Imunizante da PfizerArquivo / Agência O Dia
Onde foi publicado: X.
Conclusão do Comprova: Post viral utiliza imagens de uma criança que vive na Cidade do Cabo, na África do Sul, e perdeu os movimentos das pernas por causa de uma condição de saúde rara, a Mielite Flácida Aguda (AFM). O menino não é brasileiro e o diagnóstico não tem relação com a covid-19 ou vacinas. Por meio de busca reversa no Google, descobrimos que o post em português usa trechos de diferentes vídeos publicados originalmente em inglês nas redes sociais pela família do garoto sul-africano.
O menino nas imagens é Elijah Cottle, de 5 anos, que foi diagnosticado com AFM em 2022. A doença, que apresenta sintomas semelhantes à poliomielite, afeta o sistema nervoso e geralmente é causada por uma infecção viral. No Instagram e no TikTok, a família compartilha a trajetória do garoto e pede doações para que possam comprar um Trexo, exoesqueleto robótico que ajuda crianças com deficiência a andar.
No Brasil, fotos e vídeos de Elijah começaram a ser publicados em uma conta no Instagram. No perfil, alguém usava imagens da criança e dizia que ele se chamava Vitor e sofria de mielite transversa, uma inflamação na medula espinhal. A história contada aos seguidores era de que o menino havia ficado paralisado após receber uma dose vencida de vacina contra a covid-19. Os posts pediam doações via PIX. Após a repercussão do caso, o perfil foi configurado para funcionar como uma conta privada.
O vídeo alega ainda que o menino teria recebido a vacina da farmacêutica Astrazeneca em março de 2021. Porém, no Brasil, a imunização contra a covid-19 em crianças de 5 a 11 anos só teve início em 2022. Além disso, o imunizante da Astrazeneca não foi aplicado no público infantil. No país, a campanha de imunização para esse grupo utilizou a Pfizer pediátrica, que posteriormente, em 2024, passou a integrar o Calendário Nacional de Vacinação para crianças de 6 meses a menores de 5 anos.
O Comprova não conseguiu entrar em contato com o autor da postagem no X porque o perfil não aceita o envio de mensagens diretas.
Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.
Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até 11 de abril, o vídeo no X já tinha 433,6 mil visualizações.
Fontes que consultamos: Google, por meio do qual foi feita a busca reversa utilizando frames do vídeo, as redes sociais de Elijah Cottle, o perfil no Instagram que se passava pelo garoto, o site e a assessoria de comunicação do Ministério da Saúde, além de sites de jornais brasileiros.
Efeitos adversos são raros
Segundo a agência brasileira, o registro é dado quando evidências científicas mostram que os benefícios do medicamento superam os riscos potenciais. Esse é o caso da Astrazeneca e de outras vacinas, como aquela aplicada contra o papilomavírus humano (HPV), vírus causador do câncer de colo de útero.
Um dos efeitos adversos muito raros da Astrazeneca já registrados é a Síndrome de Trombose com Trombocitopenia (TTS). Em 2023, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que produz o imunizante no Brasil, esclareceu que eventos como a STT são extremamente raros e possivelmente associados a fatores pré-existentes em cada indivíduo. Um ano depois, em 2024, quando voltou a circular desinformação sobre o medicamento, o Ministério da Saúde reforçou que a vacina é segura.
Ministério da Saúde esclarece não haver associação causal
O governo federal ainda ressaltou que para que qualquer suspeita seja analisada com rigor, é fundamental que o caso seja formalmente notificado por um profissional de saúde. "Somente por meio da notificação e de uma investigação criteriosa é possível avaliar a situação com base em dados clínicos, exames complementares e contexto individual. Sem esses elementos, não é possível tirar conclusões seguras", afirmou o Ministério da Saúde.
Vídeo usa matéria de 2021
O governo federal ainda explicou que de acordo com o Plano de Operacionalização da pasta, os estados e municípios que eventualmente tenham aplicado vacinas vencidas devem fazer a busca ativa e monitorar os casos, inclusive a possibilidade de eventos adversos. Além disso, os casos de pessoas que tenham sido vacinadas com data de validade fora do prazo devem ser notificados como um erro de imunização no e-SUS Notifica.
Depois da reportagem da Folha de São Paulo, prefeituras negaram a aplicação de vacinas vencidas e disseram haver erro de registro no sistema do governo federal.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Outras checagens sobre o tema: O Comprova já mostrou que a desinformação sobre vacinas compromete a confiança pública nos imunizantes, que estudos mostram os benefícios da vacinação infantil contra a covid-19 e ainda desmentiu um post que contesta a segurança dos imunizantes contra o coronavírus. Além disso, o Estadão Verifica também já provou que o vídeo em questão é falso.
Notas da comunidade: Até a publicação deste texto, o post no X não apresentava notas da comunidade.
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