Monique Medeiros é julgada por omissão e descumprimento do dever de proteção do filho, Henry BorelReginaldo Pimenta / Arquivo O DIA

Rio - Em um dos momentos mais impactantes desde o início do júri popular pela morte do menino Henry Borel, Monique Medeiros afirmou nesta terça-feira (2) que, se tivesse conhecimento das agressões sofridas pelo filho, não estaria no banco dos réus ao lado do ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho.

"Se eu soubesse das agressões, eu estaria aqui respondendo pela morte do Jairo", declarou a ex-professora, durante o interrogatório realizado no II Tribunal do Júri do Rio, no Centro da cidade.
O depoimento de Monique, que durou cerca de seis horas, marcou o nono dia do julgamento e foi acompanhado atentamente pelos sete jurados responsáveis por decidir o destino dos réus acusados pela morte de Henry, ocorrida em março de 2021.

Pela primeira vez diante dos jurados, ela afirmou acreditar que Jairinho matou seu filho. Ao longo do interrogatório, ela chorou em diversos momentos, relembrou a gravidez, o nascimento de Henry, a relação com o pai da criança, Leniel Borel, e descreveu o relacionamento que manteve com o ex-vereador até a madrugada da morte do menino. "Hoje eu acredito que foi o Jairo"

Questionada sobre a morte do filho, Monique disse que, durante muito tempo, acreditou que Henry havia sido vítima de um acidente doméstico. Segundo ela, a versão apresentada por Jairinho na madrugada de 8 de março de 2021, de que a criança teria caído da cama, foi aceita por ela naquele momento.

"Eu me sentia muito culpada pela morte do meu filho. Eu achava que deveria ter colocado uma cama mais baixa, que deveria ter colocado proteção. Eu acreditava que era um acidente doméstico. Eu não me conformava", afirmou.

A ex-professora contou que chegou a desenvolver pensamentos suicidas nos dias seguintes à morte de Henry. Segundo ela, em uma conversa com o pai, chegou a dizer que não tiraria a própria vida porque desejava reencontrar o filho no céu.

Monique afirmou que somente mais tarde passou a desconfiar da participação de Jairinho na morte da criança. Ela relatou que chegou a confrontar o então companheiro após descobrir informações que contradiziam versões apresentadas por ele.

"Eu dei tapas no rosto dele e falei: 'Você matou meu filho'. Ele colocou a mão sobre uma Bíblia e jurou pelos filhos que nunca tinha encostado um dedo no Henry. Hoje eu acredito que foi o Jairo", declarou.

Acusações de agressão e controle

Durante o interrogatório, Monique descreveu um relacionamento que, segundo ela, era marcado por ciúmes excessivos, controle e episódios de violência psicológica. Ela afirmou que Jairinho monitorava sua localização, questionava suas amizades, pedia que bloqueasse pessoas nas redes sociais e criticava sua profissão.

"Ele me inferiorizava por ser professora. Eu tenho muito orgulho de ser professora. Foi essa profissão que minha mãe me deu condições de conquistar", disse.

Segundo Monique, o ex-vereador também controlava a forma como ela se vestia e exigia acesso às suas senhas. Ela afirmou que somente depois descobriu que Jairinho mantinha relacionamentos paralelos.

A professora relatou ainda um episódio em que teria sido enforcada pelo então namorado após uma discussão motivada por mensagens trocadas com o ex-marido.

"Eu pedi para ele parar porque o Henry dormia ao meu lado. No dia seguinte ele pediu desculpas e eu acreditei que fosse um episódio isolado", contou.

Mudança na relação entre Jairinho e Henry

Ao longo do depoimento, Monique confirmou episódios que já haviam sido mencionados por testemunhas durante o julgamento. Segundo ela, a convivência entre Jairinho e Henry começou a mudar após reclamações feitas por Leniel Borel.
Ela relatou um episódio em que o ex-vereador teria dado uma "banda" e uma "moca" no menino. "O Henry veio correndo e disse: 'Mamãe, vou te contar tudo'. O Jairo falou que tinha dado uma banda e segurado o braço dele. Eu pedi para ele nunca mais fazer aquilo", afirmou.

Apesar disso, Monique sustentou que não percebeu a gravidade do comportamento de Jairinho naquele momento. Segundo ela, nunca imaginou que o filho pudesse estar sendo vítima de agressões físicas sistemáticas.

"Na minha cabeça, o problema era que ele pudesse falar algo que ofendesse o Henry. Eu nunca imaginei uma sessão de tortura."

A professora também afirmou que não foi informada pela babá Thayná de Oliveira Ferreira sobre episódios mais graves relatados durante o julgamento. "Se ela tivesse me contado que meu filho estava sofrendo violência, eu não deixaria o Henry sozinho com ele."

Acusação de que foi dopada

Outro momento que chamou atenção dos jurados foi quando Monique afirmou acreditar que foi dopada por Jairinho na noite da morte de Henry. Segundo ela, costumava tomar medicamentos para dormir e era o próprio ex-vereador quem entregava os remédios.

"Ele me deu os remédios e disse que também tomaria. Depois descobri que ele passava madrugadas conversando com outras mulheres."

Monique afirmou que acordou por volta das 3h40 da madrugada após ser chamada por Jairinho. Ao chegar ao quarto do filho, encontrou Henry desacordado. "Meu filho foi dormir bem e acordou morto", falou ela.

Questionada pelos jurados sobre ligações feitas durante aquela madrugada para seu celular, ela disse acreditar que Jairinho poderia ter utilizado o aparelho para monitorá-la. "Hoje eu acredito que ele escondia meu telefone e fazia ligações para saber onde eu estava."

Vida financeira e acusações de interesse

Monique também rebateu acusações de que teria permanecido com Jairinho por interesse financeiro. A ex-professora afirmou que era servidora concursada da rede municipal de ensino e que possuía estabilidade financeira antes mesmo de iniciar o relacionamento. "Financeiramente eu não tive upgrade."

A mãe de Henry contou que trabalhou durante dez anos em escolas da rede pública, destacou projetos sociais desenvolvidos com alunos e afirmou que nunca levou uma vida de luxo. Segundo ela, seu carro era financiado, morava de aluguel e dividia despesas domésticas com Jairinho. "Nunca tive bolsa de luxo, apartamento de luxo. Eu era professora e tinha orgulho disso."

Relembre o caso

Henry Borel Medeiros, de 4 anos, morreu na madrugada de 8 de março de 2021 após chegar desacordado ao Hospital Barra D'Or, na Barra da Tijuca. As investigações conduzidas pela Polícia Civil concluíram que a criança foi vítima de agressões dentro do apartamento onde estava com a mãe e Jairinho.

O Ministério Público sustenta que o menino foi submetido a sessões de tortura e que as agressões culminaram em uma hemorragia interna provocada por laceração hepática. Jairinho responde por homicídio triplamente qualificado e tortura. Monique também responde pelos mesmos crimes, sob a acusação de omissão diante das agressões sofridas pelo filho. Ambos negam as acusações.

Após mais de cinco anos entre investigações, perícias, recursos e audiências, o caso chegou à etapa final. Com o encerramento do interrogatório de Monique, a expectativa agora é pela oitiva de Jairinho, último ato antes dos debates entre acusação e defesa e da votação dos jurados que decidirá o desfecho de um dos casos criminais mais emblemáticos da história recente do Rio de Janeiro.