
Brumadinho - Quem sobreviveu ao rompimento da barragem em Brumadinho carrega nos olhos, constantemente marejados, a imagem de toda aquela lama derramada por entre as montanhas. Gente muito simples, porque o Córrego do Feijão é um distrito pobre, apesar de toda riqueza que já saiu daquela terra.
Maria Aparecida dos Santos, 44, é uma mulher miúda que sempre viveu e trabalhou na roça. A fazenda em que morava, vizinha à pousada que foi totalmente soterrada, era também seu local de trabalho. Desde 2005 ela vivia na Vila Ferteco, espécie de povoado do distrito de Córrego do Feijão. Quando se formou a cortina de poeira e os trabalhadores da fábrica de alimentos começaram a gritar que a barragem tinha rompido, ela só teve tempo de pegar a filha e correr em direção ao morro mais alto. Conseguiu sobreviver, mas ficou com uma marca na alma.
"Tudo que eu vi ali passando atrás de mim, aquele monte de gente descendo na lama, casa, ônibus, pessoas, pedras. Foi muita tragédia. Nem Vale, nem dinheiro nenhum vai conseguir apagar isso da minha mente. Jurei que daquele dia até a hora que Deus me levar eu vou caminhar para fazer justiça por todos que se foram. Estou me sentindo um lixo, um fracasso por ver as pessoas descendo sem eu fazer nada", relembra.
Não sobrou nada do que existia na vida de Maria Aparecida. Ela, assim como os mais de 100 desabrigados em função do desastre, só pensam em voltar para casa. Aparecida sente falta de coisas mínimas do cotidiano, como fazer a própria comida, arrumar a casa e, principalmente, do trabalho.
"Sábado era dia de lavar minha roupa, limpar minha casa, de cozinhar meu feijão pra semana. Não tem dinheiro nessa terra que pague o lar da gente. Pode ser um luxo maravilhoso, igual aqui (a pousada), mas nada substitui o nosso cantinho. Eu já estou doida pra ir embora. Eu quero a minha vida de volta. Eu quero a minha vida", diz com a força de quem já enfrentou muitas lutas.






