Rio das Pedras, bem como outros locais da Zona Sudoeste, sofre com rotina de guerraReginaldo Pimenta / Arquivo O Dia

A cidade do Rio e os municípios da Região Metroplitana convivem diariamente com confrontos entre organizações criminosas, que levam terror à população. Um dos principais pontos de disputa é a Zona Sudoeste da capital, que historicamente era dominada por milicianos. Atualmente, porém, bairros da região são alvos de traficantes, que procuram expandir sua influência. Todos os detalhes dessa guerra você vai conferir em uma série de cinco reportagens que O DIA publica a partir desta segunda-feira (10).
Investigações apontam que o Comando Vermelho, maior facção do estado, controla a Cidade de Deus, Gardênia Azul, comunidades de Itanhangá - como Muzema e Morro do Banco -, além de Vargem Grande e Pequena. Tais locais são usados como bases para traficantes atacarem endereços próximos, como Rio das Pedras, onde milicianos ainda "reinam".
O professor José Ricardo Bandeira, presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina (Inscrim), afirma que a diminuição dos territórios controlados pela milícia ocorreu por causa da perda de sua sustentação política ao longo dos anos.
 
“Quando falamos de milícia, falamos de uma organização criminosa composta por policiais, bombeiros, guardas, agentes públicos, que prestam serviços na segurança pública. É praticamente uma relação contaminada. O crime organizado está diretamente ligado aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Esses poderes acabam interferindo nas políticas de combate à violência e à criminalidade. Se você pegar estudos, vai ver que, antigamente, as operações policiais se concentravam em áreas dominadas pelo tráfico e poucas em áreas de milícia. Havia uma conivência do estado sobre a expansão das milícias”, diz.
 
Para Bandeira, no período da pandemia de covid-19, devido à influência direta do Ministério Público do Rio (MPRJ), o combate às milícias se intensificou, enfraquecendo o grupo. “Atualmente, o combate é feito em operações pontuais, encabeçadas - na maioria das vezes - pelo Ministério Público, que é um órgão independente. Houve uma influência direta do MPRJ para que esse enfraquecimento acontecesse. Do contrário, não seria possível porque havia conivência dos poderes Legislativo e Executivo dentro da estrutura do crime organizado. Hoje em dia, acredito que ainda existam políticos que tenham gerência, mas é bem menor que há algum tempo”, destaca.
 
Na Zona Norte, os principais embates por territórios são entre as duas principais facções: o CV e o Terceiro Comando Puro (TCP), que dominam o Complexo do Chapadão e o Complexo da Pedreira, respectivamente. Ambos são formados por um conjunto de comunidades em bairros vizinhos, como Costa Barros, Pavuna, Anchieta, Guadalupe e Ricardo de Albuquerque.
 
As forças de segurança do estado procuram combater tais disputas territoriais, principalmente, através de fases da Operação Contenção, cujo objetivo é acabar com a expansão do Comando Vermelho - desarticulando as estruturas financeiras, logísticas e operacionais da facção. A ação já resultou em mais de 370 presos e mais de 130 suspeitos mortos em confronto. Apesar das rotineiras operações, as áreas dominadas por criminosos aumentaram nos últimos 20 anos.
 
Linha do tempo
 
O comando do tráfico organizado no Rio nasceu na década de 1970, no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, Costa Verde, durante a ditadura militar. O convívio entre presos comuns e presos políticos resultou na adoção de táticas de guerrilha e na criação de uma irmandade para autodefesa e lucro.
A superlotação e as péssimas condições das prisões uniram os detentos, inicialmente sob o nome de “Falange da Segurança Nacional” (referência à lei usada contra os presos políticos) e, posteriormente, como “Falange Vermelha”.
 
A transformação para Comando Vermelho ocorreu anos depois, na década de 1980, quando o grupo passou a ser chamado pela imprensa desta forma. A facção passou a dominar a venda de drogas diretamente dentro das favelas, estabelecendo regras rígidas de convivência e controle territorial. Willian da Silva Lima, conhecido como Professor, é considerado o principal fundador.
 
