Natale Papa Junior, CEO da fazenda vertical Mighty Greens, que produz cogumelos e micro verdes no centro urbano do RioCleber Mendes / Agência O Dia

Rio – O corredor branco, as portas largas do tipo vaivém que dão em salas metodicamente refrigeradas e iluminadas com luzes coloridas de LED, e os produtos enfileirados em grandes estantes de metal. Tudo faz parecer que é um laboratório, mas pode se dizer que é uma fazenda mesmo. Algo antes restrito apenas ao campo, agora as chamadas fazendas verticais, uma tendência global, produzem alimentos dentro da cidade para grandes redes de supermercados e restaurantes.
Diversos tipos de cogumelos e 'microverdes', plantas no primeiro estágio de crescimento, são cultivados em diferentes espaços protegidos da luz solar, da chuva, dos ventos e de outros fenômenos da natureza. Chama-se 'fazenda vertical' justamente em função das culturas estarem instaladas em grandes torres verticais, em vários andares, multiplicando a colheita.
Trata-se de uma alternativa de produção de alimentos sem o uso de adjuntos químicos e sem a restrição da sazonalidade, auxiliada por tecnologia de ponta.
As fazendas verticais entraram no cardápio das opções de fornecedores de produtos sem agrotóxicos, cultivados no centro urbano, próximo ao local da venda final, oferecendo alimentos frescos e com logística facilitada. A oferta é planejada de acordo com a demanda do cliente, tornando possível o desenvolvimento de qualquer cultura em qualquer época do ano. Lançando mão da automação, basta reproduzir em uma sala da 'fazenda' o ambiente adequado para o produto nascer e crescer.
Diretor-executivo (CEO) da fazenda vertical Mighty Greens, do Rio de Janeiro, Natale Papa Júnior, de 35 anos, garante que consegue entregar qualquer produto encomendado, mesmo não sendo a melhor época do ano para o seu cultivo. "Nós conseguimos garantir colheita todo dia. Essa é uma maravilha da fazenda urbana vertical. Tem colheita todo dia, não tem sazonalidade. Não há, por exemplo, época para morango. Em fazenda vertical, todo dia é dia de morango", explica.
No momento, a Mighty Greens está produzindo cogumelo shiitake, típico da Ásia e carro-chefe da empresa. Foi por conta de uma encomenda de uma grande rede de supermercados que ela transitou das hortaliças para os fungos. Foram três meses de estudo do clima da Ásia para replicar na sala da fazenda vertical, de forma controlada, o ambiente propício para o desenvolvimento saudável da espécie. A sala fechada de 50 m² conta com luz artificial vinda de lâmpada LED rosa, umidade e temperatura de acordo com o clima do continente asiático, onde o shiitake cresce. É uma reprodução da atmosfera de lá, criada a partir de estudos, testes e equipamentos desenvolvidos internamente.
"Nesses 100m² (contando com a sala ao lado), a nossa produtividade é de cinco a seis toneladas de shiitake por mês. Olhando assim nem parece, mas como a colheita é constante, acaba sendo isso”, esclarece Natale.
A alta produtividade em uma área pequena, o baixo uso de recursos naturais e o aumento de tempo de prateleira dos produtos também exemplificam o novo sistema de cultivo. Na sala ao lado da produção de shiitake da Mighty Greens, empresa do carioca Rodrigo Meyer e de um norte-americano, cogumelos 'eryngii' da Itália, crescem nos mesmos moldes do shiitake, ou seja, em ambiente com variáveis controladas e sem nenhuma química, com a diferença de a iluminação ser em tom de rosa, uma mistura de lâmpadas LED vermelha e azul, para substituir a luz solar.
Em todas as produções, dois pontos em comum: o umidificador de ambiente realizado por microgotículas, desenvolvido pela Mighty Greens para esguichar micro gotículas de água em determinado intervalo de tempo, e o aparelho de ar-condicionado, que foi adaptado para não obstruir os poros dos cogumelos, o que poderia ocasionar a mudança de sabor e textura.
"Cada produto vai ter uma luz, uma umidade, uma temperatura. As variáveis são todas controladas conforme a cultura. Esse é o primeiro lote de eryngii que estamos produzindo, então claro que ainda tem aprendizado. Estamos vendo como ele se adapta melhor. Já testamos várias tonalidades de luz, por exemplo. Já mudamos um pouquinho a tonalidade, já combinamos uma mudança de tonalidade com mudança de umidade, e assim a gente vai fazendo. E isso faz toda a diferença. Nós embasamos as questões climáticas tentando replicar de onde o produto é originário. Como é italiano, então de que área da Itália, quais são as características lá? A partir daí nós pesquisamos o que já foi feito de teste científico em produção de eryngii”, diz Natale. "Hoje produzimos cogumelo, mas amanhã podemos produzir, na mesma sala, açafrão, por exemplo, uma planta do Oriente Médio. Para isso, nós pegamos o clima ideal da produção de açafrão na Turquia e fazemos da sala uma réplica deste clima. É isso que a fazenda urbana faz, é isso que é o ambiente controlado", completa o CEO.

