O padre Reginaldo Manzotti fala sobre a Páscoa. Ele está lançando um livroFelipe Gusso / Divulgação

Considerada uma das festas mais importantes para o catolicismo, a Páscoa representa a ressurreição de Jesus Cristo, o filho de Deus. Outras religiões como os evangélicos e de matrizes africanas também comemoram a data, que acontece anualmente no primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorre no início da primavera (no Hemisfério Norte) e do outono (no Hemisfério Sul). O jornal O DIA entrevistou o padre Reginaldo Manzotti, o bispo Abner Ferreira, colunista de O DIA, o pastor Artur Costa, o babalorixá Anderson de Barú, além de Katja Bastos, sacerdotisa da Encantaria Cigana do Povo do Oriente, Yalorixá de Amanjá e presidente nacional do Conselho Interreligioso da Ordem dos Capelães do Brasil. Veja a opinião deles sobre a data tão importante.
O DIA: Como o senhor e a senhora veem a Páscoa no sentido do renascimento?
Padre Reginaldo Manzotti: A Páscoa é muito mais do que uma data no calendário litúrgico, é o coração da nossa fé cristã. Quando falamos de renascimento, falamos da vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas. Cristo, ao ressuscitar, nos deu a possibilidade de também ressuscitarmos com Ele. Cada Páscoa é um chamado amoroso de Deus para deixarmos para trás aquilo que nos prende: mágoas, pecados, desânimos, vício; e nos abrirmos para a graça de um novo começo. Como diz São Paulo em 2 Coríntios 5,17: "Se alguém está em Cristo, é nova criatura. As coisas antigas já passaram; eis que tudo se fez novo".
Viver a Páscoa é permitir que o Cristo ressuscitado nos renove por dentro. É acreditar que, mesmo quando tudo parece sem vida, Deus pode fazer florescer algo novo. Então, a Páscoa é um convite: renasça com Cristo! Recomece com fé, com esperança e com amor.
Bispo Abner Ferreira: Vejo a Páscoa como um dos convites mais importantes e profundos ao renascimento que a vida nos oferece. Ela não é apenas a lembrança de um evento histórico, mas um convite a uma verdadeira transformação pessoal. É quando o céu sussurra à alma: "Você pode começar de novo". A cruz, tão dura e crua, é também o palco do maior recomeço da humanidade. Renascer, então, é mais do que mudar de rota, é permitir que a esperança vença o medo, que a luz vença a escuridão, que a fé vença o desânimo. É como se a Páscoa dissesse: "Levante-se, sacuda a poeira da alma, e caminhe, porque Aquele que venceu a morte, Jesus Cristo, caminha com você".
Pastor Artur Costa: A Páscoa é, por excelência, a celebração do renascimento espiritual. Ela nos relembra que a morte de Jesus na cruz não foi o fim, mas o início de um novo tempo — um tempo em que a graça superou a culpa, o amor venceu o ódio e a vida triunfou sobre a morte. O túmulo vazio nos convida a renascer por dentro: abandonar o que é velho em nós — mágoas, vícios, ressentimentos — e abraçar uma vida com propósito, fé e renovação. Assim como a natureza floresce na primavera, o espírito humano encontra na Páscoa a chance de florescer novamente.
Babalorixá Anderson de Barú: Na verdade, o renascimento é a transformação do mundo em vários aspectos. Então, assim, acredito que dentro do catolicismo, ou dentro da igreja católica, a ressurreição de Cristo é a ascensão, é a transformação e transmutação desse processo, onde hoje é transformado em matéria viva e onde as pessoas, cada dia, se transformam mais, no intuito de evoluir, de melhorar. Então, acredito que esse é o significado que é a ressurreição de Cristo, de transformação, mesmo através de sofrimento, ele conseguiu transformar isso em amor, e é o que os seres humanos deveriam fazer.
Sacerdotisa Katja Bastos: Na realidade, é uma oportunidade de cada um se fazer melhor. Quer dizer, você tenta fazer um levantamento de o que você fez, o que você tem feito, o que você representa, o que você significa no mundo. E a oportunidade de Páscoa, de um renascimento, de você se reescrever. Então, eu acho ótima a oportunidade, porque faz cada um perceber que pode melhorar e que pode continuar evoluindo. Então, renascer, mas sempre melhor.
