Publicado 12/08/2026 08:00
Rio - Ostentação, luxo, bailes, status e poder. A criminalidade costuma ser um caminho rápido para crianças e adolescentes conquistarem o que desejam. No terceiro capítulo da série especial Rio em disputa, especialistas ouvidos por O DIA apontam que a realidade do estado propicia a entrada de jovens no tráfico de drogas, aumentando riscos de morte precoce, prisão e destruição de famílias.
PublicidadeNúmeros da violência armada no Grande Rio mostram o impacto que o crime organizado causa na infância e adolescência. Segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado, de janeiro até a primeira quinzena de julho, cinco adolescentes (de 12 a 17 anos) e três crianças morreram baleados. Ao todo, 22 jovens ficaram feridos.
Em relação a adolescentes apreendidos, o Instituto de Segurança Pública (ISP) identificou 2.880 casos no Estado do Rio nos seis primeiros meses do ano, o que corresponde a um aumento de 10% em comparação ao mesmo período de 2025. A cidade do Rio lidera com 936 apreensões. Em seguida, vêm Nova Friburgo (123) e Petrópolis (117), ambos municípios da Região Serrana.
Para exemplificar o risco da entrada de jovens no mundo do crime, a reportagem conversou com uma aposentada, que, como ela mesma define, enfrenta "a fase mais difícil que já passou em toda a sua vida". Moradora da Zona Sudoeste há mais de 30 anos, a mulher, que prefere não se identificar, conta que a filha, uma menina de classe média, de 23 anos, atualmente namora um miliciano, relacionamento que colocou a vida de toda a família em risco.
"Muitos jovens têm atração pela vida do crime. Minha filha sempre gostou de andar com más companhias. Eu sempre alertava, dava conselhos, mas ela nunca me ouviu. Esse já é o segundo miliciano que ela namora. O Comando Vermelho está tentando tomar o controle da comunidade onde ela mora com esse rapaz. Nas mídias sociais, já colocaram foto dela com o namorado, com ameaças, dizendo que vão matar todo mundo que for da milícia. Eu temo muito pela vida dela e do meu neto. Estou muito assustada. Sinceramente, estou perdida. Não sei mais o que fazer", revela.
Motivação
Mas, afinal, o que leva tantos jovens a atuarem em organizações criminosas? Uma pesquisa nacional do Data Favela - instituto que trabalha com dados sobre a realidade de comunidades -, realizada em 2025, revelou que 47% das pessoas com 17 a 21 anos entraram no crime por falta de dinheiro ou necessidade. Esse mesmo motivo foi apontado por 33% de adolescentes com idade de 13 a 16 anos, sendo que 18% da mesma faixa etária destacaram que ingressaram porque viviam na rua ou em abrigos.
A pesquisa ainda mostrou que, entre adolescentes de 13 a 16 anos envolvidos com o crime, o sonho de consumo é ter uma casa (25%), ter uma moto de luxo (19%) e ter um carro de luxo (17%).
Para o major Maicon Pereira, porta-voz da Polícia Militar, o ingresso desse público em organizações costuma ocorrer ao ver exemplos de sucesso nos locais em que vivem.
"Muito da entrada do jovem para a criminalidade se dá em razão de ter ali, na comunidade em que habita, esse tipo de referência, a qual muitas vezes acaba se espelhando, por estar mais próximo. Esse jovem demora mais a atingir seus objetivos e a prosperar. Na vida do crime, é rápido. O crime acaba se tornando, infelizmente, uma opção para muitos deles", analisa.
Laiana Quagliato, professora de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que, no ponto de vista da neurociência, a adolescência é um período de intensa reorganização social. As áreas cerebrais voltadas à busca por recompensas, emoções e reconhecimento social estão ativas nesse momento, enquanto outras regiões responsáveis pelo planejamento, pelo controle dos impulsos e pela avaliação de consequências futuras ainda estão em amadurecimento. Por isso, nessa fase, a entrada dos jovens em uma facção, por exemplo, é mais suscetível.
