
A imensa dor de amigos e parentes das vítimas da tragédia de Brumadinho, certamente multiplicou-se diante dos vídeos divulgados na sexta-feira. Como num filme catástrofe, daqueles em que Hollywood gasta uma fortuna para assustar a plateia, é possível ver a montanha formada pela gigantesca barragem desfazer-se em um tsunami de lama e avançar sobre carros, casas, trens, tratores e... pessoas. Dessa vez, as cenas não eram um truque de efeitos especiais. Gente de verdade foi engolfada pelas vagas de rejeitos que tinham 15 vezes a sua altura. Antes do momento fatal, foi possível ver os funcionários correndo desesperados para tentar uma fuga que era completamente inviável. O terror experimentado no cinema nunca chegará perto do que aconteceu naqueles segundos anteriores à chegada da onda de lama.
Além de fermentar ainda mais a tristeza de quem chora pelos mortos em Brumadinho, os vídeos dão uma dimensão mais exata do tamanho da responsabilidade da empresa nesse desastre. Como a barragem pode ter chegado ao ponto de se desintegrar dessa forma sem que ninguém tivesse notado o perigo iminente? Com tanta tecnologia disponível, parece impossível que uma empresa do vulto da Vale não tenha conseguido perceber sinais de alerta. Ainda mais sendo ela a responsável pela Samarco, dona da outra barragem semelhante que se rompeu três anos antes, em Mariana.
O anúncio feito pelo presidente da mineradora depois da catástrofe, de que vai tirar de funcionamento barragens obsoletas como a de Brumadinho, é intrigante. Impressiona que tenha sido preciso uma segunda tragédia para que profissionais tão qualificados chegassem a essa conclusão. Pelo lado da mineradora, não resta dúvida quanto às responsabilidades.Pelo lado das autoridades, a leniência na fiscalização de empresas desse porte, que se mostram perigosas tanto para o meio ambiente quanto para as vidas ao seu redor, é cada vez mais patente.
A resposta dos governantes para a tragédia de Brumadinho não pode ser apenas a prisão de alguns executivos (como se estes não agissem a mando de seus superiores) e multas milionárias que jamais são pagas. É necessário acompanhar seriamente, todos os dias, cada decisão dessas companhias. Sem o trabalho rotineiro, silencioso e honesto dos fiscais, respaldado por seus chefes no governo, a natureza e a vida de muitos brasileiros estará sempre em risco. E os governantes deverão ser vistos como co-autores se acontecer um próximo desastre.






