Heloisa Jorge veio para o Brasil como refugiada e sofreu muito preconceito

Atriz interpreta a escrava Luanda de 'Liberdade, Liberdade'. 'Os colegas me viam como a esquisita, a africana', revela

Por O Dia

Heloisa Jorge interpreta a escrava Luanda em 'Liberdade%2C Liberdade'Divulgação

Rio - Por trás de uma personagem que sofre as mais violentas punições pelo simples fato de amar o escravo sexual preferido de sua sinhá, em ‘Liberdade, Liberdade’, está uma atriz com uma história de vida que renderia uma novela. Heloisa Jorge, 31 anos, intérprete da escrava Luanda, é africana. Filha de mãe angolana e pai brasileiro, a atriz chegou ao Brasil como refugiada aos 12 anos, e foi morar em Montes Claros, Minas Gerais, onde amargou um período de cinco anos de adaptação, até se descobrir nas artes.

“Quando eu cheguei, fui para a cidade do meu pai, que é superconservadora. A minha identidade na adolescência foi bem abalada porque nós éramos a família negra. Vim por causa da guerra. Meus pais se separaram quando eu era pequena e aí minha mãe voltou comigo e meu irmão para Angola. A década de 90 foi a mais crítica do país, e aí começamos a viajar pelas províncias como refugiados. A gente nunca teve casa própria lá. Ficamos desaparecidos por um tempo, até que meu pai entrou em contato com o Itamaraty, em Brasília, e nós viemos, eu e meu irmão. Minha mãe ficou com os outros irmãos, porque naquela época angolano não podia sair do país. O fato de ter um pai brasileiro ajudou muito, mas me separar da minha mãe não foi nada fácil”, lembra Heloisa.

Em Minas, a atriz teve que lutar contra o preconceito. “Quando adolescente, eu tinha uma dificuldade de falar muito grande, acho que por conta da história de vida, das poucas negras da escola... Meu sotaque era uma coisa que me deixava muito intranquila, então eu perdi rapidinho. Como eu sempre tive facilidade de imitar, criava personagens para apresentar os trabalhos, fazia teatrinhos e, de repente, fiquei popular. Virei a engraçadinha e não mais um corpo estranho no meio dos meus colegas. Mas só vim sentir orgulho de ser angolana quando eu me mudei para Salvador, para fazer Artes Cênicas na Federal da Bahia. Eu não gostava de ser chamada de angolana porque as pessoas associavam o continente africano a essas mazelas todas de doenças, guerras”, lembra.

Foi no teatro, aos 18 anos, que Heloisa resgatou sua autoconfiança: “A arte me deu autoestima. Salvador contribuiu muito para definir quem eu sou. Fui assumir meu cabelo crespo lá. Antes usava alisado, cheio de creme e com coquinho. Em Montes Claros, eu não via ninguém com o cabelo volumoso como o meu. Eu não era padrão de beleza na escola, os colegas me viam como a esquisita, a africana. Ninguém queria ficar comigo. Em Salvador, eu desabrochei. Lá, eu descobri todo o meu poder, minha sensualidade.”  

Reviravolta na trama

Se na vida pessoal, Heloisa está segura de si e de suas escolhas, na trama das 23h, de Mario Teixeira, sua personagem Luanda ainda vai sentir muito na pele a paixão proibida por Saviano (David Junior). A cena de sexo logo no primeiro capítulo da trama deu o que falar, mas para ela faz parte do métier: “É bem tranquilo porque eu venho do teatro e nossa relação com a nudez é outra. O David também é um parceiro generoso, a gente conversou bastante, ele foi superdelicado e cuidadoso comigo. Eu sempre tive esse despudor com o corpo, porque é a nossa ferramenta de trabalho. A gente está aí para jogo.”

Pior do que se despir foi gravar a cena em que Luanda é torturada por Dionísia (Maitê Proença), como castigo por se envolver com seu escravo: “Quando eu me vi com aquela máscara - eles usam a referência da escrava Anastácia – foi bem complicado para mim porque mexe num outro lugar, num lugar muito pessoal. Não precisei de trabalho nenhum, foi colocar a máscara e o sentimento de humilhação veio à tona. Teve um constrangimento, um desconforto muito grande na equipe. Foi difícil aqui (aponta para a cabeça) e aqui (para o coração). Está no corpo da gente. Parece que o negro no Brasil tem que estar na defensiva o tempo todo. Você precisa, de alguma forma, provar que é bom, que não é o suspeito.”

Nos próximos capítulos, Luanda “vai sair de desgraçada para virar uma quase x9.” É assim que Heloisa resume a reviravolta que sua personagem sofrerá na trama. Ela deixará a casa de sua sinhá, onde é severamente castigada, e passará a servir Branca (Nathalia Dill) como dama de companhia. No lugar de trapos, roupas decentes e penteados. Tudo para parecer com a rival da patricinha de época, Joaquina (Andreia Horta), amiga inseparável da alforriada Bertoleza (Sheron Menezzes): “Mas Luanda está de inocente na história porque acha que a Branca gosta dela, que existe uma relação afetiva. Na verdade, o que ela quer são informações da casa da Joaquina. A Luanda vai virar, digamos, uma moçoila de caráter duvidoso”, adianta Heloisa.

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