“Todo adolescente busca construir sua identidade e encontrar um lugar de pertencimento. O crime oferece essa narrativa de sucesso muito poderosa. Ele oferece dinheiro, poder, proteção e visibilidade social. Do ponto de vista neurobiológico, os circuitos cerebrais relacionados à recompensa e dopamina estão, particularmente, sensíveis nessa fase. Por isso, recompensas imediatas, como ganhar dinheiro, adquirir bens de consumo ou ser admirado pelo grupo, têm um impacto muito forte no comportamento do adolescente”, diz.
"Muitos jovens têm atração pela vida do crime. Minha filha sempre gostou de andar com más companhias. Eu sempre alertava, dava conselhos, mas ela nunca me ouviu. Esse já é o segundo miliciano que ela namora. O Comando Vermelho está tentando tomar o controle da comunidade onde ela mora com esse rapaz. Nas mídias sociais, já colocaram foto dela com o namorado, com ameaças, dizendo que vão matar todo mundo que for da milícia. Eu temo muito pela vida dela e do meu neto. Estou muito assustada. Sinceramente, estou perdida. Não sei mais o que fazer", revela.
Motivação
Mas, afinal, o que leva tantos jovens a atuarem em organizações criminosas? Uma pesquisa nacional do Data Favela - instituto que trabalha com dados sobre a realidade de comunidades -, realizada em 2025, revelou que 47% das pessoas com 17 a 21 anos entraram no crime por falta de dinheiro ou necessidade. Esse mesmo motivo foi apontado por 33% de adolescentes com idade de 13 a 16 anos, sendo que 18% da mesma faixa etária destacaram que ingressaram porque viviam na rua ou em abrigos.
A pesquisa ainda mostrou que, entre adolescentes de 13 a 16 anos envolvidos com o crime, o sonho de consumo é ter uma casa (25%), ter uma moto de luxo (19%) e ter um carro de luxo (17%).
Para o major Maicon Pereira, porta-voz da Polícia Militar, o ingresso desse público em organizações costuma ocorrer ao ver exemplos de sucesso nos locais em que vivem.
"Muito da entrada do jovem para a criminalidade se dá em razão de ter ali, na comunidade em que habita, esse tipo de referência, a qual muitas vezes acaba se espelhando, por estar mais próximo. Esse jovem demora mais a atingir seus objetivos e a prosperar. Na vida do crime, é rápido. O crime acaba se tornando, infelizmente, uma opção para muitos deles", analisa.
Laiana Quagliato, professora de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que, no ponto de vista da neurociência, a adolescência é um período de intensa reorganização social. As áreas cerebrais voltadas à busca por recompensas, emoções e reconhecimento social estão ativas nesse momento, enquanto outras regiões responsáveis pelo planejamento, pelo controle dos impulsos e pela avaliação de consequências futuras ainda estão em amadurecimento. Por isso, nessa fase, a entrada dos jovens em uma facção, por exemplo, é mais suscetível.
“Todo adolescente busca construir sua identidade e encontrar um lugar de pertencimento. O crime oferece essa narrativa de sucesso muito poderosa. Ele oferece dinheiro, poder, proteção e visibilidade social. Do ponto de vista neurobiológico, os circuitos cerebrais relacionados à recompensa e dopamina estão, particularmente, sensíveis nessa fase. Por isso, recompensas imediatas, como ganhar dinheiro, adquirir bens de consumo ou ser admirado pelo grupo, têm um impacto muito forte no comportamento do adolescente”, diz.
Ainda de acordo com Quagliato, muitas crianças de comunidades passam por situações traumáticas, como rupturas familiares. A professora destaca que, pela psiquiatria, experiências adversas precoces aumentam o risco de problemas emocionais e de regulação do comportamento, gerando maior vulnerabilidade. Com isso, o crime acaba ocupando o lugar de uma “família substituta”.
