Covid-19: vítimas de epidemias passadas, indígenas ficam sem rituais e sem renda

Povo Pankararu vive consequências da pandemia dentro do contexto urbano em periferia da capital paulista

Por iG

Tradicional ritual dos indígenas Pankararu não poderá ser realizado
Tradicional ritual dos indígenas Pankararu não poderá ser realizado -
Brasil - Respaldados pela decisão da Funai de suspender autorizações para entrada em terras indígenas por 30 dias, tribos de todo o Brasil se esforçam para manter o isolamento, apesar de muitas dificuldades, diante da missão de evitar a contaminação pela covid-19, doença causada novo coronavírus.

Enquanto isso, indígenas que moram em centros urbanos reúnem preocupações parecidas, mas dentro de um contexto diferente, como é o caso de cerca de 170 famílias do povo Pankararu que vivem no Real Parque, periferia de São Paulo.
Abril seria de muita alegria para o povoado, pois é neste mês que costuma ser realizado um tradicional encontro anual, com rituais, venda de artesanato e apresentações. A dor de abrir mão dessa conexão com a cultura ancestral é grande, mas a preocupação com a saúde falou mais alto.

Clarice Pankararu, presidente da Associação Indígena SOS Pankararu, conta que hesitou em aceitar o cancelamento do evento, que reuniria indígenas de toda a grande São Paulo e estava marcado para o dia 18 de abril. A desistência só veio depois de uma conversa com uma médica do posto de saúde local.

“Eu fico até emocionada porque é uma coisa que a gente já faz há anos, mas tem contato um com outro, então  não poderemos fazer. A gente recebe umas 300 pessoas nesse encontro, pankararu de todo lugar: Guarulhos, Campo Limpo, Zona Leste”, lamenta Clarice.

“Eu mesma fui a primeira a não querer desistir no início. Pensei ‘vamos esperar, ver se vai acalmar ou diminuir. Conforme foi aumentando, conversei com a doutora Viviane, que é da equipe daqui, e ela disse que era melhor mesmo a gente não fazer, para evitar aglomerações. Depois dessa conversa, entramos em um consenso, mas de coração partido, que não conseguiremos fazer”, completa.

Dez cestas básicas para 170 famílias

Além das restrições nas práticas culturais e espirituais, os indígenas compartilham dos mesmos problemas que o restante da população do Real Parque. Muitos não podem trabalhar em razão das medidas de isolamento e, por isso, há dificuldades em conseguir mantimentos.

Com limitações de recursos, a Pastoral Indigenista entregou, nesta semana, dez cestas básicas para a Associação Pankararu, e Clarice teve que escolher, entre 170 famílias, quais delas receberiam o apoio.

“Algumas pessoas viram quando Frei chegou, então foi rápido. Eu ia tentar ver quem tinha mais filhos; têm mães com quatro, cinco filhos. As pessoas viram chegar e eu não vou dizer não. As pessoas vêm atrás porque elas estão precisando, e realmente essa família estava precisando”, conta a líder indígena.

“Quando eu fui atrás da outra família, que tinha quatro filhos, ela já estava vindo e sabendo. A procura de cesta básica está sendo muito grande. Estou abrindo a Associação, quando chega alguma coisa, 7 horas da manhã, para não criar aquele movimento. Eu marco com as pessoas quando tem - agora mesmo não tem - e elas chegam, pegam o que tem e vão embora. Mesmo assim, chega gente de manhã, que está indo trabalhar, para saber”, completa.

Memória ancestral

A comunidade Pankararu começou a se firmar em São Paulo na década de 1940, quando índios engrossaram o fluxo de deslocamentos do Nordeste para o Sudeste, em busca de trabalho.

Muitos entre os quase 2 mil indígenas pankararu que vivem na grande São Paulo têm parentes em Pernambuco, local de origem da etnia. Clarice esteve lá em janeiro, na aldeia de Brejo dos Padres, perto de Petrolândia, quando um grupo de antropólogos espanhóis visitava o local.

O contato com os europeus causou preocupação quando a covid-19 começou a se intensificar no Brasil, tanto que hoje a aldeia está fechada.