O DIA: Qual a diferença entre ressurreição e renascimento?
Padre Reginaldo Manzotti : Essa é uma pergunta muito importante e que nos ajuda a aprofundar o sentido da nossa fé. A ressurreição é um ato divino. É o que aconteceu com Jesus: Ele morreu e, ao terceiro dia, ressuscitou. Não voltou à vida como antes, mas com um corpo glorioso, vencendo de uma vez por todas a morte. É algo que só Deus pode realizar. E nós, cristãos, cremos que também ressuscitaremos um dia, no final dos tempos, para a vida eterna. Já o renascimento é um processo espiritual e interior. É quando permitimos que Deus transforme o nosso coração. É deixar morrer dentro de nós aquilo que nos afasta de Deus para que uma nova vida, cheia do Espírito Santo, floresça. Podemos dizer que o renascimento é uma antecipação da ressurreição, é viver, desde agora, como quem já foi tocado pela vida nova que Cristo nos oferece. Então, enquanto a ressurreição é dom de Deus para a eternidade, o renascimento é escolha nossa, diária, de viver segundo o amor de Deus.
O DIA: O senhor diria que se trata de umas das datas mais importantes da comunidade católica?
Padre Reginaldo Manzotti: Com toda certeza. A Páscoa é a data mais importante para nós católicos, o centro da nossa fé. Como diz São Paulo em 1 Coríntios 15,14: 'Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e é vã também a nossa fé.' Ou seja, tudo o que somos e cremos está fundamentado na Ressurreição de Jesus. É na Páscoa que celebramos a vitória do amor de Deus sobre o pecado e a morte. Não é apenas uma recordação histórica, é um mistério que se renova a cada ano, a cada Missa, a cada coração que se abre para a graça. Por isso, mais do que ovos de chocolate ou tradições externas, a Páscoa é um chamado profundo à conversão, ao perdão, à reconciliação com Deus e com os irmãos. É o tempo de proclamar com alegria: Cristo ressuscitou! Verdadeiramente ressuscitou! E essa certeza é o que sustenta a nossa caminhada, mesmo diante das cruzes da vida.
O DIA: Estamos vivendo tempos de muita violência, intolerância religiosa e até desamor. Será que com a oração, que é mais acentuada nessas datas, a situação pode ser revertida?
Padre Reginaldo Manzotti: Sabemos que vivemos tempos difíceis e a oração tem poder de transformar realidades. Ela é a ponte que nos liga ao Céu e também ao nosso próximo. Neste tempo sagrado da Páscoa, em que o Cristo vence a morte e nos convida a renascer com Ele, somos chamados a ser agentes de paz, começando pelo nosso interior, pela nossa casa, pela nossa comunidade. E eu não poderia deixar de lembrar daquela que esteve firme aos pés da cruz e que continua a interceder por nós: Maria, nossa Mãe. Foi movido por essa certeza que escrevi meu novo livro, 'Maria, Mais Forte que o Mal' (Editora Petra). Nele, eu compartilho como a presença de Maria, com sua força e ternura, nos ajuda a vencer as batalhas espirituais e emocionais do nosso dia a dia. Se o mundo está carente de amor, nós somos chamados a amar. Se há escuridão, sejamos luz. Que esta Páscoa seja tempo de renascimento, de reconciliação e de oração verdadeira. E que Maria, a mulher forte, aquela que esmagou a cabeça da serpente, caminhe conosco, protegendo nossas famílias e conduzindo-nos ao coração de Jesus.
O DIA: O senhor e a senhora acreditam que a Páscoa tenha o "poder" de unir as famílias?
Padre Reginaldo Manzotti: Claro! A Páscoa tem esse poder, pois é tempo de reconciliação, de perdão e de amor e são justamente esses valores que sustentam a família. A Páscoa é mais do que uma celebração: é um reencontro com a vida nova em Cristo. E quando deixamos essa vida nova entrar no nosso lar, algo muda. Corações endurecidos amolecem, feridas começam a cicatrizar e o diálogo volta a acontecer. Jesus, ao vencer a morte, nos mostrou que o amor é mais forte do que qualquer divisão. Então sim, a Páscoa pode e deve ser um tempo de reaproximação. Eu costumo dizer que se Cristo venceu a morte, Ele também pode vencer qualquer distância ou mágoa dentro de uma casa. Basta abrirmos espaço para Ele. Por isso, que nesta Páscoa, as famílias se reúnam não só à mesa, mas também em oração. Que Cristo ressuscitado seja o centro do lar. Aí sim, haverá união verdadeira.