“Na adolescência, dinheiro e bens de consumo têm um significado que acabam indo além do aspecto material. Representam status, reconhecimento, autonomia e pertencimento. O crime acaba oferecendo uma solução rápida para necessidades legítimas do indivíduo, que é ter renda, sentir-se valorizado e ter essa sensação que ele pertence a algum grupo. Quebrar essa lógica é complicado e exige muito mais do que só falar para o jovem que o crime não compensa”, comenta.
Segundo o professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fábio Simas, os jovens que ingressam em atividades ilícitas são àqueles que possuem histórico de vivência sem provimento de políticas públicas, sendo geralmente homens negros, com baixíssima escolaridade.
“A escolaridade não chega, na maioria das vezes, à conclusão do primeiro ciclo do fundamental. São moradores de periferias, de favelas, em sua maioria muito carentes de políticas públicas. O ingresso na atividade ilícita do tráfico de drogas pode significar alguma ascensão naquele território - no ponto de vista de poder - e à itens de consumo que muitos não teriam em atividade de trabalho formal ou até informal mesmo. O ingresso de adolescentes no tráfico já é considerado uma das piores formas de exploração do trabalho infantil, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho”, destaca.
Conforme aponta a psicóloga Cléa Carvalho Lobo, o maior envolvimento de jovens com milicianos e traficantes acontece em razão de um fascínio que a criminalidade exerce sobre o público.
"Esses que se envolvem com o crime, na grande maioria, possuem o mesmo perfil: não têm estabilidade profissional, financeira e emocional. Eles estão sempre lutando para pertencer a um grupo. E, por vezes, esse grupo criminoso oferece o que eles necessitam", explica a especialista, que em cinco décadas de profissão, já prestou atendimento psicológico a jovens criminosos ao dar expediente em inúmeros projetos sociais.
Cléa ressalta que as mídias sociais potencializaram a sedução que o crime exerce sobre os mais novos. "Eles escolhem esse lugar onde, fantasiosamente, acreditam que são valorizados, onde têm um certo poder. É um fascínio tão grande que eles ignoram os riscos. E mesmo quando têm noção, eles continuam, pois consideram que não há nada melhor, mais glamoroso que possa acontecer na vida."
'Não tinha noção do perigo'
O pastor Diego Nascimento, 44 anos, entrou para o tráfico de drogas aos 12 anos e foi subindo de "cargo" até ganhar reconhecimento. Ao se perder no vício, buscou na fé uma forma de saída.
Morador da Vila Kennedy, na Zona Oeste, Diego começou sua "jornada" quando um traficante o chamou para ajudá-lo. Ele começou a transportar drogas para venda nas bocas de fumo e a repassar o dinheiro para o gerente. Com isso, ganhava uma quantia em troca.
“Sempre tive uma família estruturada. Pessoas trabalhadoras e que nunca usaram drogas. Nunca passei necessidade. Estudei primeiro em escola pública e depois em particular. Na sexta série, eu estava indo para escola - uniformizado - e um rapaz, que era gerente do tráfico, me chamou. Queria que eu guardasse as drogas para ele. Comecei a fazer isso. Eu continuava estudando e minhas notas eram boas. Minha mãe nem imaginava que eu tinha uma vida dessa”, conta.
Ainda adolescente, assumiu o posto de gerente-geral na região. Foi apreendido aos 16 anos com uma pistola. Aos 19, acabou enviado ao Complexo de Gericinó, em Bangu, onde ficou por quatro anos. Quando saiu, seguiu na vida do crime - com status dentro do Comando Vermelho - até se viciar em crack. Nesse momento, sua vida mudou. Para isso, teve ajuda de um traficante armado com fuzil.
“Quando o crack veio para o Rio, eu me viciei. Perdi minha dignidade, o caráter e o respeito. Fui morar na rua. Na época, um traficante mais novo que eu, que conhecia minha história, me chamou. Ele viu o estado que eu estava e disse de Jesus para mim. Ele estava com fuzil na mão, mas sabia que, no estado que eu me encontrava, só Jesus podia mudar minha vida. Ele disse para eu procurar uma igreja para reconstituir minha dignidade e minha família. Foi assim que eu estou firme até hoje.”
