O Brasil registrou em 2024 o menor número de nascimentos em quase 50 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com isso, voltaram à tona as discussões sobre como a ausência de políticas públicas — além, é claro, dos altos custos — tem influenciado no adiamento da maternidade ou até mesmo na escolha de não ter filhos. A inserção no mercado de trabalho nas últimas décadas possibilitou maior autonomia para as mulheres, mas ainda há uma série de obstáculos a serem enfrentados para que exista, de fato, um "poder" de escolha que permita conciliar carreira e maternidade.
O levantamento do IBGE mostrou que, atualmente, 40% das mulheres que decidem ter filhos têm mais de 30 anos — enquanto, em 2003, o percentual era de 23,9%. O adiamento da maternidade está ligado a uma combinação de fatores, como o próprio mercado de trabalho — com a prioridade de se qualificar e ocupar seu espaço antes de engravidar — e os avanços da medicina, que ampliaram as possibilidades com as técnicas de fertilização. O DIA conversou com especialistas em gênero, trabalho e demografia para entender como a queda de natalidade está relacionada a esse contexto. Também foram ouvidas mulheres que escolheram adiar a maternidade.
O papel do Estado na conciliação entre maternidade e carreira
No segundo trimestre de 2024, o nível de ocupação das mulheres no mercado de trabalho chegou a 48,1%, o maior da história. Em 2000, esse índice era de apenas 35,4%. Já a taxa de fecundidade — número médio de filhos por mulher — caiu de 2,32 em 2000 para 1,57 em 2023, segundo o Censo do IBGE. Os dados evidenciam que, enquanto mais mulheres ingressam no mercado de trabalho, menos optam por ter filhos. Isso levanta uma questão central: é possível conciliar maternidade e carreira profissional no Brasil de hoje?
Especialistas alertam que a equação não é tão simples, já que outros fatores também interferem na decisão de ter filhos. A professora Thays Monticelli, que atua na área de sociologia do gênero na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou que a ausência de políticas públicas por parte das autoridades dificulta a conciliação entre maternidade e trabalho, o que faz com que muitas mulheres sintam-se obrigadas a escolher um dos dois caminhos.
"Não necessariamente o mercado de trabalho influencia diretamente na decisão das mulheres de serem mães ou não. Na verdade, o que as influencia nessa escolha é o que o Estado e o mercado de trabalho deixam de oferecer para as mulheres, como a licença parental. A diferença entre os dias de licença oferecidos por lei para mães e pais mostra o preconceito estrutural que ainda existe na sociedade brasileira", afirmou Thays.
Atualmente, a licença maternidade no Brasil é de 120 dias, podendo chegar a 180 em alguns casos. Já os homens têm direito a cinco dias de licença paternidade, mas esse período pode ser estendido para até 20 dias caso trabalhem em companhias participantes do Programa Empresa Cidadã. A especialista explica que o País ainda conta com uma estrutura arcaica relacionada à divisão das tarefas dentro de casa, o que dificulta ainda mais o papel da mulher na sociedade.
"Ainda contamos com um sistema bastante clássico de cuidados dentro de casa, da divisão sexual do trabalho, em que as mulheres são as pessoas que mais ocupam suas horas para administrar suas casas e cuidar de suas crianças. Desse modo, ainda temos ideologias e políticas muito restritivas sobre como as crianças devem ser cuidadas, o que torna cada vez mais difícil para a mulher conseguir ocupar seu lugar também no ambiente profissional", disse.
A desigualdade no tempo de licença também perpetua a ideia de que o cuidado é responsabilidade quase exclusiva das mulheres, deixando os homens à margem desse processo. Ao não incentivar uma participação mais igualitária dos pais, o Estado, por meio das políticas públicas, reforça estereótipos sociais e culturais que sobrecarregam ainda mais as mães.
Adiamento da maternidade
De acordo com levantamento do IBGE, em 2022, 20,7% das mulheres com 25 anos ou mais tinham nível superior completo, enquanto entre os homens da mesma faixa etária essa proporção era de 15,8%. Esse avanço da escolaridade feminina tem impacto direto nas decisões relacionadas à maternidade, com mais mulheres investindo na formação acadêmica e buscando se firmar no mercado de trabalho.
