Elizabeth Teixeira completa 100 anos em 13 de fevereiro de 2025Reprodução / Memorial das Ligas Camponesas
O alcance internacional da obra, protagonizada por Fernanda Torres, é uma forma de favorecer as lutas por reconhecimento dos agrários prejudicados por militares, conforme militantes rurais, como é o caso das Ligas Camponesas. As batalhas do movimento, que tem Elizabeth como um dos seus maiores ícones, foram registradas no documentário "Cabra Marcado Para Morrer" (1984). Os dois filmes retratam como as mulheres lidaram com o luto, seguiram com suas reivindicações e marcaram a história do país.
Elizabeth nasceu em 13 de fevereiro de 1925 em Sapé, município localizado a cerca de 51 km de João Pessoa, capital da Paraíba. Em 1942, ela se casou com João Pedro Teixeira, líder do Movimento das Ligas Camponesas, grupo que tem o objetivo de combater repressões cometidas por latifundiários contra trabalhadores rurais. Ele foi assassinado por pistoleiros contratados por fazendeiros da região em abril de 1962. A mulher prometeu seguir o seu legado, mas após o golpe de 1964, ela precisou se manter na clandestinidade pela perseguição dos militares por quase 20 anos.
A neta Wyliana da Costa relata com orgulho que Elizabeth manteve o trabalho de base escondida das autoridades, mesmo com o luto da perda do marido e da separação forçada de familiares. "Elizabeth travou uma luta incansável pela reforma agrária, sempre sensível às causas mais urgentes do nosso povo. Ela é, para todos os familiares, uma verdadeira heroína. Com o golpe Militar em 1964, Elizabeth é forçada a partir para o exílio dentro de seu próprio país, passando 17 anos separada de seus filhos, estes que ficaram com sequelas profundas da 'orfandade' e do período de autoritarismo e repressão. Elizabeth viveu na cidade de São Rafael, Rio Grande do Norte, na clandestinidade, com o nome de Marta Maria da Costa. Neste período, ela alfabetizou crianças da região para a sua subsistência", diz.
Wyliana também reforça o legado de João nos ideais da sua avó, que quis dar continuidade ao legado do marido. "Elizabeth, ao ver seu marido morto, prometeu a ele que marcharia na luta dela. 'Eu marcharei na tua luta', dita pela própria Elizabeth ficará perpetuada para todos aqueles que almejam justiça social. porém, na clandestinidade, ela viveu no silêncio", explica.
A presidente do Memorial das Ligas e Lutas Camponesas, Alane Lima, conta sobre a forma como Elizabeth dedicou sua vida à alfabetização e a sua importância para a comunidade local. "Quando a Elizabeth fica exilada, ela permanece fazendo o trabalho de base que poucas pessoas conseguiram fazer. Mesmo tendo todo um contexto que a deveria fazer desistir, ela passa a exercer a função de educadora, porque ela acredita que a educação transforma as pessoas. Mesmo estando em uma condição extremamente complicada, complexa, por ter perdido o seu companheiro, ter feito o rompimento dela com mãe, pai, mas ter também a separação dos seus filhos."
A história de Elizabeth e do seu trabalho no movimento é evidenciada no longa "Cabra Marcado para Morrer", lançado em 1984 pelo cineasta Eduardo Coutinho (1933-2014). A produção começou ainda em 1962, quando o diretor e sua equipe percorriam o país junto à UNE Volante, uma caravana da União Nacional dos Estudantes. Ao chegarem em João Pessoa, descobriram sobre a morte de João Pedro e decidiram fazer um filme, que contaria com a participação de Elizabeth.
As gravações, no entanto, foram interrompidas após o golpe militar. Agentes do governo invadiram o Engenho Galileia, Pernambuco, local em que as filmagens eram realizadas. O trabalho só pôde ser retomado em 1984, em meio à reabertura promovida pelo governo do ex-presidente João Baptista Figueiredo (1918-1999). Neste ponto, Coutinho conseguiu encontrar Elizabeth, até então exilada, e outros camponeses da produção original e decidiu transformar o filme em um documentário.
