Carro incendiado no Complexo da Penha, um dos principais redutos do Comando VermelhoReginaldo Pimenta / Arquivo O Dia
A Polícia Civil já identificou que o CV atua em todo o país com uma rede estruturada, incluindo uma espécie de "conselho nacional". Conforme apuração que gerou a Operação Red Legacy, deflagrada em março, o “presidente” da organização é Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, que está preso na penitenciária federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Apesar de estar encarcerado há mais de 20 anos, ele é apontado como principal líder do grupo, com cargo vitalício, coordenando decisões estratégicas e financeiras.
A corporação afirma, também, que a facção tem uma cadeia de comando federalizada, que opera mesmo com lideranças presas. Investigações destacam que o Comando Vermelho detém um regime próprio de regras - chamado de estatuto - com conselhos deliberativos formados por 13 membros, incluindo presidente, vice-presidente, tesoureiro e porta-voz.
Uma das bases mais importantes da organização, atualmente, é o Complexo da Penha, na Zona Norte, onde ocorreu a operação mais letal da história do país, que terminou com mais de 120 mortos, em outubro de 2025.
Segundo denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), o CV possui um organograma com três principais cargos: “líderes”, também identificados como “chefes de guerra”; “gerentes” do tráfico; e “soldados”. Além disso, há funções menores, como “seguranças”, “vapores”, “olheiros” e “radinhos”. Ainda de acordo com o MPRJ, trata-se de uma cadeia de comando rigidamente cumprida, com emissão de ordens e punições severas aos descumpridores.
Edgar Alves de Andrade, o Doca, é considerado o principal líder. Conforme apontado pelo MPRJ, ele determina aos subalternos a dinâmica do tráfico, o comércio e armazenamento de entorpecentes e de armas, além da contabilidade da facção. Abaixo dele, como um segundo chefe, estaria Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala. Outros líderes destacados pelo órgão são Carlos da Costa Neves, o Gadernal; Washington César Braga da Silva, o Grandão ou Síndico da Penha; e Juan Breno Malta Ramos, o BMW.
Toda a cúpula fica em contato com gerentes locais, que são responsáveis por coordenar o tráfico em comunidades, recolher os lucros e repassar aos líderes. Além disso, a organização conta com: seguranças, que possuem o objetivo de proteger as lideranças; soldados, responsáveis pela atuação armada; vapores, que fazem a venda direta das drogas; radinhos, que monitoram e comunicam a presença de policiais e rivais; e olheiros, que vigiam em vielas.
De acordo com José Ricardo Bandeira, presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina (Inscrim), a principal diferença do CV para o TCP é que essa segunda facção tem uma estrutura mais descentralizada, onde cada região dominada possui um líder e subordinados.
“O Comando Vermelho já nasceu com metodologia de hierarquia. Surgiu na década de 1970 quando colocamos presos comuns com presos políticos, que ‘ensinaram’ os presos comuns a se organizar. A partir daí, nasceu com o DNA de ser uma organização centralizada. Hoje, o CV atua como o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo. Uma estrutura só, bem organizada, hierarquia disciplinar e seguida pelos membros. Eles conseguem implementar suas decisões em todas as comunidades de forma rápida porque é uma cadeia de comando única, o que facilita bastante. Ao contrário do Terceiro Comando, que, em cada região de domínio, tem um dono, que pode ou não, implementar as decisões que são tomadas por outros líderes, em outras comunidades”, destaca.
A principal fonte de renda no surgimento das facções era o comércio de drogas e assaltos a bancos. Desde a década de 1980, o CV domina a venda de entorpecentes dentro de comunidades do Rio, estabelecendo regras rígidas de convivência e controle territorial.
Nos últimos anos, os traficantes perceberam que explorar a venda de internet, cigarro, gás, transporte alternativo e outros serviços essenciais à população oferecem mais lucros, e, assim, fortalecem o grupo. Para isso, também começaram a explorar o roubo de veículos e de cargas, assim como o desmanche de peças.
Atualmente, as organizações adotam diversos esquemas de lavagem de dinheiro para esconder a origem ilegal dos lucros conquistados.
Entre as estratégias utilizadas pelo grupo estavam: empresas fictícias; sucessivas transferências entre pessoas jurídicas ligadas entre si; depósitos fracionados em dinheiro vivo; uso de “laranjas” para movimentações bancárias; e operações incompatíveis com a renda declarada pelos investigados. O principal ramo escolhido pela quadrilha era o comércio de celulares e de peças de aparelhos. Uma loja, próximo à comunidade do São Carlos (dominada pelo TCP), na região central do Rio, chegou a movimentar R$ 47 milhões.
“O tráfico de drogas não é mais a principal fonte de lucro das facções. É muito difícil viver somente disso. Para que você domine o território e implemente a venda de drogas, há um custo operacional muito elevado porque tem que manter um pequeno exército e armamentos superiores ao da Polícia Militar. Eles aprenderam com a milícia que existem outras formas de se ganhar dinheiro. Já que eu ocupo o território, eu posso explorar serviços. Essa foi a primeira virada de chave. A segunda é que começaram a estudar a atuação do PCC em São Paulo, que é extremamente organizado na lavagem de dinheiro. Estão diversificando as atuações”, complementa Bandeira.