Atualmente, Diego - pastor da Igreja Assembleia de Deus Vale de Jaboque, em Bangu - é casado há 17 anos, tem três filhos e duas netas. Ele espera que outros jovens também possam sair da vida no crime.
“O que me fez aceitar o convite para o tráfico foi o sentimento de fama, de poder e de dinheiro fácil. Eu não tinha noção do perigo que era. Digo sempre no meu evangelismo que o crime não compensa porque não sofre somente quem está, mas também quem o ama de verdade. A mãe, o pai, os irmãos, a esposa e os filhos sofrem. Não tem outro caminho: você será preso ou vai morrer. Poucos sobrevivem. Mesmo com o máximo de dificuldade que passem, não aceitem essa vida. Procurem um trabalho, se empenhem nos estudos e, se puder, se apegue a Deus. É melhor viver com pouco do que com muito sem paz”, finaliza.
Importância de projetos sociais
Organizações que realizam projetos sociais em comunidades mudam a vida de crianças e adolescentes, como foi o caso de Daniel Wicke, de 26 anos, morador do Complexo da Maré, na Zona Norte. Atualmente, o homem é formado em Direito e coordenador de projetos de comunidades.
Wicke integra o Instituto Vida Real, fundado em 2004, na Maré. Para ele, a educação é o pilar mais importante para quebrar a entrada de jovens no mundo do crime.
“Cresci vendo essa realidade, mas, graças a projetos sociais, hoje tenho a formação e a carreira que tenho. Quando o adolescente percebe que existe um caminho possível para realizar os sonhos de uma forma digna, a chance dele optar pelo crime diminui significativamente. Todo jovem sonha. A diferença está na oportunidade que ele encontra em transformar esses sonhos em realidade. Se o estado, a sociedade e as organizações oferecem caminhos concretos, com dignidade e perspectiva de futuro, é fato que o crime deixa de ser alternativa”, atesta.
Daniel afirma que é fundamental construir políticas de educação de qualidade dentro de comunidades e aumentar investimentos em esportes, cultura, qualificação profissional, apoio psicológico, além de ampliar o acesso ao primeiro emprego.
“O foco deve ser investir em políticas públicas permanentes para a juventude, principalmente em educação em tempo integral. Segurança pública é importante, mas sozinha não resolve os problemas. Acho que é muito importante e necessário investir em políticas públicas eficazes. Não na política de mirar na cabeça e atirar. Não é essa que funciona. As organizações têm um papel muito estratégico porque elas conhecem a realidade dos territórios e conseguem estabelecer vínculos de confiança com as famílias. A gente sabe que existem muitos talentos, mas muitos deles deixaram de sonhar pela falta de oportunidade”, complementa.
Ajuda da PM
A Polícia Militar, junto às Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), desenvolve mais de 80 projetos sociais, educacionais e esportivos em comunidades do Rio, inclusive naquelas onde há influência do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro. As iniciativas têm como objetivo principal oferecer aos jovens opções, que desviem o foco da criminalidade.
"Temos projetos de reforço escolar, aulas de jiu-jítsu, balé, capoeira, boxe, taekwondo e outros. A maioria dos professores desses projetos são policiais militares. A gente tenta tirar o jovem da ociosidade oferecendo artes marciais, esporte, disciplina, educação e respeito ao próximo para contribuir para a formação, para que se afaste da criminalidade. É uma perspectiva preventiva", explica o major Maicon Pereira.
O porta-voz da corporação também destaca o Programa Educacional de Resistência às Drogas e Violência (Proerd), projeto realizada em escolas para ensinar crianças e adolescentes a dizerem “não” às drogas e à violência, com base em lições de autoestima, cidadania e tomada de decisões mais seguras e assertivas.
O porta-voz da corporação também destaca o Programa Educacional de Resistência às Drogas e Violência (Proerd), projeto realizada em escolas para ensinar crianças e adolescentes a dizerem “não” às drogas e à violência, com base em lições de autoestima, cidadania e tomada de decisões mais seguras e assertivas.
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