Em maio de 2019, barragem de Gongo Soco, em Barão de Cocais, foi colocada em alerta máximo de rompimento - Reprodução
Em maio de 2019, barragem de Gongo Soco, em Barão de Cocais, foi colocada em alerta máximo de rompimentoReprodução
Por ESTADÃO CONTEÚDO
Minas Gerais - Conforme informado pela própria Vale ao Ministério Público, o talude da mina de Gongo Soco, que fica a 1,5 quilômetro da barragem da Vale em Barão de Cocais (MG), pode sofrer deslizamento a qualquer momento entre este domingo e o próximo dia 25.
A mineradora iniciou obras para erguer um muro e tentar conter a lama da barragem da mineradora caso a estrutura se rompa. A empresa afirma ter começado, na última quinta-feira, a terraplenagem para a "construção da contenção em concreto". As obras estão sendo feitas a seis quilômetros da barragem, entre a estrutura e a cidade de Barão de Cocais.
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A barragem da Vale no município, chamada Superior Sul, teve declarado nível de segurança 3 em 22 de março, depois de auditores se negarem a emitir laudo de estabilidade para a estrutura. O status significa que a represa pode ruir a qualquer momento. Menos de dois meses depois, no último dia 13, a mineradora informou as autoridades que o talude da mina de Gongo Soco, que fica a 1,5 quilômetro da barragem, corre risco de sofrer deslizamento.
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Caso isso ocorra, existe a possibilidade de que a queda do material provoque abalo sísmico com intensidade suficiente para provocar o rompimento da estrutura.
"Além dessa estrutura que, após concluída, fará a retenção de grande parte do volume de rejeitos da barragem Sul Superior em caso de rompimento, a Vale está realizando intervenções de terraplenagem, contenções com telas metálicas e posicionamento de blocos de granito. Essa obra atuará como barreira física no sentido de reduzir a velocidade de avanço de uma possível mancha, contendo o espalhamento do material a uma área mais restrita", diz a empresa, em nota.
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O texto afirma ainda que "o objetivo é reduzir os possíveis impactos às pessoas e ao meio ambiente no cenário extremo de um rompimento da estrutura. Em função da intervenção, haverá um aumento na circulação de caminhões e equipamentos pela cidade com destino à mina de Gongo Soco, o que poderá causar eventuais transtornos ao trânsito".
A construção do muro foi admitida pela Defesa Civil de Minas Gerais durante reunião preparatória para o primeiro simulado de rompimento de barragem, ocorrido em Barão de Cocais em 25 de março. À época, porém, a empresa não confirmou que realizaria a obra. 
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Terrorismo psicológico
"O que vivemos é um terrorismo psicológico", afirma o padre José Antonio de Oliveira, do Santuário de São João Batista em Barão de Cocais. O religioso, de 67 anos, está há três anos na cidade e é o refúgio de moradores aflitos com a possibilidade de ruptura da barragem da Vale no município, a partir de hoje. Ao mesmo tempo, figura entre os prováveis desalojados pela lama, caso a represa se rompa. "A igreja, não, mas a casa paroquial está na área que pode ser atingida", conta.
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Entre o anúncio da ruptura iminente, em 22 de março, e a constatação de risco para o talude, em 13 de maio, transcorreram exatos 52 dias. "Os mais afetados são os idosos e as crianças", relata o padre José Antonio. "Um grupo grande de moradores já vive a experiência concreta de ficar sem casa. Deixaram tudo para trás: animais, sua história. Não é algo fácil."
O religioso diz ser grande o número de relatos de doenças relatadas pelos fiéis. "Atendo muita gente com depressão e com outras doenças que agora se agravaram." O clima na cidade, segundo o padre, é de insegurança e apreensão. "O simulado, o meio-fio pintado. Tudo isso é um terrorismo psicológico. Cria um ambiente pesado", diz.