de trabalhar. O resto a gente trata na terapia e vai embora”, destaca. Quando protagonizou a novela ‘A Viagem’, ao lado de Antonio Fagundes, a atriz, que foi criada em família cristã e afirma não ter religião, confrontou-se com questões espirituais. “A doutrina kardecista é muito bonita e muito cristã, mas sou uma pessoa que tem muitas dúvidas. Reencarnação, karma... Quando fui à Índia, voltei com mais dúvidas. Mas sou uma pessoa de muita fé. Estudo budismo há muitos anos e percebo que a essência mística da maioria das religiões é a mesma”, observa.
Um dos personagens polêmicos na carreira da atriz foi a Rafaela de ‘Torre de Babel’, que vivia um romance homossexual com Leila (Silvia Pfeifer). Na sinopse da novela, a personagem Rafaela já estava prevista para morrer, mas a baixa aceitação do público para a trama fez com que o autor matasse também a companheira dela.
“As pessoas torciam profundamente por aquele casal. Não tinha confusão. Nunca tive essa questão de superposição com o personagem. Desde a sinopse, eu sabia que a Rafaela ia morrer. Quem não morria era a outra. O que foi guardado a sete chaves era isso”, lembra a atriz. “Acho que estamos caminhando muito bem depois de ‘Liberdade, Liberdade’”, acrescenta.
Estreando na função de diretora do documentário ‘Amazônia, da Cidadania à Florestania —Um Despertar’, Torloni está adorando a nova função. O filme está em fase de finalização nesse segundo semestre, e a previsão de lançamento é no ano que vem. “Mas tudo sem ansiedade, não sou uma cineasta. É só um registro daquilo que eu tive a oportunidade de viver. Eu estou caprichando, como faço com tudo o que eu realizo na vida”. E o que você pensa da atual situação política do Brasil? “Nada disso nem ninguém que está ali me representa”, frisa.