Entre 2003 e 2023, o percentual de mães que tiveram filhos entre 30 e 34 anos cresceu de 14,6% para 21%, considerando o total de nascimentos no País. A pesquisadora em mercado de trabalho Janaína Feijó comenta que esse movimento reflete uma escolha consciente das mulheres em priorizar a carreira antes da maternidade.
"Com o crescimento do acesso das mulheres ao ensino superior, muitas optam por adiar a maternidade para consolidar sua trajetória profissional. Elas preferem esperar até ter estabilidade financeira e segurança na carreira antes de ter filhos. Além disso, o aumento dos custos relacionados à criação de crianças faz com que as famílias tenham menos filhos e mais tarde", explicou Janaína.
A psicóloga Anna Beatriz dos Santos, de 28 anos, contou que preferiu adiar a maternidade para focar em sua qualificação profissional, devido aos altos custos de criar um filho, mas espera estar pronta para essa nova fase em até dois anos.
Anna Beatriz dos Santos contou que espera ter filhos daqui a dois anosArquivo Pessoal
"Preferi adiar a decisão de ser mãe para concluir a faculdade e me estabelecer no mercado. Terminei a graduação há dois anos, mas continuo investindo em especializações, com o objetivo de me qualificar e me posicionar profissionalmente antes da maternidade. Planejo ter filhos, mas, antes de tudo, preciso me estabilizar financeiramente — ainda mais em uma sociedade que exige que a mulher dê conta de tudo. Se eu não estiver preparada financeiramente e psicologicamente, essa escolha pode impactar meu futuro profissional", disse.
Além da disparidade nas licenças maternidade e paternidade, a ausência de creches públicas em tempo integral é outro fator que dificulta o retorno da mulher ao mercado de trabalho após ter filhos. Caso não tenha uma rede de apoio familiar, muitas vezes a única alternativa são instituições privadas, cujo custo costuma ser inviável. Janaína destaca que a falta de provisão de creches, assim como de outras políticas públicas, interfere diretamente na decisão de adiar a maternidade.
"O Plano Nacional de Educação (PNE) estipula que pelo menos 50% das crianças entre 0 e 3 anos estejam matriculadas em creches ou pré-escolas, mas a realidade é bem diferente. A responsabilidade de prover creches é dos municípios, mas apenas 11,5% atingiram a meta. E, nesses casos, há dificuldades: a maioria das unidades está localizada longe das residências das mães que mais precisam. Esse seria apenas o primeiro passo para que as mulheres se sintam seguras para ter filhos com o respaldo do poder público", afirmou a especialista.
Anna também comentou que o receio de não conseguir atender às exigências impostas socialmente — que ainda colocam sobre a mulher a responsabilidade principal pelos cuidados com o lar — foi outro fator que pesou na decisão.
"A mulher ainda é vista como dona de casa pela sociedade. Conquistamos espaço no mercado de trabalho, mas continuamos acumulando outras responsabilidades, o que torna tudo muito difícil. Sempre prezo pelo autocuidado para tentar equilibrar tudo isso, mas a maternidade acaba sendo mais uma batalha diária. Somos obrigadas a enfrentar desafios que os homens jamais tiveram que lidar", destacou.
Mulheres negras: desafios na maternidade
Em 2022, 37,1% das brasileiras negras com 25 anos ou mais tinham ensino fundamental incompleto, enquanto entre as brancas essa taxa era de 27,6%. A desigualdade também aparece no ensino superior: apenas 14,7% das negras haviam concluído esse nível, menos da metade do índice entre brancas, 29%. Com menos escolaridade, muitas acabam tendo filhos mais jovens, o que impacta diretamente sua trajetória profissional.
De acordo com dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), em 2021, 73% das mães adolescentes no Brasil eram negras. A pesquisadora Janaína Feijó explica que muitas dessas mulheres estão inseridas em contextos socioeconômicos desfavoráveis e, na maioria dos casos, com menos acesso à educação, contribuindo para a maternidade precoce.
"As mulheres negras têm filhos mais cedo, geralmente entre o final do ensino médio e o início do superior. Esse filho concebido influencia diretamente sua trajetória profissional, afetando a qualificação e as possibilidades no futuro. Como muitas vêm de ambientes marcados pela vulnerabilidade, com acesso limitado à saúde e à educação, enfrentam obstáculos significativos para quebrar esse ciclo e acabam perpetuando desigualdades sociais", afirmou.
