Presidente Jair Bolsonaro - EDU ANDRADE/Fatopress / ESTADÃO CONTEÚDO
Presidente Jair BolsonaroEDU ANDRADE/Fatopress / ESTADÃO CONTEÚDO
Por Luiz Franco
Rio - Uma mudança de governo nos Estados Unidos trará dificuldades para a política externa sob o comando de Jair Bolsonaro, avaliam especialistas. O presidente do Brasil firmou uma aliança ideológica muito consolidada com Donald Trump, chegando a expressar apoio à sua reeleição e a criticar diretamente o democrata Joe Biden em mais de uma ocasião nos últimos meses, e deverá sentir as consequências disso em um eventual governo liderado pelo democrata.
"O Brasil, sem Trump na Casa Branca, fica bastante isolado do ponto de vista diplomático e vai se ver obrigado a reorientar a sua política externa", afirma Carlos Gustavo Poggio, PHD em relações internacionais e professor na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). "Cabe lembrar que a relação do Brasil com Trump foi feita às custas de outras relações diplomáticas do país, como por exemplo com a Argentina e com alguns países europeus", explica.
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Ele acredita, contudo, que não deve haver uma mudança muito grande, do ponto de vista estrutural, na relação entre os dois países. "A relação comercial, por exemplo, deve permanecer a mesma".
Para André Martin, professor titular de Geopolítica da Universidade de São Paulo (USP), uma reorientação das relações diplomáticas brasileiras é improvável sob o governo Bolsonaro. "Se Bolsonaro buscar uma conciliação com o Biden, isso vai trair seu lado ideológico, que é a base de seu governo", diz.
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"Trump e Bolsonaro firmaram uma parceria que vai perdurar mesmo com uma derrota de Trump. São dois governos que surgem de uma profunda crise do capitalismo - e essa crise não se encerra com um governo Biden. Então a crise vai continuar, e a relação entre eles também", explica.
Segundo o professor, o ponto central do desgaste da relação do Brasil com os Estados Unidos sob Biden seria a Amazônia e a questão do meio-ambiente. "Até agora, todo o discurso converge para uma guerra pelo direito de destruir a Amazônia como medida de soberania nacional, versus um suposto governo mundial globalista que teria interesses em tomar a Amazônia para si. Será que eles conseguiriam manter esse mesmo discurso contra os EUA?", questiona.
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"Os democratas são mais comprometidos com o idealismo e com a ideia de que os EUA têm uma missão ideológica mundial. E isso, na verdade, torna a sua política externa até mais perigosa e intervencionista", pondera o professor.

Biden, contudo, precisaria administrar a oposição contra Bolsonaro - fundamental até mesmo para chancelar sua posição como líder mundial, segundo avalia Martin - com os interesses estruturais dos EUA no Brasil. "Por exemplo, na questão do 5G, o cenário seria muito parecido", explica. "Biden teria um problema, porque Trump deixou os EUA em uma posição de vantagem em uma série de acordos comerciais firmados com o Brasil, e que seria de seu interesse manter".
Os especialistas concordam, contudo, que a maior ruptura entre os dois governos aconteceria no campo ideológico. "Uma derrota do Trump significa uma mudança de ordem ideológica, ela altera o ambiente ideológico no qual o Brasil se insere. Uma derrota de Trump é um recado de que o modo de fazer política defendido por Trump - seu estilo - não está funcionando, e esse recado se estende para aqueles que o admiram, que o imitam", explica Poggio. 
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"Infelizmente, (com uma vitória de Biden) o Brasil vai passar a ser a cidadela do ultra-reacionarismo no mundo", diz Martin. "Com a derrota de Trump, transfere-se para cá a responsabilidade de derrotar em definitivo essa loucura", conclui o professor.