Bispo Abner Ferreira: Na verdade, não são os eventos, festas ou feriados que devem unir as famílias. Há muitas famílias que se mostram unidas apenas no retrato, no almoço ou em uma fotografia. E por mais impossível que seja pensar nisso em tempos de likes e curtidas, o mundo está caminhando para valorizar mais as coisas passageiras e efêmeras do que as eternas e importantes. Mas o que realmente sustenta e mantém a união é aquilo que descende da Páscoa: Jesus e o seu amor sacrificial, quando desperta nos corações. É impossível olhar para a cruz e para o túmulo vazio e não ser confrontado com a necessidade de restaurar o que foi quebrado, de se aproximar de quem se distanciou, de perdoar quem falhou conosco. Cristo morreu por todos nós, mesmo quando não merecíamos. E isso se torna um profundo convite para pensarmos: quem somos? O que nos tornamos? O que estamos dispostos a deixar para trás para que o amor de Deus nos reconstrua? Por isso, é necessário conversar, refletir, voltar atrás, abrir mão. A verdadeira celebração da vida acontece quando escolhemos vivê-la com verdade. Porque onde a vida de Cristo é celebrada de fato, há espaço para a cura, para o recomeço e para a paz.
Pastor Artur Costa: Sim, acredito profundamente. A Páscoa carrega um poder simbólico e afetivo que toca o coração das pessoas. É um momento em que se fala de perdão, de amor sacrificial e de recomeços — valores que toda família precisa. Muitas vezes, a mesa da Páscoa é mais do que uma refeição: é o reencontro de pessoas que estavam afastadas, é o abraço depois de um longo silêncio, é a oração que cura feridas antigas. Quando Cristo é o centro da celebração, Ele também se torna o elo que fortalece os laços familiares.
Babalorixá Anderson de Barú: Acredito que sim. No nosso primeiro diálogo à frente, eu falo sobre isso, sobre a transmutação que acontece com Jesus, que foi um grande mestre, acredito eu, pelo seu poder e sabedoria de lidar com a diversidade da vida. Ele lidava com todo tipo de gente e nem assim ele discriminava, ele tentava fazer da melhor forma possível para que essas pessoas se conscientizassem que todos nós temos defeitos e qualidades e devemos respeitar isso. Então, acredito que, sim, a Páscoa ela relembra isso; o grande problema é que o ser humano se esqueceu disso .
 Sacedortisa Katja Bastos: Olha, eu não digo que seja um poder da Páscoa, mas toda oportunidade que você tem de se sentar numa mesa com seus filhos, com seus netos, com a sua linhagem, e comer junto, e rir, e brincar. Eu acho que é uma magia. Então, eu acho que não é só a Páscoa. Se a gente mantivesse o hábito da família se reunir pelo menos uma vez por dia para fazer uma refeição em comum, que seja um pão com manteiga, não é pelo luxo, é pela simbologia. Eu acho que isso é que agrega.
Símbolo do recomeço
O DIA: Como pastor, o que o senhor diria para os fiéis em relação a essa data?
Bispo Abner Ferreira: A Páscoa é o símbolo do recomeço. É o tempo de lembrar que Jesus venceu a morte para nos dar vida nova. Se você está cansado, ferido ou sem forças, saiba: há poder na ressurreição. A pedra foi removida, o túmulo está vazio e Deus ainda escreve novos começos. Renasça para a fé, para a paz e para a esperança. Não carregue o peso do passado, viva o novo que Deus preparou para você.
