Gilliard fala sobre nova fase na TV e recorda os 'nãos' que recebeu na carreira

Cantor está todas as quartas, às 22h30, no júri do 'Canta Comigo', batalha de novos astros da música da Record, apresentada por Gugu Liberato

Por RICARDO SCHOTT

Gilliard
Gilliard -

Rio - Aquela nuvem que passa lá em cima é ele. E há 40 anos. Se você achava que Gilliard estava sumido, o cantor não só não passou como a tal nuvem de 'Aquela Nuvem,' seu primeiro hit (composto em 1977 e gravado em 1979), como vem com novidades: 1) teve boa parte de sua obra reeditada em plataformas digitais (em CD, os discos estão sendo lançados pelo selo Discobertas, do pesquisador Marcelo Froes); 2) está todas as quartas, às 22h30, no júri do 'Canta Comigo', batalha de novos astros da música da Record, apresentada por Gugu Liberato; 3) adianta a comemoração de 40 anos de seu primeiro hit com um single novo, 'Folha ao Vento', lançado pela Som Livre.

Gilliard, um sujeito bastante espiritualizado, compôs seu primeiro hit quando viajava na Barca Rio-Niterói. Estava desconsolado por ter saído do lugar onde nasceu, Natal (RN) para batalhar no Rio. E - que não vire hábito para ninguém - resolveu, ali mesmo, acertar as contas com Deus aos brados.

"Eu morava em Niterói, ali na região do Gragoatá, São Domingos, desde adolescente. Muitos músicos de Niterói me conheceram molequinho. Conheci o Eduardo Lages (maestro de Roberto Carlos), que morava em Icaraí, na Rua Lopes Trovão. Conheci o Chico Roque (compositor), filava boia na casa dele", brinca o cantor de 61 anos. "Um dia, em 1977, peguei a barca, um calor de 40 graus. Eu comecei a xingar Deus, a gritar. A barca estava lotada, todo mundo deve ter visto. Eu tinha cabelo comprido e encaracolado, parecia um andarilho. Aí naquele momento, a letra e a música de 'Aquela Nuvem' vieram", recorda o cantor.

Gilliard lembra de ter chorado ao chegar à Praça 15. E de ter pedido perdão a Deus quando chegou a Niterói. "Não esqueci nem a letra nem a música! Na hora, senti algo forte me tocando, me fazendo refletir. Talvez tenha sido uma consciência espiritual me mostrando qual caminho seguir", conta. Seja como for, os caminhos se abriram: Gilliard resolveu ir a São Paulo tentar a sorte e acabou contratado pela RGE, selo popular ligado à Som Livre. "As pessoas me receberam lá como se me conhecessem!", espanta-se.

Gilliard - divulgação

SILVIO E CAZUZA

'Aquela Nuvem', gravada no Carnaval de 1979 e lançada em agosto, abriu espaço para outros hits: 'Pouco a Pouco', 'Não Diga Nada' e até a infantil 'Festa dos Insetos', de 1983. Sim, o tema (o do "torce, retorce...") ainda é um dos mais pedidos nos shows dele. E quase não foi lançado.

"A gravadora era contra, falavam que eu ia queimar minha carreira lançando música infantil. Gravei pouco antes de aparecerem aqueles artistas infantis, A Turma do Balão Mágico, Xuxa. E eu tinha fãs crianças!", conta o cantor, que foi salvo por Silvio Santos.

"Ele me levou até o camarim dele quando fui ao 'Qual É A Música'. Me disse para eu convencer o pessoal da gravadora. Ainda falou: 'Se eu fosse um cantor, para ficar famoso, eu cantaria até 'Mamãe Eu Quero'", conta Gilliard, que pouco antes disso, tinha a ajuda de um divulgador chamado Cazuza. Era o próprio cantor de 'Exagerado', antes da fama.

"Ele me levava para o aeroporto, para o hotel, para as TVs, quando eu ia para o Rio. Me deu uma lição de humildade: nem sabia que ele era filho do João Araújo (dono da Som Livre e da RGE). Um tempo depois, fui à Som Livre e estava lá o Cazuza dando uma entrevista para lançar o Barão Vermelho. Ele me viu e disse: 'Gilliard, tô falando aqui que trabalhei com você. É verdade ou não é?'", conta o cantor, que desde os anos 1990 tem tido bastante popularidade em Angola, com shows constantes por lá. "Era para eu ter ido um pouco antes, mas o país estava em guerra. Mas me espantei com o que vi lá: músicas como 'Eu Digo Sim, Ela Diz Não', eles cantam na rua!", conta, ele, hoje recordando sucessos e mostrando novidades na turnê 'Um Convite À Minha Voz', que roda o Brasil.

FALANDO EM 'NÃO'...

Gilliard Cordeiro Marinho (sim, o nome dele é esse mesmo) cantava desde a infância em Natal. "Os casais brigavam e os caras falavam com minha mãe: 'Pode emprestar o Gilliard um minutinho?'. E eu tinha que cantar para as namoradas deles voltarem! Em alguns minutos, estava todo mundo se beijando. E eu: 'Tô fazendo milagre'", recorda, rindo, o cantor, casado desde 1981 com Silvia, ex-integrante do grupo vocal Harmony Cats, e pai de Sylvio (que é seu assessor de imprensa e vai se lançar como cantor) e Bruna (médica). Gilliard hoje vê no 'Canta Comigo', ao avaliar os calouros, um pouco da sua história.

"Recebi muito não. Quando cantava em concurso, participava em troca de lata de biscoitos. Sempre ouvia: 'Lá vem aquele anãozinho'. Quando conseguia mostrar meu trabalho numa gravadora, sempre ouvia: 'Seu som tinha que ser mais dançante', e eu era um cantor romântico", recorda. "Conto essas histórias em shows e palestras e sempre dou o exemplo do Cartola, que estourou após os 70 anos. E falo que a vida é o maior tesouro que a gente tem".

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