Publicado 02/06/2026 19:12
Rio - Após o interrogatório de Monique Medeiros, que afirmou acreditar que o ex-namorado matou seu filho, Henry Borel, foi a vez do ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, prestar depoimento no II Tribunal do Júri do Rio, no Centro, nesta segunda-feira (2).
PublicidadeEm um depoimento que se estende por horas e, até o início da noite, Jairinho concentrou sua fala na tentativa de desconstruir a imagem de homem violento apresentada pela acusação ao longo dos nove dias de julgamento. A principal linha adotada pelo réu foi negar qualquer histórico de agressões contra crianças e mulheres.
"Nunca tive problema com filhos", afirmou Jairinho ao narrar seus relacionamentos amorosos e familiares. Em outro momento, declarou que os erros que cometeu ao longo da vida foram relacionados às traições conjugais, mas não à violência. "Coisas que eu fiz de errado foram as traições com mulheres. Foi um caminho errado a se tomar", disse aos jurados.
Choro, família e apelo aos jurados
Antes de abordar os relacionamentos amorosos, Jairinho fez um longo relato sobre sua vida pessoal e familiar. Disse ter na mãe sua maior referência, chamou a irmã de "melhor amiga" e relembrou problemas de saúde do pai, o coronel Jairo Souza Santos Júnior.
Em diversos momentos, o ex-vereador chorou diante dos jurados. Um dos episódios de maior emoção ocorreu quando foram exibidas imagens dele com o sobrinho, filho de sua irmã. "Eu adoro criança", alegou ele.
Ataque às testemunhas
Outro ponto central do depoimento foi a tentativa de desacreditar relatos de ex-companheiras e testemunhas que prestaram depoimento durante o julgamento.
Ao longo da instrução processual, mulheres como Débora Mello Saraiva, Natasha de Oliveira Machado e outras ex-namoradas relataram episódios de agressividade e comportamento controlador atribuídos ao ex-vereador. Algumas delas também narraram situações envolvendo seus filhos.
Diante dos jurados, Jairinho negou todas as acusações. "Não há da parte da Débora, Natasha, Monique e de outras mulheres mensagem que eu possa ter agredido alguém", afirmou.
O réu sustentou ainda que parte dessas acusações teria surgido após articulações promovidas por pessoas ligadas a Leniel Borel, pai de Henry. Segundo ele, testemunhas teriam sido influenciadas a depor contra sua versão dos fatos.
Relacionamentos e traições
Durante o interrogatório, Jairinho admitiu diversos casos extraconjugais. Ele confirmou que traiu a ex-mulher, Ana Carolina, com Débora e classificou a separação como um dos maiores arrependimentos de sua vida. "Um dos grandes arrependimentos da minha vida foi não ter ficado casado com Ana Carolina".
Ao comentar um boletim de ocorrência registrado pela ex-mulher, o ex-vereador negou agressões físicas. Segundo sua versão, houve apenas uma discussão motivada por ciúmes após ela vê-lo conversando com outra mulher. "Ana Carolina foi a mais traída, mas nunca agredi", declarou.
Defesa reage à mudança de versão de Monique
Pouco antes do início do depoimento de Jairinho, o advogado Rodrigo Faucz comentou a mudança de estratégia da defesa de Monique. Mais cedo, a ex-professora afirmou aos jurados acreditar que Jairinho foi responsável pela morte de Henry e declarou que poderia estar morta ou respondendo pelo homicídio do ex-vereador caso soubesse das agressões sofridas pelo filho.
Para Faucz, a fala da ex-companheira não representa uma acusação baseada em provas. "Ela diz que acredita. Isso é uma crença, não uma prova". O defensor também sustentou que não foram produzidos elementos suficientes para comprovar que Henry morreu em decorrência de agressões praticadas pelo ex-vereador.
Julgamento chega ao nono dia
O interrogatório dos réus ocorre na reta final do julgamento iniciado em 25 de maio. Antes deles, dezenas de testemunhas foram ouvidas, entre peritos, médicos, policiais, familiares, ex-namoradas de Jairinho e pessoas próximas ao casal.
O Ministério Público sustenta que Henry foi submetido a uma sequência de agressões e torturas dentro do apartamento onde morava com a mãe e o padrasto, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Segundo a acusação, Jairinho seria o autor das agressões, enquanto Monique teria se omitido diante dos sinais de violência. Os dois negam as acusações.
Durante o depoimento prestado ao longo da tarde, Jairinho ainda não havia abordado diretamente a noite da morte de Henry, aos 4 anos, em 8 de março de 2021, concentrando sua narrativa na reconstrução de sua trajetória pessoal, familiar e afetiva.
A expectativa é que o ex-vereador responda, posteriormente, aos questionamentos relacionados às acusações de tortura, às lesões apontadas pela perícia e aos acontecimentos que culminaram na morte do menino, caso que comoveu o país e se tornou um dos mais emblemáticos da história recente do Judiciário fluminense.
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