PF indicia Abílio Diniz na Operação Trapaça

Desdobramento da Carne Fraca, a investigação apura fraudes que teriam sido cometidas por funcionários e executivos da empresa. Ao todo, a PF indiciou 43 pessoas

Por O Dia

São Paulo - O empresário Abilio Diniz, ex-presidente do conselho de administração da BRF, e Pedro Faria, ex-presidente executivo global da companhia de alimentos, foram indiciados nesta segunda-feira, 15, pela Polícia Federal no relatório final da Operação Trapaça. Desdobramento da Carne Fraca, a investigação apura fraudes que teriam sido cometidas por funcionários e executivos da empresa. Ao todo, a PF indiciou 43 pessoas.

No relatório final, a PF afirma que um esquema de irregularidades nas unidades da BRF, que comercializa, entre outras, as marcas Sadia e Perdigão, tinha como finalidade burlar o Serviço de Inspeção Federal (SIF), do Ministério da Agricultura, e as fiscalizações de qualidade do processo industrial da empresa. As investigações concluíram que a prática das fraudes contava com a anuência de executivos do grupo, bem como de seu corpo técnico, além de profissionais responsáveis pelo controle de qualidade dos produtos da própria empresa.

Abilio e Faria são suspeitos de estelionato, organização criminosa, falsidade ideológica e crime contra saúde pública. O indiciamento indica apenas que a autoridade policial vê indícios de crime. Após analisar o relatório, o Ministério Público decidirá se vai apresentar ou não uma denúncia formal.

A PF dividiu o relatório em três frentes de supostas irregularidades: adulteração dolosa na composição das fórmulas de rações, inserção no mercado consumidor (em ao menos 10 Estados) de produtos com a bactéria Salmonella Typhimurium, ocultando o fato do Ministério da Agricultura, e também fraudes laboratoriais para alterar resultados de análises microbiológicas.

Mensagens

A PF afirma que, a partir da análise de conversas por mensagens de e-mails e Whatsapp, ‘concluiu-se que a prática das condutas delitivas não se restringia ao círculo das equipes técnica e gerencial das fábricas da BRF’. "Há, de fato, a participação do corpo diretivo da empresa na trama investigada, o qual tinha ciência de seu modus operandi, e que, não somente se omitiu em relação a fazer cessá-lo, mas, também, participou comissivamente dos atos de ocultação das fraudes, norteando sua execução", aponta o delegado.

"Destaca-se a participação ativa, em caso envolvendo a detecção de resíduo tóxico em carne de frango pelas autoridades chinesas (Dioxina), de Pedro Faria (à época presidente global do Grupo BRF), Abílio Diniz (à época presidente do Conselho da BRF) e José Carlos Reis de Magalhães Neto, sócio da Tarpon Investimentos (acionista da BRF)."

O delegado cita uma conversa ocorrida em um grupo do WhatsApp do qual faziam parte Faria, Abilio e José Carlos, conhecido como Zeca. Segundo o delegado, o contexto das conversas indica o conhecimento do corpo executivo da BRF sobre a ocorrência de detecção de substâncias nocivas à saúde humana em produtos da empresa.

Na avaliação da PF, "o grupo agia de forma organizada e mantinha comunicação permanente, objetivando iludir auditorias, programadas ou inopinadas, em plantas industriais da BRF, eventos nos quais produtos irregulares eram retirados de depósito, e escondidos da fiscalização".

A empresa é comandada desde maio pelo executivo Pedro Parente, após a saída de Diniz.

Respostas

Em nota, a assessoria de Abilio afirma que ele não cometeu irregularidades. "No relatório apresentado pela Polícia Federal, não existem elementos que demonstrem irregularidades cometidas por Abilio Diniz. É importante ressaltar que o indiciamento não indica culpa, mas apenas que a autoridade policial considera haver indícios de atos ilícitos, o que será apreciado ainda pelo Ministério Público."

De acordo com Aloisio Medeiros, advogado de Pedro Faria, "jamais houve qualquer determinação da diretoria do Grupo BRF, muito menos de Pedro Faria, no sentido de acobertar quaisquer eventuais desconformidades relativas ao processo produtivo da companhia". Medeiros reforça que, durante a administração de Faria, a empresa não poupou esforços e recursos para dotar as suas unidades dos mais modernos sistemas de controle sanitários

A Tarpon preferiu não comentar o assunto, já que Magalhães Neto não foi indiciado.

Procurada, a BRF afirmou que "é de interesse máximo de sua administração que os fatos relacionados às investigações sejam esclarecidos em toda a sua profundidade e extensão". A companhia decidiu afastar preventivamente todos os funcionários citados no relatório da Polícia Federal até o esclarecimento dos fatos.

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