As hortaliças e os cogumelos da Mighty Greens são vendidos em embalagens próprias 100% compostáveis, feitas com celulose no lugar de plástico para que os produtos "respirem" e com bandejas de substrato de cana de açúcar em vez de isopor, em uma pegada sustentável. A empresa garante que as escolhas aumentam a vida útil dos produtos e são ecologicamente corretas. Mesmo com as inovações, Natale afirma que o preço para o consumidor final é equivalente aos preços dos produtos orgânicos tradicionais.
A MightyGreens cultiva os cogumelos em substratos produzidos por agricultores da região serrana do Rio de Janeiro e do interior do estado de São Paulo. Este é o único item desta "bolha tecnológica" que vem do campo. "Não fazemos nenhum aqui, porque tem que ter muito espaço, então não conseguimos fazer na cidade. Tem que ter toneladas e toneladas de serragem e toneladas de arroz e mistura. É muito complexo e demanda muito espaço", justifica Natale.
Em uma outra frente, a empresa BeGreen aposta na fazenda urbana horizontal para garantir o verdinho fresco no prato. Ainda por meio da agricultura sustentável, mas agora com produção feita em apenas um andar e exclusivamente de hortaliças, a startup trabalha com sementes selecionadas e as plantas são cultivadas por hidroponia - as raízes se desenvolvem na água, em soluções que recebem os nutrientes naturais necessários para que cresçam saudáveis.
Sem agrotóxicos, os volumes de água e nutrientes injetados nos canais da plantação são controlados de forma automatizada, assim como o sistema de climatização da estufa, garantindo qualidade do ar, exposição à luz e temperatura ideais para as mudas, e minimizando qualquer tipo de contaminação e interferências em decorrência de mudanças bruscas de clima.
Somam-se a essas benesses a emissão de gás mínima e o consumo de água 90% menor que o cultivo convencional.
Segundo Giuliano Bittencourt, fundador e CEO da BeGreen, o crescimento das fazendas urbanas se deve, em grande medida, à mudança gradativa de comportamento da sociedade e ao apelo pelo desenvolvimento sustentável. "Em vinte anos, a sustentabilidade deixou o aspecto de 'papo de ONG' e se tornou um tema de grande preocupação e relevância. Por isso, hoje, é um assunto debatido em agenda global. Finalmente as instituições estão enxergando que negócios sustentáveis respondem aos investimentos gerando mais riqueza e que podemos salvar a humanidade da catástrofe do aquecimento global se realmente quisermos", analisa.
Atualmente, a BeGreen tem oito unidades, localizadas em São Paulo, Campinas, Osasco, São Bernardo do Campo (SP), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e Goiânia (GO). Na cidade do Rio, ela fica no Via Parque Shopping, na Barra da Tijuca, Zona Oeste, onde tem um parque de diversões sustentável, com desafios interativos para o aprendizado infantil e um laboratório para experiências científicas, além de contar com a produção de mais de 30 mil pés de verduras por mês.

Visitas educativas guiadas
Com o objetivo de despertar nas pessoas hábitos mais saudáveis e contribuir com a conscientização ambiental, as fazendas BeGreen são abertas à visitação da comunidade mediante agendamento pelo e-mail experiencia@begreen.com.br. Durante o passeio, o público é acompanhado por uma equipe educativa, que introduz atividades específicas, mostra as estufas de alta tecnologia onde os alimentos crescem, explica como funciona o modelo de produção hidropônico e os convida a participar de uma colheita.
No caso de estudantes, as visitas têm projeto pedagógico específico, desenvolvido para atender a diferentes níveis de ensino, de acordo com o conteúdo que os alunos estão aprendendo nas áreas de ciências e biologia.
As fazendas contam ainda com espaços e atividades adicionais para engajar crianças e adolescentes. Para as crianças, além de uma visita leve e lúdica à estufa, elas também podem conhecer a BeGreen Land, um espaço com jogos interativos onde aprendem sobre sustentabilidade e o modelo de produção da fazenda urbana. A experiência nesse espaço é gamificada e colaborativa.
Já o Lab Multiuso é voltado para estudantes tanto da Educação Infantil quanto do Ensino Médio e suas atividades são adequadas ao eixo de ciências da natureza da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Nesse laboratório, os alunos fazem experimentos e participam de oficinas, como 'cápsula de sementes' e 'higrômetro' (medidor de umidade), que os ensinam sobre física, química e ecologia aplicadas à produção de alimentos.
As visitas são fechadas por grupos e o valor varia de acordo com as atividades e o tempo de duração que os grupos desejam.