Publicado 23/07/2026 11:34 | Atualizado 23/07/2026 13:52
Rio - A despedida do produtor Luiz Carlos Barreto reuniu dezenas de amigos, familiares e admiradores no Palácio da Cidade, em Botafogo, na Zona Sul, na manhã desta quinta-feira (23). Considerado um dos principais nomes do cinema brasileiro, o diretor morreu aos 98 anos, nesta quarta-feira (22), após ficar internado por uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia.
Publicidade O velório foi marcado por homenagens. Luiz Carlos recebeu aproximadamente 30 coroas de flores, enviadas, por exemplo, pela Academia Brasileira de Cinema e pelo Museu de Arte Moderna. Um fã deixou uma mensagem de carinho por meio de uma placa, mencionando o apelido do diretor: "Vai com Deus, Barretão".
Lucy Barreto, com quem o diretor foi casado durante 75 anos, discursou durante a missa de despedida, que foi encerrada com aplausos e gritos, como "Barreto Presente" e "Viva Barreto". O corpo do diretor será cremado em uma cerimônia restrita à família, às 15h30, no Memorial do Carmo, no Caju, na Zona Portuária.
Filho do produtor, o diretor Bruno Barreto contou como era a personalidade do pai. "Era uma pessoa muito afetiva. Ele podia brigar com você agora de vida ou morte e cinco minutos depois ele te abraçava, fazia as pazes. Ele era um cara passional, mas ao mesmo tempo muito racional. São paradoxos, mas ele depois se acalmava e era uma pessoa muito afetiva e muito construtiva".
O primogênito disse que ainda se surpreende com o legado deixado pelo patriarca, ao recordar um registro feito por ele que entrou para a história, quando a seleção brasileira venceu a sua primeira Copa do Mundo, em 1958. "O meu pai estava fotografando o Bellini com a taça e tinham muitos fotógrafos na frente dele. Aí ele disse para o Bellini: 'Levanta a taça'. E ele fez a foto. A partir daí, virou um hábito de toda a Copa do Mundo o capitão do time levantar a taça. [...] Embora eu tenha convivido com o meu pai por 71 anos, eu continuo descobrindo histórias dele que não conhecia", revelou Bruno.
Sob forte emoção, a filha de Luiz Carlos, Paula Barreto, refletiu sobre a mensagem que o pai deixou. "Acho que a maior mensagem que ele deixa é a humana. [...] Eu acho que ele gostaria que a população brasileira tivesse menos radicalismo, menos rancor e mais empatia. Porque esses são valores que deveriam nortear a vida de todos nós".
A produtora ainda ressaltou a importância do cinema para o diretor. "Todos os problemas que a indústria cinematográfica vive hoje no Brasil foram motivos de luta dele a vida inteira. Meu pai sempre pensou no todo, na indústria do cinema como no todo. Se você perguntasse para ele qual era o partido político, ele falaria: 'Eu sou do partido do cinema brasileiro. Eu não tenho partido, eu não sou direita, eu não sou esquerda, eu quero lutar pelo cinema'", afirmou Paula.
O fotógrafo estava com a saúde fragilizada desde março de 2024, quando sofreu uma queda durante uma visita ao Ceará, seu estado natal. "Eu perdi um companheiro, mas eu tenho certeza que ele está bem, ele descansou. Ele estava sofrendo desde quando teve esse acidente há dois anos e quatro meses atrás. Não era mais meu pai, não era. Era uma pessoa que estava sofrendo muito. [...] Não merecia prolongar mais a vida dele no estado que ele estava", falou a produtora, com a voz embargada.
Além de Bruno e Paula, Luiz Carlos e Lucy tiveram mais um filho, Fábio Barreto, que morreu aos 62 anos em novembro de 2019, no Hospital Samaritano, no Rio. O cineasta, ator, produtor e roteirista estava em coma desde dezembro de 2009, após sofrer um grave acidente de carro em Botafogo, na Zona Sul.
Mais homenagens
O jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira exaltou o legado profissional do produtor, ao citar a relação pessoal com Luiz Carlos. "Ele também era meu amigo. Um fotógrafo de muita qualidade. [...] Ele vem de uma geração de fotógrafos cearenses muito interessantes", homenageou ele.
O ator Chico Díaz também ressaltou a importância do diretor para as telonas e deu detalhes de como era a amizade entre eles. "Ele inventou e reforçou a argumentação do cinema nacional soberano. Inventou muitos talentos, gerou muito valor cultural para o países inteiro. [...] [Como amigo ele era] muito franco, solidário, valente, expansivo e muito corajoso. Uma fibra humana rara. Ele encarava qualquer desafio com muita tenacidade e humor. O humor cearense é muito bom".
A produtora, diretora e atriz Carla Camurati reafirmou a relevância do diretor para as produções nacionais. "O Barretão fez uma era linda do cinema brasileiro, uma muito especial. Esses 98 anos são de uma beleza, de uma entrega... Ele foi um grande fotógrafo, um grande produtor. Foi ele quem botou a literatura brasileira ao alcance de todos no cinema", disse ela, que complementou: "Eu vou morrer de saudade da gargalhada dele, que era incrível. Eu nunca trabalhei com ele, mas o Luiz Carlos sempre foi muito presente na minha vida".
O ator Antonio Pitanga deixou seu último adeus. "Vim me despedir dele com dor, mas também com alegria. Valeu a pena, Barretão. Missão comprida. se o cinema brasileiro é esse, hoje, um dos mais importantes do mundo, deve-se a esse cara cearense, chamado Luiz Carlos Barreto", afirmou o veterano.
O velório contou, ainda, com a presença da Ministra da Cultura, Margareth Menezes; do prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere (PSD); e dos deputados federais Benedita da Silva (PT), Jandira Feghali (PCdoB) e Lindbergh Farias (PT).
Carreira
Luiz Carlos nasceu em 1928, na cidade de Sobral, no interior do Ceará. Ele iniciou a carreira em 1961, como fotógrafo da revista O Cruzeiro. Ao lado de Roberto Farias, escreveu o roteiro de "O assalto ao Trem Pagador" (1962). Fez a fotografia de "Vidas Secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos, que conquistou o prêmio Oficina Católica Internacional do Cinema (OCIC) no Festival de Cannes em 1964.
Em 1965, deixou o jornalismo para se dedicar ao cinema, fundou a distribuidora Difilm. Ao lado de Lucy, fundou a L.C. Barreto. Desde então, foi coprodutor de "Terra em Transe" (1967), de Glauber Rocha e produtor de muitos filmes, como "Garrincha, Alegria do Povo" (1963), de Joaquim Pedro de Andrade, "Bye Bye Brasil" (1979), de Carlos Diegues, e "Memórias do Cárcere" (1983), de Nelson Pereira dos Santos.
Também produziu mais longas-metragens, incluindo "Bela Donna" (1998), de Fábio Barreto (1957-2019), "Uma aventura de Zico" (1999), de Antonio Carlos da Fontoura, "Bossa Nova (1999)", de Bruno Barreto, e "O caminho das Nuvens" (2003), de Vicente Amorim.
Dois filmes produzidos por ele e dirigido pelos seus filhos, Fábio e Bruno, respectivamente, concorreram ao Oscar: "O Quatrilho (1996)" e "O que é isso, companheiro?" (1997). Também produziu um dos filmes mais vistos da história do cinema brasileiro, "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), dirigido por Bruno.
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