Na época, o comércio de cocaína e os assaltos a bancos eram as principais fontes de renda. Nos últimos anos, os traficantes perceberam que explorar a venda de internet, cigarro, gás, transporte alternativo e outros serviços essenciais às comunidades - prática comum adotada pelas milícias - poderia oferecer mais lucro, e, assim, fortalecer o grupo.
 
Já a milícia começou sua história em Rio das Pedras, com o casal Otacílio e Dinda Bianchi sendo figuras centrais. Ele foi um dos fundadores da associação de moradores do bairro e instituiu “leis” na região, cobrando taxas de segurança e impondo controle.
 
Otacílio foi assassinado em disputa interna pelo poder. Dinda, após a morte do companheiro, assumiu o controle do grupo paramilitar. Sua gestão foi marcada por um período violento, com expulsões e outras punições a residentes. Anos depois, a executaram em frente à associação de moradores que ajudou a criar.
 
Inicialmente, a milícia era um grupo criminoso "tolerado" por autoridades e habitantes de comunidades, devido à repressão ao tráfico. Na época, o objetivo dos paramilitares não era ter lucros com as taxas cobradas a comerciantes. O dinheiro servia apenas para fortalecer seu poder bélico. Com o passar dos anos e o avanço do tráfico de drogas, o foco dos milicianos mudou. Tais quadrilhas passaram a visar o lucro e ganhar dinheiro com venda de serviços como gás e transporte alternativo.
 
Domínio 
 
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que mais de 17 milhões de pessoas moram no Estado do Rio atualmente. Apenas na capital - principal município do Grande Rio - são mais de 6 milhões.
 
O último levantamento do Instituto Fogo Cruzado e do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF), divulgado em dezembro do ano passado, apontou que cerca de 4 milhões de moradores do Grande Rio viviam sob controle ou influência de grupos armados até 2024.
Segundo a pesquisa, em 18 anos, entre 2007 e 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130%, enquanto a população nessa condição aumentou 59%. Durante esses anos, o Comando Vermelho se consolidou com hegemonia.
 
Já as milícias mantiveram a maior extensão territorial, mas começaram a se retrair após prisões - como a de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, em 2023 -, e mortes de líderes, como a de Wellington da Silva Braga, o Ecko, em 2021. Além disso, disputas internas também desorganizaram os grupos paramilitares, abrindo brechas para facções conquistarem novos territórios.
 
“No tempo do Ecko, era uma estrutura única. Existia uma cadeia de comando. Quando Zinho foi preso, houve uma vacância de poder. Os milicianos começaram a brigar para quem ia assumir. Acabou que não chegaram a um acordo e dividiram a milícia, fracionando a estrutura única e enfraquecendo o grupo. Agora, cada um é dono de seu território e se vira com o modo de gerir”, conta José Ricardo Bandeira.
 
Apesar da recente retração, as milícias foram o grupo que mais ampliaram sua presença territorial de 2007 a 2024. A área controlada aumentou 315%. Isso porque os paramilitares focaram em ocupações urbanas vazias, loteamentos irregulares e novas frentes de expansão.
 
O CV, por sua vez, avançou de maneira constante, com aumento de 46% da área dominada. A facção avançou para locais já consolidados, ocupando territórios de alta densidade e maior circulação econômica.
Ainda de acordo com o relatório, as milícias começaram a perder parte do território que controlavam nas zonas Oeste e Sudoeste a partir de 2020, abrindo espaços para avanços do CV, do TCP e de pequenos remanescentes do Amigos dos Amigos (ADA).
 
“Nesse momento, as milícias não têm poder de fogo para ocupar grandes comunidades. Elas podem se concentrar em pequenas comunidades - onde a presença do tráfico é praticamente insignificante e não vai haver resistência -, mas esses locais não são lucrativos e nem tem potencial para dar lucro. Acredito que a milícia vai continuar existindo, mas fará um movimento de volta para as suas origens, de ser um grupo que cuide da comunidade com um relacionamento mais estreito. Não acredito que, daqui em diante, vai haver uma expansão, mas também tenho certeza que não vão acabar”, afirma Bandeira.
 