"Na década de 1980, depois do lançamento do filme 'Cabra Marcado para Morrer', a Elizabeth retorna reafirmando essa necessidade de continuar e que toda criança, mulher, homem, todo ser do campo precisa e necessita de educação", pondera Alane, que exalta a importância do retorno da líder após o período de repressão para o movimento.
"Ela continuou fazendo isso, mesmo que no exílio, e quando volta, continua também, mas fazendo de outra forma. Ela passa, agora, a fazer formação com organizações, movimentos, federações, sindicatos, reafirmando a importância de continuar, mesmo tendo todo o cenário para desistir. Essa continuidade dela, mesmo no exílio e saindo do exílio, é muito simbólica para a gente, porque mesmo em meio às diversidades, ela permanece", conclui Alane.
'Ainda Estou Aqui'
As semelhanças entre "Cabra Marcado Para Morrer" e "Ainda Estou Aqui" podem ser observadas através da forma como Elizabeth Teixeira e Eunice Paiva seguiram com suas lutas, mesmo após o luto da perda do marido, segundo Alane Lima.
"Ter um filme como 'Ainda Estou Aqui' repercutindo a nível nacional e internacional, para a gente, é extremamente importante, para dizer que houve e ainda há violência. Se houve violação contra a família de um deputado, imagine contra as camponesas, que inclusive, até hoje são omitidas e a gente não consegue dar a devida repercussão, por exemplo, do caso de Elizabeth Teixeira, que foi marcada, de fato, pela violência pré, durante e pós a ditadura. A gente não consegue dar a devida visibilidade e que o estado peça desculpa, como um pedido mínimo de reparação para esta família e ao campesinato", ressalta.
"Acho que o nome do filme é muito chamativo. 'Ainda Estou Aqui' casa muito com 'eu continuo a luta' de Elizabeth Teixeira. Então, essa produção nos exige reafirmar essa continuidade, dizendo que nós estamos e resistimos."
Em 20 de janeiro de 1971, militares levaram o deputado federal Rubens Paiva de sua casa para prestar um depoimento e não retornou mais. Desde então, sua mulher, Eunice, se formou em direito e lutou na Justiça para descobrir o paradeiro do marido. A verdade só apareceu 25 anos depois, em 1996, quando o atestado de óbito dele foi emitido e sua morte, reconhecida oficialmente. O filme de Walter Salles retratou o drama da família.
Wyliana também considera as trajetórias das duas como relevantes para a cultura popular brasileira. "Elizabeth Teixeira e Eunice Paiva são mulheres que marcaram a história do nosso País. Elizabeth enfrentou a violência do latifúndio e a perda do seu companheiro João Pedro Teixeira, e Eunice Paiva teve seu marido, Rubens Paiva, morto pelo Regime militar. Ambas seguem inspirando gerações, sendo símbolo contra a ditadura militar no Brasil", fala.
Celebrações aos 100 anos
O Memorial das Ligas Camponesas prepara uma série de homenagens a Elizabeth Teixeira ao longo da semana em que ela completa 100 anos. No dia do seu aniversário, em 13 de fevereiro, um encontro de familiares e amigos foi organizado para celebrar o lançamento da exposição "Elizabeth Teixeira: 100 faces de uma mulher marcada para viver" e uma programação cultural na sede do movimento.
Já em 14 de fevereiro, será realizada a Marcha da Memória Camponesa, com saída da Capelinha João Pedro Teixeira até o Memorial, e apresentações culturais de resistência. Por fim, em 15 de fevereiro, acontecerá a Feira Cultural da Agricultura Familiar Camponesa, seguida de um ato político com autoridades e atividades culturais na Praça de Sapé.




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