Lélia Gonzalez foi uma ativista na luta contra o racismo e sexismoReprodução / Internet

Rio - A fachada do colégio Pedro II, no campus do Tijuca II, na Zona Norte do Rio, vai ganhar um mural artístico para homenagear à intelectual mineira Lélia Gonzalez (1935-1994). Ex-aluna da instituição, ela foi uma ativista contra o racismo e pelo protagonismo feminino negro, sendo uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, em 1978.
O Dia conversou com o pesquisador Pedro Rajão, do projeto NegroMuro, que, juntamente com o muralista Fernando Cazé, será o responsável por realizar o mural artístico. Ele destaca que é um grande desafio resumir uma personagem tão significativa para história em apenas uma pintura.
"O foco principal será ressaltar o vínculo dela como ex-estudante da instituição. Também reforçaremos características que mostram sua relevância na luta contra o racismo. Abordaremos seu destaque nas escolas de samba, sua representação no Granes Quilombo, além de vários outros pontos", explica.
Rajão aponta que a iniciativa partiu dos professores e também do carinho dos estudantes pela história de Lélia.
"Os alunos estão estudando no colégio sobre a autora, o que aumentou o olhar para toda sua trajetória de luta. Os professores nos chamaram para pintar o mural e eu propus que a fachada da instituição fosse um dos locais. Todos aceitaram muito bem a ideia e tem nos recebido da melhor forma", relatou.
A previsão é que a obra comece a ser realizada já nesta terça-feira (14) e com previsão que dure entre cinco e sete dias. No entanto, vai depender das condições do tempo, já que com chuva a produção precisa ser paralisada. A estimativa é que a pintura tenha cerca de 10 metros de altura.
Segundo Rajão, o projeto visa aumentar a visibilidade da trajetória da intelectual, que ainda é uma figura desconhecida para grande parte da comunidade negra. 
"O mural serve de política pública de memória coletiva, muitas vezes, sendo mais eficiente que um nome de uma rua, uma placa, ou, até mesmo uma estátua. Por meio deste trabalho, vamos conseguir contribuir com a memória de uma figura tão importante. Homenagear uma intelectual negra na fachada de um colégio tão tradicional como o Pedro II", afirmou.
Nas redes sociais, a instituição destacou a importância da obra para a cidade: "Cores e traços vão transformar nosso espaço em um manifesto de arte e memória não apenas para a escola, mas para a cidade do Rio."
Trajetória
Nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, Lélia Gonzalez se mudou para o Rio de Janeiro ainda criança, em 1943, quando um dos seus irmãos, o jogador de futebol Jaime de Almeida, foi convidado para jogar no Flamengo. 
Em 1954, concluiu o Ensino Médio no colégio Pedro II e, posteriormente, graduou-se em História e Geografia. Oito anos depois, tornou-se bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual da Guanabara, atual Uerj.
A longo da vida, produziu artigos e ensaios sobre sexismo e negritude, além de ter escrito o livro "Lugar de Negro" ao lado de Carlos Hasenbalg. Ela também foi autora de conceitos inovadores, como o "Pretuguês", que destaca a influência das línguas africanas na formação da identidade cultural brasileira.
Ela faleceu no dia 10 de julho de 1994, no Rio de Janeiro, em decorrência de problemas cardiovasculares.
* Reportagem do estagiário João Santos, sob supervisão de Iuri Corsini