Publicado 15/07/2026 08:01 | Atualizado 15/07/2026 09:57
Rio - A Polícia Civil realiza, nesta quarta-feira (15), a Operação Hawala para desarticular uma organização criminosa especializada na lavagem de dinheiro do tráfico de drogas. Segundo as investigações, o esquema movimentou mais de R$ 100 milhões entre 2021 e 2024 e prestava serviços financeiros para diferentes facções, como Terceiro Comando Puro (TCP), Comando Vermelho (CV) e ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Até o momento, dez pessoas foram presas.
PublicidadeA ação é realizada por agentes da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). Policiais do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) cumprem mandados de prisão, busca e apreensão, além de medidas de bloqueio de ativos financeiros, indisponibilidade de bens e participações societárias em endereços no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Foz do Iguaçu.
As investigações começaram a partir da atuação do TCP no Complexo de São Carlos, na Região Central do Rio. Durante as apurações, os agentes descobriram que a mesma estrutura financeira era utilizada para lavar dinheiro de diferentes facções, funcionando como uma espécie de "prestadora de serviços" para organizações envolvidas com o tráfico de drogas. O promotor Bruno Rinaldi destaca que a ação ataca o fluxo financeiro desses grupos.
"A investigação começou com uma loja, um estabelecimento. Inicialmente, se dava conta de que seria apenas na região do São Carlos, uma pessoa com movimentação incompatível. Só que aí, com análise de relatório de inteligência financeira, tivemos a compreensão de que não seria uma operação simples, mas sim uma estrutura profissional dedicada à lavagem de dinheiro que atendia a mais de um grupo. Estamos falando da especialização de uma estrutura que lavava dinheiro por encomenda", pontuou.
De acordo com a Polícia Civil, dezenas de empresas de fachada distribuídas em diferentes estados eram utilizadas para dar aparência de legalidade aos recursos obtidos com tráfico de drogas, receptação qualificada e comercialização de produtos falsificados. As análises financeiras contaram com o apoio do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) da corporação.
Os investigadores identificaram uma complexa engenharia financeira para ocultar a origem ilícita do dinheiro. Entre as estratégias utilizadas pelo grupo estavam empresas fictícias, sucessivas transferências entre pessoas jurídicas ligadas entre si, depósitos fracionados em dinheiro vivo, uso de "laranjas" para movimentações bancárias e operações incompatíveis com a renda declarada pelos investigados.
Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a atuação de um núcleo de empresários de origem libanesa, apontado como responsável por ampliar a circulação interestadual e internacional dos recursos ilícitos. Empresas registradas em São Paulo e Minas Gerais eram usadas para movimentar valores entre operadores financeiros, empresas de fachada e integrantes das facções no Rio de Janeiro.
As apurações também identificaram indícios da atuação desse grupo na região da Tríplice Fronteira, entre Brasil, Paraguai e Argentina, considerada por órgãos nacionais e internacionais um dos principais pontos de monitoramento por suspeitas de lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo.
Segundo a Polícia Civil, uma das empresas investigadas mantinha relação comercial com um homem sancionado pelo Office of Foreign Assets Control (OFAC), órgão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos responsável por aplicar sanções econômicas. Conforme as investigações, esse indivíduo integra uma estrutura de financiamento da organização terrorista Al-Qaeda. O possível vínculo internacional será aprofundado a partir da análise do material apreendido durante a operação.
As investigações também apontaram que uma operadora financeira administrava empresas responsáveis por movimentar mais de R$ 47 milhões no período investigado. Um contador é apontado como um dos principais facilitadores do esquema, por supostamente dar aparência de regularidade às empresas utilizadas na lavagem de dinheiro e deixar de comunicar operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), como determina a legislação.
Ainda de acordo com os investigadores, o profissional já havia sido citado em outros inquéritos relacionados a fraudes societárias envolvendo empresas inativas e constituição de pessoas jurídicas utilizadas para práticas ilícitas.
A Operação Hawala tem como principal objetivo sufocar financeiramente as organizações criminosas, desarticulando a estrutura responsável por movimentar e ocultar recursos provenientes de atividades ilegais. As investigações continuam para identificar outros envolvidos, localizar novos ativos e aprofundar a apuração sobre a movimentação internacional do dinheiro, em cooperação com órgãos brasileiros e estrangeiros especializados no combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.
Por causa de um confronto entre policiais e criminosos no Complexo do São Carlos, a Secretaria Municipal de Saúde informou que uma unidade de Atenção Primária da região suspendeu o funcionamento na manhã desta quarta-feira. Outras duas unidades mantêm o atendimento, porém as atividades externas realizadas no território, como as visitas domiciliares, estão suspensas.
Leia mais

Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.