Velório da vereadora Luciana Novaes acontece na Câmara Municipal do RioÉrica Martin / Agência O Dia
Publicado 04/05/2026 11:54
Rio - Familiares, amigos e admiradores da vereadora Luciana Novaes (PT) deram o último adeus à parlamentar, nesta segunda-feira (4). O velório foi aberto ao público e aconteceu na Câmara Municipal do Rio, no Centro, até as 14h. Após a cerimônia, o cortejo segue para o Cemitério São Francisco Xavier, no Caju.
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Ao DIA, Jorgiane Novaes, irmã de Luciana, afirmou que a família pretende seguir com o legado deixado pela ativista PCD.
“A Luciana, em 2003, tinha 1% de chance de sobreviver. Deus transformou esse 1% em 99%. Em vida, ela fez tudo o que pôde em prol de outras pessoas. Ela dizia que Deus permitiu que ela continuasse viva porque tinha uma missão a cumprir. E ela cumpriu essa missão com um legado lindo que nós não vamos deixar acabar. Nós vamos lutar pela luta da Luciana”, disse emocionada.
Quinze anos mais velha que Luciana, Jorgiane abriu o coração e desabafou durante o velório. "Nunca imaginei que essa hora fosse chegar. Como sou 15 anos mais velha, a gente sempre espera ir na frente", disse. Ela, que foi a responsável por cuidar da irmã, contou que abriu mão de tudo após a parlamentar ser atingida por um tiro e ficar tetraplégica, em 2003. "Eu decidi abrir mão dos meus filhos para cuidar e me dedicar a ela. Eu fiz isso a minha vida toda. Eu não sei fazer outra coisa. Eu vou tentar me renovar, porque eu não sei fazer outra coisa a não ser cuidar dela", falou. 
Em seu discurso durante a cerimônia, Jorgiane contou que Luciana fez dois últimos pedidos antes de partir.
"No mês passado, ela falou para o meu filho: 'Não se esqueça da missão que você tem comigo, que é jogar minhas cinzas de helicóptero no mar'. Só que antes disso, ela queria que todos os órgãos dela que pudessem ser doados e fossem doados. Por isso houve essa demora. Porque mesmo depois do que aconteceu, a Luciana vive. A Luciana vive em outras pessoas, a Luciana vive dentro dos nossos corações, na nossa alma e ela vai sempre existir. Luciana vive", se emocionou.

