O mercado em ascensão dos bancos digitais

Para vice-presidente de um deles, essas empresas 'estão democratizando o acesso ao sistema financeiro' na medida em que diversificam a oferta de serviços bancários

Por *Luiza Ferraz

Os fabricantes de smartphones e eletrodomésticos passaram a poder investir também em pequenas empresas de tecnologia)
Os fabricantes de smartphones e eletrodomésticos passaram a poder investir também em pequenas empresas de tecnologia) -

Rio - Não é preciso passar o dia inteiro na rua para conseguir ver pessoas utilizando celulares — seja para jogar, enviar mensagens, checar redes sociais ou fazer ligações. Uma nova funcionalidade, contudo, tem ganhado a atenção dos brasileiros. Realizar transações bancárias para transferir dinheiro, efetuar pagamentos, solicitar cartão de crédito e até mesmo abrir uma conta em um aparelho smartphone está cada vez mais fácil. O número de movimentações financeiras feitas pelo celular, no país, cresceu 70% em 2017, chegando a 1,7 bilhão de operações. Os dados são da última Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, divulgados no ano passado.

Para além da transição para o digital pelos bancos mais tradicionais, o mercado dos chamados bancos digitais está em ascensão no Brasil. Ainda segundo a pesquisa da Federação Brasileira de Bancos, foram contabilizadas 373 fintechs deste tipo somente em 2017. Ou seja, um aumento de 260%, quando comparado ao número do ano anterior, de empresas que estão surgindo e inovando no setor financeiro ao fornecer serviços bancários inteiramente baseados em tecnologia. O número de agências digitais representa cerca de 1,7% do total de agências no país, que era de 21,8 mil naquele período — valor menor do que no anterior, de 23,4 mil.

O engenheiro de software Luiz Filipe Gonçalves Parreira, de 27 anos, aproveita facilidades por parte dos dois tipos de agências. Ele é correntista há cerca de 1 ano no banco digital Neon. "O atendimento é feito inteiramente pelo aplicativo e não tenho ninguém me ligando para oferecer produtos que não quero comprar", destaca.

Apesar da gratuidade de muitos serviços, cada instituição possui uma regra diferente para realizar cobranças. No caso de Luiz Filipe, o banco onde tem conta oferece um limite para a quantidade de saques. Segundo ele, nessas ocasiões, para não precisar pagar para retirar o dinheiro, ele recorre a um banco físico onde permanece como correntista por causa desse tipo de situação.

O que torna um banco digital?

Segundo a Febraban, para que um banco seja considerado digital ele precisa cumprir três requisitos básicos. A agência precisa garantir processos não presenciais, com captura digital de documentos e informações, além de adotar uma coleta eletrônica de assinaturas.

Também é importante assegurar o acesso a canais eletrônicos para todos os tipos de consultas e para contratação de produtos. Por último, é necessário apresentar solução de problemas por mais de um canal sem que o cliente precise ir a uma agência física. O maior atrativo desses bancos, no entanto, são os valores das tarifas, que, ou não existem para determinadas movimentações bancárias, ou são mais baixas quando comparadas às instituições mais tradicionais.

Apesar dos benefícios, nem todo correntista está disposto a se tornar "digital". A aposentada Iliá Arci Mattos Souza, de 71 anos, conta que realiza algumas transações pelo telefone, mas garante que não abriria uma conta em um banco sem agência física. Segundo ela, o contato humano é essencial. “No digital, você fica presa ao que o sistema te oferece. Já no presencial, você pode conversar, dialogar com o seu gerente e conseguir coisas que você não conseguiria no outro. O contato sempre é muito melhor, até porque se a nossa vida fosse totalmente digital seria um caos, você não teria com quem interagir”, ressalta Iliá, que aproveita para passear quando precisa ir ao banco.

Mercado em crescimento

Apesar de algumas pessoas terem como preferência o atendimento presencial, como é o caso de Iliá, mais de 1,6 milhão de contas foram abertas pelo celular em 2017, número três vezes maior do que no ano de 2016, ainda segundo a pesquisa da Federação Brasileira de Bancos.

Para o vice-presidente e diretor do setor de Relação com Investidores do Banco Inter, Alexandre Riccio de Oliveira, os bancos digitais “estão democratizando o acesso ao sistema financeiro”. "Na nossa visão, o aumento da concorrência e a diversificação da oferta de serviços bancários é um movimento bastante positivo, que beneficia o consumidor. Mesmo os públicos mais velhos já estão se habituando a utilizar serviços digitais. Prova disso é que atualmente 48,5% dos nossos clientes possuem mais de 30 anos", garante.

De acordo com o banco, empresa obteve R$ 74,2 milhões de lucro líquido no quarto trimestre de 2018, o que representou um aumento de 38% na comparação com o ano anterior. No mesmo período, ela registrou uma média de 7,7 mil contas abertas por dia útil. A instituição pretende continuar ampliando o portfólio de produtos para reduzir o custo de funding — captação de recursos — e repassar a economia adquirida em taxas de juros menores e maior rentabilidade em investimentos para os correntistas.