Ainda segundo o professor, o CV tem focado na Zona Sudoeste devido à vantagem logística. “Quando você tem novos mercados e territórios, você aumenta seu poder, sua arrecadação e atuação. Se eu posso fazer um anel, com várias comunidades vizinhas, é mais interessante para minha logística. Se eu posso ter áreas próximas à vias expressas e de fácil acesso, eu facilito a distribuição de armas, drogas e munições. Essa área é muito interessante para o Comando Vermelho porque consegue escoar, usando o corredor das zonas Sudoeste e Oeste, chegando até a fronteira de São Paulo. Há vantagem de rotas. Você está em uma área que tem orla, o que até contribui para o abastecimento marítimo.”
 
Em recente postagem nas redes sociais, o especialista em Segurança Pública, Rodrigo Pimentel, capitão veterano do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), alertou que as milícias ficarão focadas em áreas nobres da Zona Sudoeste, como Barra da Tijuca e Recreio.
 
“Um conhecido meu, dono de um grande hotel, recebeu a visita de um criminoso cobrando taxa. Ele disse: ‘Pimentel, ele desceu de um carro e disse para eu pagar R$ 4 mil por mês’. Que opinião vou dar para esse cara? Vou dizer ‘Não paga!’? Ele não paga, encosta um cara com fuzil e dá 10 tiros no hotel. Isso está acontecendo no Rio e é quase impossível de enfrentar. E vai acontecer no Brasil. Vai sair da periferia e vai para bairros nobres em pouco tempo", escreveu.
 
No Centro e na Zona Sul, o Comando Vermelho começou a dominar, em boa medida, a partir da conquista de áreas historicamente associadas ao ADA, como a Rocinha e o Vidigal, entre os anos de 2017 a 2019.
Na Zona Norte, a história é de disputa crescente. Por muitos anos, milicianos e traficantes do CV alternaram na liderança da hegemonia territorial, com leve vantagem da facção em termos populacionais. Nos últimos anos, o TCP ganhou força, tornando a região um dos espaços mais disputados da cidade. Até 2024, 31% da superfície urbanizada da capital e 42,4% de sua população estavam sob controle ou influência de grupos armados.
 
Na Baixada Fluminense, o Comando Vermelho também é a principal facção - principalmente em Duque de Caxias e Nova Iguaçu - seguido da milícia. O TCP vem ampliando significativamente sua presença desde 2007, com focos maiores em Belford Roxo e São João de Meriti.
 
Na Região Metropolitana, há um dos principais redutos do CV fora da capital: o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. A facção domina outros municípios da região, onde também há investidas do TCP.
 
Principais líderes 
 
Edgar Alves de Andrade, também conhecido como Doca e Urso, é considerado uma das principais lideranças da facção no Estado do Rio. Segundo investigações, ele utiliza comunidades da Zona Norte, como o Complexo da Penha, como base de atuação da facção. Além disso, é acusado de liderar invasões na Zona Sudoeste, sendo também investigado por homicídios e desaparecimento de moradores. O Disque Denúncia já divulgou um cartaz oferecendo R$ 100 mil por sua captura.
 
Outro nome forte da atual hierarquia do CV é Carlos da Costa Neves, o Gadernal, apontado pela polícia como um dos gerentes-gerais da facção no Rio. Ele é descrito como um dos responsáveis pela administração do tráfico em áreas estratégicas para o grupo, coordenando a venda de drogas, logística, segurança armada e o repasse de lucros.
 
Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala, também seria integrante do primeiro escalão da facção no Complexo da Penha, sendo um dos homens de confiança de Doca e tratado como “chefe” por outros integrantes.
Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, o BMW, é considerado líder de um grupo de matadores do CV conhecido como “Equipe Sombra”. Investigadores apontam que ele teria papel importante na administração do tráfico na Gardênia Azul.
 
Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, é apontado como chefe do tráfico do Complexo do Alemão, na Zona Norte, outro reduto do Comando Vermelho. Ele faz parte da facção há quase 30 anos. O homem também seria responsável pela importação de armas e drogas, aquisição de equipamentos para derrubada de drones e lavagem de dinheiro.
 
Ainda de acordo com investigações, Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, controla o tráfico de drogas na Lapa, na região central. As vendas e armazenamento dos entorpecentes costumam acontecer em casarões abandonados na área, famosa pela boêmia.
 
No Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, quem lidera a facção desde o final dos anos 1990 é Antônio Ilário Ferreira, o Rabicó. Ele tem uma extensa ficha criminal e responde por crimes como associação criminosa, homicídio e roubo majorado.
 
TCP
 
Considerado um dos criminosos mais procurados do Rio, Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, é a principal liderança do Terceiro Comando Puro no estado. Ele está na mira das polícias Civil e Militar há mais de 10 anos. Adepto de símbolos de Israel, como a Estrela de Davi, o traficante até se autointitula como Arão, o profeta de Deus. Ele é o chefe do tráfico do Complexo de Israel, formado pelas comunidades Cinco Bocas, Cidade Alta e Pica-Pau, localizado entre os bairros de Cordovil, Parada de Lucas e Vigário Geral, na Zona Norte do Rio.
 
Wallace de Brito Trindade, o Lacoste, é o segundo nome mais poderoso no TCP. Ele comanda a facção no Complexo da Serrinha, em Madureira, na Zona Norte. De acordo com o Disque Denúncia, as cinco comunidades da localidade ostentam a maior quantidade de armas e bocas de fumo da região.
 
Fundador da ADA
 
A facção Amigos dos Amigos (ADA) surgiu no fim dos anos 1990 após um conflito entre membros do Comando Vermelho. Um dos fundadores é Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém, que tem histórico de fugas de presídios. Em uma delas, em 1998, teria saído pela porta da frente de uma unidade de saúde vestido com uma farda da Polícia Militar. Celsinho cumpre prisão domiciliar desde setembro de 2025.
Investigações, realizadas no ano passado, descobriram que Celsinho firmou uma aliança com Doca, líder do CV, para expandir o domínio territorial e o comércio de drogas na Zona Sudoeste. Ele afirma que, atualmente, vive da criação de porcos.
 
Principais milicianos
 
Paulo David Guimarães Ferraz Silva, o Naval, se tornou um dos líderes da milícia na Zona Oeste do Rio depois da prisão de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho. Segundo apurações, ele domina comunidades de Inhoaíba e Santa Cruz. Também é acusado de participar do homicídio do ex-vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, que seria um dos fundadores do grupo paramilitar Liga da Justiça.
 
Já Danilo Dias Lima, o Tandera, consolidou seu domínio na Baixada Fluminense com atuação marcada por extrema violência. O miliciano é conhecido pelo comportamento violento, estando à frente de invasões em áreas dominadas por rivais.
 
O que dizem as polícias?
 
Em nota, a Polícia Militar informou que desconhece a metodologia utilizada no levantamento e que adota como referência os dados oficiais divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP).
 
A corporação destaca que atua de forma permanente no enfrentamento às organizações criminosas, com ações de inteligência, planejamento operacional e policiamento ostensivo. Desde janeiro deste ano, policiais militares já apreenderam 426 fuzis, resultado de operações direcionadas às áreas de maior incidência criminal e voltadas à desarticulação de grupos criminosos, à prisão de seus integrantes e à apreensão de armamentos.
 
A Polícia Civil também afirmou que desconhece a metodologia utilizada na pesquisa e a possibilidade de rastreabilidade dos dados. A instituição informou que atua com base em ações de inteligências, trabalho investigativo e cruzamentos de dados, com o objetivo de conter o avanço territorial de organizações criminosas em diferentes regiões do estado.
 
“O enfrentamento às facções criminosas e grupos paramilitares é permanente e ocorre sem distinção em todo estado, incluindo na Grande Rio. As operações fazem parte desse planejamento estratégico e são definidas a partir de critérios técnicos e das investigações”, diz a nota.