A cerimônia de despedida contou ainda com um coral, que entoou sucessos como “Canção da América”, de Milton Nascimento; “Anjos (Pra quem tem fé)”, de O Rappa; e mais.
O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, falou exaltou a figura de Luciana para além da política. 
"Hoje é um dia que a gente vai olhar para frente e pensar no legado dela. Mais do que nunca a gente precisa ter a certeza de que ela está numa circunstância melhor, acolhida, abraçada, ao lado de Deus, mas nós, que ficamos aqui, temos um dever. O dever de seguir, de avançar, de lembrar para jamais esquecer o que a Luciana Novaes representa. E isso vai muito além do mandato dela como vereadora, muito além da trajetória dela como política da nossa cidade", enfatizou. 
Representante da Frente Nacional de Mulheres com Deficiência, a assistente social Luiza Zwang, de 60 anos, celebrou o legado e a história da vereadora.
“Para mim, a Luciana representa resiliência, a fênix. Para nós, pessoas com deficiência, isso não tem preço. É uma perda imensurável, vai deixar uma lacuna que não vai se fechar. Mas a gente tem certeza que esse legado não vai parar porque esse é o propósito da Luciana”, afirmou.
Diversas autoridades deram o último adeus à parlamentar. Os vereadores Carlo Caiado (PSD) – presidente da Câmara –, Maíra do MST (PT), Tainá de Paula (PT), Felipe Pires (PT), Monica Benicio (PSOL), Rafael Satiê (PL), Deangeles Percy (PSD), Márcio Ribeiro (PSD), Rosa Fernandes (PSD) e Flávio Valle (PSD), além dos deputados federais Benedita da Silva (PT), Reimont (PT) e a deputada estadual Elika Takimoto (PT), são alguns dos que passaram pelo velório.
Carlo Caiado celebrou a amizade que tinha com Luciana e também exaltou seu legado.
"A Luciana era uma pessoa incrível. A gente tinha uma relação muito próxima. Ela sempre era vibrante nas ações da cidade e deixa um legado muito grande de superação e de referência das pessoas com deficiência. Era uma amiga de todos os servidores. Ela nunca teve limitação alguma, pelo contrário, estava de cabeça erguida o tempo todo, demonstrando que a vida é muito forte e tem que viver sempre feliz. A gente sente muito, mas ela deixa um legado muito grande e sempre estará nos nossos pensamentos aqui na Câmara", disse.
A vereadora Rosa Fernandes lembrou do amor que Luciana tinha pela vida.
"Eu nunca vi a Luciana mal-humorada. Nunca vi a Luciana com raiva. Nunca vi sentimento negativo. Sempre pelo contrário. Sorridente. Luciana era algo que transmitia muita emoção. Ela tinha um prazer pela vida invejável. E eu tinha um prazer enorme de estar perto dela. Ela exigia muito pouco da vida, mas a vontade de viver era o que mais nos encantava", contou.
O vereador Felipe Pires relembrou as mudanças que foram feitas na Câmara para receber a parlamentar e elogiou a atuação da colega de trabalho.
"Muito muito mais do que um processo de adaptação que esse palácio teve de passar, depois de 100 anos, para poder receber uma vereadora legitimamente eleita pelo povo, todas essas adaptações de caráter físico, de acessibilidade, não foram só para com a Luciana, mas sim para demonstrar para a sociedade que as pessoas com deficiência têm lugar de fala e tem assento neste parlamento. Que outras pessoas como Luciana Novaes possam ocupar essa lacuna que fica em aberto para representar tão bem quanto ela essa parcela da sociedade que muitas vezes é invisibilizada", afirmou.
Amigo de Luciana, o ex-presidente da Suderj Renato de Paula falou sobre a importância da vereadora para a política, principalmente para as causas PCD.
“Ela ensinou a nós, pessoas com e sem deficiência, que todo o lugar é permitido, inclusive no lugar de poder. A Luciana foi eleita democraticamente pelo povo, não por ser uma pessoa com deficiência, mas pela luta pelas pessoas com deficiência. Isso é um legado para sempre para nossa cidade”, disse.
A pedido da família, o vereador Deangeles Percy, que também é pastor, fez um discurso em homenagem à Luciana. Em seguida, Carlo Caiado discursou. Os deputados Reimont, Elika Takimoto e a vedreadora Rosa Fernandes também falaram.

A vereadora Luciana Novaes entrou em protocolo de morte encefálica em 27 de abril. Na última quarta-feira (29), a família anunciou que a vereadora teria os órgãos doados. Segundo comunicado divulgado, a parlamentar manifestava em vida o desejo de ser doadora.

Quem foi Luciana Novaes

Luciana Novaes ganhou notoriedade pública em 2003, quando foi atingida por uma bala perdida dentro da Universidade Estácio de Sá, no Rio Comprido, onde cursava Enfermagem. O disparo a deixou tetraplégica e dependente de ventilação mecânica.

Após anos de recuperação e reabilitação, retomou os estudos, formou-se em Serviço Social e concluiu pós-graduação em Gestão Pública. A experiência marcada pela violência urbana transformou-se em atuação política voltada à defesa da inclusão, acessibilidade e direitos das pessoas com deficiência.

Em 2016, tornou-se a primeira pessoa tetraplégica eleita para a Câmara Municipal do Rio. Durante os mandatos, apresentou projetos relacionados à mobilidade urbana acessível, atendimento especializado, proteção de pessoas vulneráveis e ampliação de direitos sociais.

Mesmo enfrentando problemas de saúde nos últimos meses, Luciana seguia acompanhando as atividades parlamentares e mantinha participação nas pautas do Legislativo carioca.
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