Publicado 03/08/2026 05:00
O ingresso no mercado de trabalho representa o grande sonho de muitos jovens brasileiros. Trabalhar significa conquistar independência financeira, acesso a bens de consumo e serviços. Contudo, essa não é uma tarefa fácil. Uma alternativa é o Programa Jovem Aprendiz, que facilita a conquista do primeiro emprego para quem tem entre 14 e 24 anos.
PublicidadeSegundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em 2026, a taxa de desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos no Brasil é de 13,8%, mais que o dobro da média nacional, de 5,8%. Além disso, quase 20% da população entre 14 e 24 anos não estuda nem trabalha.
Criado pela Lei 10.097, o programa permite que jovens de 14 a 24 anos obtenham a primeira experiência profissional sem abandonar os estudos. A iniciativa garante remuneração com base no salário mínimo, jornada de seis a oito horas diárias, FGTS, 13º salário, férias e vale-transporte. Desde 2005, a legislação estabelece uma cota obrigatória de 5% a 15% de aprendizes em empresas de médio e grande porte, além de proibir atividades insalubres ou perigosas para menores de 18 anos.
Dados do MTE mostram que o programa alcançou 715 mil aprendizes em 2025, com saldo de 54,8 mil contratações entre janeiro e abril de 2026. No âmbito regional, um levantamento da Fundação Mudes — organização sem fins lucrativos focada na inclusão social e profissional — aponta que, nos últimos cinco anos, foram abertas 2.492 vagas para a modalidade apenas no Estado do Rio de Janeiro.
Apesar dos números positivos, candidatos relatam dificuldades para conseguir a primeira oportunidade. O estudante de Engenharia de Produção do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-RJ) Pedro Luiz Meigre, de 20 anos, busca uma colocação no mercado enquanto não cumpre o tempo mínimo de curso exigido para estágios regulares.
"Busco experiência enquanto ainda não posso estagiar em grandes empresas por ter começado a faculdade este ano", diz o estudante, que procura oportunidades na área administrativa, mas aceita atuar em outros setores.
Segundo ele, o principal obstáculo consiste em conciliar horários de trabalho com os estudos e a distância. Morador de Mesquita, na Baixada Fluminense, Meigre leva uma hora e meia até a faculdade e acredita que o tempo de deslocamento interfere na avaliação dos recrutadores.
O universitário também critica exigências incompatíveis com o perfil de quem busca a primeira oportunidade. "Já vi seleção de jovem aprendiz e estágio exigindo mínimo de dois anos de experiência. Isso dificulta o acesso de quem quer ingressar no mercado e tem disposição para aprender", reclama.
Dicas dos recrutadores
Na avaliação de recrutadores, a falta de experiência não impede a contratação de aprendizes. A coordenadora de Recrutamento e Seleção da Fundação Mudes, Cíntia Monteiro, explica que a triagem para essas posições prioriza aspectos de comportamento e o interesse demonstrado pelo candidato.

"Como é uma vaga de entrada, observamos a postura, a capacidade de comunicação e a vontade de aprender, em vez da experiência técnica. O candidato precisa demonstrar que deseja iniciar uma carreira e não apenas cumprir uma exigência externa", explica a especialista.
Cíntia ressalta que atitudes básicas como pontualidade, preparação para a entrevista e pesquisa sobre a empresa contratante pesam favoravelmente nas etapas presenciais e virtuais. Sobre as exigências técnicas, a coordenadora pontua que conhecimento básico de informática e facilidade com tecnologia costumam ser suficientes para as funções administrativas de nível inicial.
A profissional diz que identifica casos de aproveitamento após o término do contrato, mas sabe que não é sempre possível:
A profissional diz que identifica casos de aproveitamento após o término do contrato, mas sabe que não é sempre possível:
''Aqui temos clientes que efetivam o jovem no término do contrato, mas a gente sabe que nem sempre isso é possível. Porém, mesmo que a pessoa não seja efetivada na empresa em que ela atuou como jovem aprendiz, como ela já tem uma experiência, isso acaba facilitando para conseguir outra oportunidade no mercado — diferentemente de quem está entrando e não tem nenhuma vivência.'', explica.
Cíntia completa que além da vivência prática, o programa concede possibilidades de conhecer novos caminhos profissionais.
"Além disso, a vivência prática permite ao jovem vislumbrar possibilidades de carreira. Muitas vezes, ao ingressar no programa, ele ainda não tem clareza sobre qual faculdade ou área seguir. Contudo, ao atuar em um departamento específico de uma empresa, passa a enxergar caminhos para o ensino superior na sua área de atuação. Por isso, a iniciativa é fundamental'', destaca.
