Batizada como pipa, a nova barraca teve a resistência questionada pelos barraqueirosÉrica Martin/Agência O Dia

Rio – A Prefeitura do Rio apresentou, na manhã deste sábado (6), as novas barracas que serão adotadas com o objetivo de padronizar o comércio na faixa de areia da orla. Os modelos, porém, não agradaram os barraqueiros, maiores interessados na mudança.
O prefeito Eduardo Paes (PSD) destacou que o modelo, batizado como Pipa Solar, é um protótipo desenvolvido pela concessionária Orla Rio, que ainda passará por um mês de testes: "Dando certo, a gente avança. Se a Pipa decolar com esse vento todo, é porque aprovou. E, se Deus quiser, no Verão já vamos estar com a praia devidamente organizada".
Ainda de acordo com Paes, a estética da estrutura foi aprovada internamente, restando ainda observar a praticidade. E foi exatamente esse ponto que deixou Márcio Oliveira, da Barraca do Marcinho, no posto 8, em Ipanema, com o pé atrás.
“Na minha opinião, esse modelo não é bom para as nossas praias. Pode ser bonito, mas tem que ver se é prático. A gente viu que ela voou. Bateu um vento, e ela desmontou toda. Poderiam usar o mesmo modelo da atual, mas com melhorias”, sugeriu o barraqueiro, de 63 anos, dos quais 40 dedicados ao trabalho na orla.
Opinião parecida tem Luiz Henrique Guilherme, 49, da barraca Ponto G, no Leme. Com mais de 10 anos de atuação na praia, elogiou a beleza da Pipa, mas chamou atenção para a resistência. "A estética é bonita, mas não vai funcionar muito bem pois não aguenta o vento", argumentou.
Paulo Juarez, da barraca Quintal do Paulinho, foi outro a duvidar da capacidade da Pipa de resistir a condições adversas do tempo: "O modelo é diferenciado. O que questionamos é a qualidade, pois achei muito frágil. Qualquer vento leva".
Com 48 anos de trabalho de pé na areia, Paulo, de 73, apontou outra desvantagem do protótipo. "A dificuldade maior, pelo que vi, vai ser a montagem. Tem que ter algumas pessoas para montar, mas muitos barraqueiros contam com apenas um ajudante".
Ainda sobre o modelo, embora Paes tenha dito que os barraqueiros serão consultados durante o período de testes, Marcinho alegou que a proposta inicialmente era a opinião dos trabalhadores ser colhida desde o início do processo de confecção. "O que foi combinado, um tempo atrás, é que nós, como diretoria de barraqueiros, acompanharíamos a criação. A gente vinha cobrando isso, mas para nossa surpresa, já chegaram com o modelo pronto hoje. Isso causou até um mal estar no nosso grupo", disse.
Padronização não agrada
A implementação das novas barracas é parte de uma iniciativa da prefeitura para determinar um ordenamento da orla carioca, de acordo com o Decreto Municipal nº 56.160, de 27 de maio deste ano. A ideia de padronizar o visual dos estabelecimentos ao longo da faixa de areia, entretanto, foi mais um ponto que não agradou.
"Achei que tirou o colorido das praias, que todas as pessoas amavam. A minha mesmo, que é uma barraca gay, ficou bem estranha", observou Luiz Guilherme.
"Cada barraca poderia ter uma cor diferente, porque assim fica uma coisa muito morta. Poderiam liberar a saia da barraca, por exemplo, uma amarela, outra azul. Seria até fácil de ser identificada para um caso de criança perdida, para a fiscalização", acrescentou Marcinho, com outra sugestão.
Apesar das críticas, os barraqueiros vivem a expectativa de não precisar arcar com os custos de adquirir a tenda. Questionado, Paes afirmou que a proposta é fornecer a estrutura gratuitamente, o que agradou Luiz Guilherme: "Será ótimo pois esses materiais costumam ser muito caros".
Tecnologia contra a poluição sonora
Outra medida do plano de ordenamento é o novo sistema de monitoramentos de som nos quiosques. Trata-se de uma inteligência artificial, com sensor de ruído, que calcula fatores como distância, velocidade do vento, temperatura e umidade do ar para elaborar um cálculo e identificar quem está ultrapassando o limite de 55 decibéis. O resultado dessa verificação é enviado diretamente à equipe responsável pela fiscalização.
Segundo os responsáveis, a tecnologia já foi implementada até o momento em 117 dos 309 quiosques sob a gestão da concessionária, o que corresponde a toda a orla de Copacabana e Leme; nos novos estabelecimentos de Ipanema e Leblon; e naqueles com maior índice de reclamação de Barra e Recreio.
"Tem uma musiquinha para curtir, mas tem que ter horário para a música terminar. Tem que ter um volume máximo", ponderou o prefeito.
A fiscalização quanto à poluição sonora ficará a cargo da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) e da Guarda Municipal. Quem estiver fora das normas estabelecidas poderá ser punido com multa e até cassação de alvará, em caso de reincidência.

Segundo o decreto, são permitidas a utilização de aparelhos sonoros e a realização de apresentações musicais ao vivo nos quiosques das 12h às 22h. Também estão autorizados a comercialização e o consumo de bebidas em garrafas de vidro dentro desses estabelecimentos, conforme regras específicas.
*Colaborou Érica Martin