O receio dos indígenas quanto à presença do homem branco em seu território é fundamentada pela memória coletiva dos povos, ainda mais quando o assunto é algum tipo de doença. O histórico dessa relação inclui populações afetadas, e por vezes dizimadas, por malária, tuberculose, gripe, hepatite, sarampo, entre outras doenças.

“A população indígena está apavorada. Está com medo porque eles têm memória das grandes epidemias que os atingiram em função do contato com a sociedade brasileira. Eles estão com medo, porque lembram de epidemias que mataram metade dos seus parentes”, explica Omar Ribeiro Thomas, professor do Departamento de Antropologia da Unicamp.

Clarice Pankaru lembra muito bem das histórias contadas pela avó, e não só daquelas sobre o passado. Hoje, ela vê a concretização de um futuro cantado pelas tradições em histórias que passam de geração em geração.

“Minha avó era uma pessoa muito religiosa, viajava para Juazeiro do Norte, aí ela sempre falava que iria chegar tanta doença do mundo que ninguém iria saber de onde iria vir. E que chegaria um tempo em que, em São Paulo, ninguém poderia entrar e ninguém poderia sair, que a cidade iria virar Brejo e Brejo iria virar São Paulo. Ela sempre falava isso, e dessas doenças. E contava que esses bichos voando no céu, que eram os aviões e helicópteros, nem eles iriam dar conta dessa situação”, lembra Clarice.

“A gente sempre lembra essa história que nossos mais velhos, nossos antepassados contavam para a gente. São coisas que hoje estão acontecendo. A gente não consegue viajar, por conta do coronavírus. Tem pessoas lá na aldeia que tinham que vir trabalhar, mas não conseguem vir, porque viajaram e não conseguem voltar, porque não tem ônibus, não tem avião, então a pessoa está lá. Então, a gente não sabe como vai ser”, conclui.

Com essa consciência, a preocupação com a saúde parte dos próprios indígenas, que estão se mobilizando desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia do novo coronavírus, no dia 11 de março.
Dois dias depois do anúncio, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), por exemplo, anunciou a suspensão da entrada de pessoas não indígenas em terras do Alto Rio Negro, região indígena mais povoada do Brasil, no noroeste do Amazonas.
Impacto econômico

De qualquer maneira, assim como no restante do país, as medidas de confinamento estão causando problemas econômicos graves entre os indígenas, que precisam de auxílio imediato, como aponta Ana Lúcia Pardo, professora integrante do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense.

“A aldeia Bracuí, de Angra dos Reis, por exemplo tem mais de 90 famílias. Temos indígenas em Maricá, Itaguaí, Campo Grande, Duque de Caxias. Temos indígenas na Aldeia Maracanã, no Amazonas, no Mato Grosso. Essas populações indígenas vivem da venda de artesanato, por exemplo. Como é que elas estão vendendo artesanato agora? Não tem como”, alerta Pardo.

No Real Parque, com cestas básicas insuficientes e pouco apoio do poder público, os pankararu estão pedindo doações, que podem ser combinadas por um número de telefone , ou por um site de “vaquinha virutal" .

“A gente é reconhecido pela Funai, no contexto urbano, porém a gente não tem suporte. Assim que eu enxergo, eles não tem o mesmo olhar que eles tem com povos que vivem na aldeia”, diz Clarice.

“Está difícil para a comunidade. Todo apoio que chega para a comunidade não é suficiente, sempre falta. Outro dia chegou uma senhora com uma pessoa acamada, não indígena, precisando de ajuda, e a gente não está dando conta nem de atender o nosso povo. Quem puder ajudar a gente, ajude, que seja com produto de limpeza, está difícil”, completa.

Até o momento, foram registrados seis casos de covid-19 entre indígenas, com duas mortes. Os números não são exatos, até porque não existe grande controle sobre isso; No dia 1º de abril, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) incluiu representantes de organizações indígenas na composição do Comitê de Crise sobre impactos da covid-19 no âmbito da saúde dos povos indígenas.

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