Sobre oi fato de muitas empresas não participarem do programa, a gestora diz que há um estímulo em implantar as oportunidades para que seja cumprido o mínimo determinado pelas cotas.
''É preciso estimular as empresas a enxergarem o programa além do cumprimento de cotas. Ainda assim, mesmo quando isso não ocorre, o projeto se mostra decisivo ao facilitar a inserção no mercado e abrir portas para futuras oportunidades a quem já reúne alguma experiência.", frisa.
Caso de sucesso
A trajetória profissional da relações públicas Tainá Abreu, de 31 anos, mostra o potencial de aproveitamento do programa. Moradora de Vista Alegre, na Zona Norte do Rio, ela ingressou como aprendiz no MetrôRio em 2016, aos 21 anos. Ao disputar uma vaga de aprendiz, o cenário parecia desfavorável.
"Achei que não passaria por causa da idade e por falta de experiência formal. Mas a bagagem que eu tinha como freelancer e a postura na entrevista contaram a meu favor", afirma Tainá.
O ingresso no mercado abriu portas que foram além do ambiente de trabalho. Logo no início do contrato, Tainá realizou uma prova para uma bolsa de estudos e conquistou a vaga integral no curso de Relações Públicas em uma faculdade. Junto com a graduação, o programa deu início a sua formação técnica.
O programa também acelerou seu crescimento profissional. Antes mesmo do término do contrato, Tainá participou de um processo seletivo interno, foi aprovada para o cargo de assistente administrativo e conquistou a efetivação sob o regime da CLT.
Tainá conta que sua experiência inicial acabou definindo o rumo de sua vida profissional.
"Se tenho emprego hoje, dez anos depois, é porque recebi aquela oportunidade como jovem aprendiz. As pessoas têm mais paciência para ensinar quem está nessa posição", relata.
Como administrar o salário
Segundo dados de junho de 2026 do Mapa da Inadimplência do Serasa, jovens de 18 a 25 anos representam 11% do total de inadimplentes no Brasil. A faixa etária lidera iniciativas para limpar o nome, correspondendo a 19,1% dos consumidores que buscaram renegociar suas dívidas no mesmo período.
Para entender os erros mais comuns de quem acabou de entrar no mercado de trabalho, O DIA conversou com o palestrante e criador da empresa de educação financeira Investeens, Deivyd Barros. Segundo ele, antecipar sonhos de consumo costuma trazer problemas.
"O jovem tende a usar o cartão de crédito como renda. E não só o jovem, mas o adulto também. Isso acaba sendo um grande perigo", alerta. Segundo ele, o problema não está em adquirir bens materiais, mas em assumir parcelamentos sem planejamento logo no início da trajetória profissional.
Questionado sobre como evitar o endividamento precoce, o fundador da Investeens sugere uma medida prática para quem tem dificuldade de impor limites aos próprios gastos: abrir mão do crédito e concentrar as movimentações no débito ou no Pix.
Questionado sobre como evitar o endividamento precoce, o fundador da Investeens sugere uma medida prática para quem tem dificuldade de impor limites aos próprios gastos: abrir mão do crédito e concentrar as movimentações no débito ou no Pix.
"Se o jovem começar a ganhar dinheiro e não tiver nenhum tipo de controle sobre isso, ele não vai ter clareza se está gastando mais do que está ganhando", afirma.
Nos casos em que o salário do jovem aprendiz é reduzido e ainda precisa ajudar em casa, a saída exige esforço duplo. Barros lembra que, além de administrar o orçamento "na ponta do papel", o caminho passa pelo aumento da renda por meio do desenvolvimento pessoal.
"A educação financeira não tem mágica. Você ganha X, tem que gastar menos do que X e ter um saldo positivo para poder investir", explica.
Apesar de o salário do aprendiz ser baixo, muitos jovens fazem trabalhos para complementar a renda e ter maior poder de compra. Barros pontua que a busca por valor extra deve ser feita com cautela para evitar a sobrecarga física e mental. "O corpo te traz sinais. Eu diria para esse jovem fazer mais, mas também ficar de olho em si próprio para não cair na estatística do burnout", alerta.
A desorganização financeira, segundo o palestrante, afeta não apenas a produtividade e a carreira, mas a vida pessoal como um todo. "Quando você se torna uma pessoa endividada, isso afeta seu sono, seu estresse, seu humor e seu resultado no trabalho", destaca.
Reportagem do estagiário Rodrigo Maciel, sob supervisão de Marlucio Luna
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