Pastor Artur Costa: Aos meus irmãos e irmãs na fé, diria que a Páscoa é mais do que uma data no calendário — é uma convocação divina. É como se Deus nos chamasse a lembrar que o sofrimento tem sentido quando há esperança na ressurreição. A cruz nos mostra até onde o amor de Deus foi por nós; a ressurreição nos mostra até onde Ele pode nos levar. Por isso, a Páscoa é um convite à confiança: ainda que tudo pareça perdido, Deus continua escrevendo nossa história com mãos de redenção.
O DIA: Qual a diferença da 'comemoração' dos crentes para a dos católicos?
Bispo Abner Ferreira: O que precisa ser levado em consideração, e também o que nos permite esquecer as diferenças, é que ambos reconhecem que Jesus Cristo morreu e, ao terceiro dia, ressuscitou.E que Ele reina sobre todos, e pode habitar em cada coração que Nele crê. A maneira e a forma como ambos lembram e festejam liturgicamente são peculiares de suas tradições, mas a essência jamais pode ser mudada: Jesus Cristo é o centro de tudo e de todos. Mais do que as nuances de como nós tratamos, o que é essencial é reconhecermos que Jesus Cristo morreu, mas ao terceiro dia ressuscitou. E que Jesus Cristo não pertence aos católicos, e também não pertence aos evangélicos. Jesus Cristo é acessível a todos que Nele creem.
Pastor Artur Costa: Católicos e evangélicos compartilham o essencial: ambos creem na morte e ressurreição de Jesus como centro da fé cristã. A principal diferença está na ênfase litúrgica. Os católicos vivem intensamente a Semana Santa, com rituais que dramatizam a paixão de Cristo — como a Via Sacra, o Lava-pés e a Vigília Pascal. Já os evangélicos tendem a priorizar a celebração da vitória da cruz no domingo de Páscoa, com cultos festivos e mensagens de esperança. Embora os caminhos sejam diferentes, o destino é o mesmo: adorar o Cristo vivo.
Diversidade respeitada
O DIA: Qual a diferença da comemoração dos crentes para a dos católicos e para quem é adepto da religião de matriz africana?
Babalorixá  Anderson de Barú: Acredito que Deus é o único, independentemente do segmento religioso que se tem. E isso cabe o respeito de cada um religioso dentro do seu contexto. Eu acho que para mim Deus é único. Se Ele é Alá, se Ele é o Batalá, se Ele é Olorum, ou se é Deus propriamente dito, ou é o arquiteto do universo, não vai ter nenhuma mudança; Eu acho que o respeito é mútuo e existe um único ser criador de todas as coisas
Sacerdotisa Katja Bastos: Como eu trabalho com diálogo interreligioso, além da Umbanda, além do Candomblé, eu acho que Deus é um só, é o grande arquiteto do universo, é a força primeva, que pode ser homem, pode ser mulher, o Deus ou a Deusa, enfim, ser o Deus interior. E eu acho um pouco perigoso você considerar que o Jesus, de uma determinada tradição, diferente do Jesus de outra determinada tradição. Eu vejo como a luz maior. Então, eu acho perigoso esse sectarismo, porque isso instiga a discriminação.
O DIA: Como integrante das religiões de matriz africana, o que você diria em relação a essa data?
Babalorixá Anderson de Barú: Dentro do candomblé, a liturgia relacionada à Páscoa não existe, mas a gente tem os nossos dogmas, a gente tem os nossos cultos que são relacionados a um orixá que para nós é ele muito importante Ele representa o branco, o fufum, o ar que a gente respira e a cria do mundo. Então, assim, a liturgia em si não existe a Páscoa. Mas acredito que todo o povo de Candomblé tem um pouquinho da Páscoa dentro dele. Que é essa união, que é confraternizar, que é estar com a família nesse domingo. Mas propriamente dito, cultuar a Páscoa não é uma coisa de cultura de matrizes africanas.
Sacerdotisa Katja Bastos: Bom, na linha de matriz africana, a gente tem, vamos dizer, um outro olhar. Mas nós consideramos, por exemplo, quaresma uma época pesada, porque é uma época que a gente considera que as pessoas que trabalham com negatividades, com coisas que não são tão positivas ficam mais acirradas nesse período. Então nós procuramos fazer defesas e proteção. Quando acaba a quaresma para nós é uma festa, é uma oportunidade de ter sobrevivido e ter superado os problemas.
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