No Brasil, o racismo estrutural também leva a mulher negra a repensar a maternidade. Algumas optam por adiar a decisão, esperando estar mais preparadas para criar um filho negro em uma sociedade marcada pelo preconceito. Sara Neves, de 28 anos, fisioterapeuta, conta que o racismo muda completamente a forma como uma mulher negra encara o papel de mãe.
Sara Neves disse que a pressão social impacta nas escolhas reprodutivas das mulheresArquivo Pessoal
"A forma como a maternidade é percebida por uma mulher negra muda muito. Penso várias vezes sobre como criar um menino ou menina negra na sociedade de hoje. Tem muita coisa que a gente precisa ensinar sobre identidade, pertencimento. Na minha infância, meus pais me restringiram em várias coisas por medo de como eu seria tratada. Muita coisa aprendi sozinha, e isso é doloroso. Reflito muito sobre o que será preciso dizer ao meu filho — como não usar capuz à noite, por exemplo — para não ser confundido com um suspeito", relatou Sara.
Ela também refletiu sobre como a pressão social impacta diretamente as escolhas reprodutivas das mulheres, especialmente das negras. Segundo Sara, há um roteiro imposto socialmente que dita o momento certo para se casar e ter filhos, mas nem sempre essas expectativas condizem com a realidade ou desejos individuais.
"Sinto que a sociedade pressiona muito as mulheres a seguirem um script — namorar, casar, ter filhos — e tenta determinar o momento em que isso deve acontecer. Em outra fase da minha vida, eu pensava em não ter filhos, mas enfrentei muitos olhares e julgamentos. Hoje, mudei de perspectiva e planejo ser mãe nos próximos anos. Quando se trata de uma mulher negra, a carga é ainda maior. Por isso, é fundamental que a decisão sobre maternidade seja pessoal, e não fruto de cobranças sociais", disse.
Queda na natalidade
A população brasileira deve começar a diminuir em 2042, conforme projeções do IBGE. O Instituto prevê que o número de habitantes atinja um pico de 220,43 milhões em 2041 e, no ano seguinte, entre em declínio. Ainda nesta década, três estados já podem registrar queda populacional: Alagoas, Rio Grande do Sul e o próprio Rio de Janeiro.
O doutor em demografia José Eustáquio, que atuou como pesquisador do IBGE, ressalta que, nas décadas de 1960 e 1970, o Brasil tinha uma das maiores taxas de fecundidade do mundo. Com o avanço da educação e da saúde ao longo dos anos, o índice caiu de forma expressiva.
"O custo aumentou muito com os filhos, o que fez as famílias reduzirem o número de crianças que costumavam ter até os anos 1960. Além disso, o crescimento do acesso das mulheres à educação e à saúde contribuiu diretamente para essa mudança. Mais instruídas, elas passaram a se inserir no mercado de trabalho", explicou.
Em 2023, foram registrados pouco mais de 2,518 milhões de nascimentos — um recuo de 0,8% em relação ao ano anterior, marcando o quinto ano consecutivo de queda. Essa desaceleração gera preocupações crescentes. Segundo Eustáquio, o envelhecimento populacional pode afetar diretamente a produtividade econômica do país.
"O século XXI será o primeiro da história da humanidade em que teremos mais idosos do que crianças, devido à inversão da pirâmide etária. Isso significa mais pessoas usufruindo de benefícios e menos trabalhando, o que pode trazer impactos importantes para o setor produtivo. É preciso atenção e planejamento", alertou o especialista.
Assim, a queda da taxa de natalidade está diretamente associada às transformações sociais e econômicas que influenciam as escolhas das mulheres, principalmente relacionadas ao mercado de trabalho, à educação e à ausência de políticas públicas. O adiamento da maternidade e, em alguns casos, a decisão de não ter filhos estão ligados à busca por maior autonomia e estabilidade no ambiente profissional. Desse modo, a redução da fecundidade reflete não apenas mudanças individuais, mas também coletivas.
* Reportagem do estagiário João Santos, sob supervisão de Marlucio Luna
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