Em razão desse leque de opções com baixo custo, as instituições bancárias mais tradicionais têm esses bancos menores e com alto investimento em tecnologia como seus principais concorrentes. Foi o que Goldwasser Pereira Neto, CEO da Accountfy — plataforma de gestão financeira para empresas — ouviu durante uma reunião com uma dessas entidades. Para ele, a complexidade e a burocracia desses bancos podem ser alguns dos motivos para o crescimento desse novo setor. "Essa flexibilidade ajuda muito as pessoas (que querem abrir uma conta ou solicitar crédito)", afirma.

Quanto à segurança oferecida por essas fintechs, Goldwasser acredita que o tamanho dessas empresas, quando comparadas a instituições maiores e de mais visibilidade, pode chamar "menos atenção" de hackers – pessoas que se dedicam a uma área específica da computação e descobrem utilidades antes desconhecidas em um sistema, como por exemplo uma brecha de segurança.

Devido à intensa utilização de meios eletrônicos para realizar transações financeiras e às inovações tecnológicas nesse setor, o Conselho Monetário Nacional (CMN), órgão superior do Sistema Financeiro Nacional que tem a responsabilidade de formular a política da moeda e do crédito, editou uma resolução que regulamentava a política de segurança cibernética no ano passado. A medida obriga instituições financeiras a implementarem política de segurança cibernética e estabelece requisitos para a contratação de serviços de processamento e armazenamento de dados e de computação em nuvem, além de um plano de ação com os procedimentos e controles adotados pela instituição. Apesar de já estar em vigor, o prazo para a sua adoção vai até o dia 6 de maio deste ano.

Diversidade de serviços na palma da mão

Dois dos principais bancos digitais mais utilizados no país são o Banco Inter – que, em dezembro do ano passado, chegou a marca de 1.450 milhão de clientes – e o Banco Original – que fechou 2017 com uma base de mais de 500 mil usuários, com crescimento de 134% comparado ao ano anterior. Ambos oferecem grande oferta de serviços como: conta corrente, cartão de crédito, investimentos, saques, depósito de dinheiro por boleto, depósito de cheque por imagem, seguros e demais opções.

Outra facilidade desses bancos é o atendimento remoto. Os profissionais, por exemplo, interagem com os clientes por meio de ferramentas de comunicação, como chat, vídeo-chamadas, telefone e outras tecnologias. O que faz com que o usuário não precise sair de casa para resolver eventuais problemas.

O valor ou gratuidade de cada um deles, no entanto, vai depender de cada instituição. Nos dois casos, o usuário tem direito a conta sem taxa de manutenção. Contudo, no Banco Original por exemplo, a anuidade do cartão de crédito vai depender do pacote contratado pelo cliente. Ele fornece quatro tipos de cartões com benefícios diferenciados em que é possível ter desconto parcial ou total da anuidade dependendo da sua movimentação financeira. Já no Banco Inter, esse tipo de taxa é inexistente. Dessa forma, fica a cargo do usuário escolher a agência que estiver mais alinhada ao seu perfil.

Na comparação de valores, os bancos digitais muitas vezes têm vantagens sobre os bancos tradicionais com agências físicas. Isso se deve a alta quantidade de taxas cobradas por essas agências. Correntistas estudantes conseguem descontos como na tarifa de manutenção da conta ou na anuidade do cartão de crédito. Clientes que trabalham em empresas parceiras às instituições também podem ter benefícios como transferências eletrônicas (TEDs) entre bancos diferentes gratuitas.

Mas, para garantir a competição, bancos com agências físicas investem constantemente em tecnologia. É o que garante a pesquisa Febraban de 2018, em que 80% das instituições financeiras analisadas afirmam investir em inteligência artificial e em computação cognitiva – tecnologias que se complementam. Ambas estão diretamente ligadas à entrega de maior comodidade e assertividade aos consumidores no momento em que eles utilizam os serviços disponíveis.

Facilidade de abertura de conta

Diferentemente da época em que era necessário ir até a instituição bancária para abrir uma conta, os bancos digitais permitem que isso seja feito em alguns minutos por meio de uma das tecnologias mais usadas pelos brasileiros: o celular. Em 2017, cada habitante possuía, em média, mais de um dispositivo. O dado é da pesquisa da 29ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, divulgada pela FGV-SP.

O usuário precisa baixar o aplicativo para celular referente ao banco onde deseja ser correntista e iniciar o processo de criação de conta. É necessário que o dispositivo tenha câmera traseira para tirar foto de documentos como identidade, CPF e comprovante de residência. Eles são solicitados dessa forma pelo fato de não existir um estabelecimento fixo onde deixá-los. Portanto, o processo é totalmente digitalizado.

*Estagiária sob supervisão de Ricardo Calazans