"Cada fuzil custa, em média, R$ 70 mil, no mercado clandestino. O crime organizado no Rio de Janeiro tem cerca de R$ 1,5 bilhão investidos em armas e na manutenção delas. Esses números dão a dimensão da força econômica e do poder que essas organizações criminosas, seja tráfico ou milícia, têm em seus territórios. Acabou há muitos anos aquela visão romantizada do traficante, que só vendia drogas e ajudava a comunidade. São organizações extremamente organizadas, que visam o lucro, violam leis, oprimem e tiram a vida de pessoas inocentes", atesta.
Para Storani, as organizações também focam em esferas da sociedade para se estabelecer. “Estão cada vez mais poderosas, se infiltrando, como no Judiciário, comprando sentenças, e até mesmo formando profissionais, bancando estudos para que membros assumam cargos na Justiça, no Ministério Público e em forças de segurança. Combater as facções com eficiência é tratar como uma doença grave. É preciso primeiro reconhecer que há a doença para, então, tratá-la. E saber que o tratamento para doenças graves tem efeito colateral, mas que não serão piores que a própria doença. Precisamos admitir o problema e tratá-lo", dispara.
Há unanimidade entre especialistas em Segurança Pública de que o crime organizado tem representantes dentro de instituições de poder na sociedade fluminense. Em postagem recente nas redes sociais, Rodrigo Pimentel, outro capitão veterano do Bope, lembrou o caso do ex-deputado estadual Thiego Raimundo Santos Silva, o TH Joias, preso em setembro de 2025 por acusação de favorecer o comércio de drogas e armas ao Comando Vermelho, além de lavagem de dinheiro.
“A grande verdade é que houve uma facilitação para a entrada dele na Alerj. O TH já tinha sido preso pela Polícia Civil há oito anos e condenado pelo mesmo crime. Acho incrível que um partido político dê uma legenda para uma pessoa dessas”, postou Pimentel na ocasião.
Como é em São Paulo?
Assim como no Rio, o Estado de São Paulo também sofre com facções. A principal é o PCC, que surgiu nos anos 1990 depois do Massacre de Carandiru (marcado pela morte de 111 presos em ação da Polícia Militar, no Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo). A fundação do grupo está diretamente ligada ao objetivo de reagir às más condições vividas no sistema penitenciário.
Segundo José Ricardo Bandeira, presidente do Inscrim, o PCC não nasceu da venda de drogas, como as facções do Rio, e sim como um sindicato, com integrantes pagando uma “mensalidade” para financiar suas atividades.
“O PCC foi criado com uma renda certa, tinha uma população carcerária que pagava mensalidade. Com essa arrecadação, começou a expandir as atividades para o tráfico de drogas, exploração de serviços e lavagem de dinheiro. Em termos de crime organizado, está a anos luz na frente das facções do Rio. A sua organização é muito refinada”, destaca.
Para o professor, o Comando Vermelho aprendeu a lavar dinheiro com o PCC devido a um acordo velado. Já Storani entende o contrário. O antropólogo diz que as facções não querem parceria, ao menos por enquanto.
"Elas são independentes, autossuficientes, estão lucrando muito bem e estruturadas. Só vejo uma possível aliança caso elas percam muita força. Por exemplo, vamos imaginar que os Estados Unidos realmente ponham em prática um combate mais efetivo às facções. Aí sim, num cenário desfavorável, pode haver alguma aproximação", analisa Storani.
Terroristas?
Em maio, o Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou o CV e o PCC como organizações terroristas. A designação implica no congelamento de bens e ativos ligados às facções no país; na proibição de qualquer pessoa ou empresa americana de fazer negócios com integrantes; em sanções financeiras internacionais; no aumento da cooperação policial; na possibilidade de acusações mais graves; e em uma maior facilidade do EUA pressionar outros países a agir os grupos.
Bandeira afirma que nada mudará no Brasil com a decisão americana. “É completamente irrelevante no que diz respeito à segurança pública. O único benefício que pode criar é a possibilidade de confiscar bens das organizações que estejam em território americano, mas o foco dessas facções não é diretamente lavar dinheiro nos Estados Unidos. O PCC está internacionalizando suas operações para a Europa, assim como o Comando Vermelho. No geral, essa medida americana não vai trazer nenhum efeito benéfico para a diminuição dos efeitos da criminalidade no Brasil”, finaliza.
Para Rodrigo Pimentel, há uma visão equivocada e leniente de membros dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário sobre o assunto. Através de um post, ele lembrou uma ação de criminosos na comunidade da Quitanda, em Costa Barros, na Zona Norte, em outubro de 2025, que terminou com dois mortos - incluindo uma idosa, de 60 anos.
"Na opinião do ministro Lewandowski [do Supremo Tribunal Federal] essa ação não configuraria terrorismo. Tenho certeza que ele está equivocado. Esses criminosos usam armas de guerra, drones para jogar bombas e matar moradores e policiais. E também, na opinião do presidente Lula, esses facínoras que mataram essa senhora são verdadeiras 'vítimas'. Para ele, os algozes são os viciados em drogas. Esse pensamento é perigoso e irracional. O presidente desconhece que as facções, hoje, não buscam só vender drogas, mas buscam o domínio territorial para cobrar taxas e impor terror", alertou.
No Brasil, a classificação de “terroristas” para as facções não é adotada. A Lei Antiterrorismo (13.260/2016) define que “o terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.”






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