Área da floresta amazônica desmatada por incêndios florestais ilegais AFP

A Comissão Europeia publicou nesta quinta-feira, 22, a primeira lista de classificação de risco dos países para o desmatamento. O Brasil ficou classificado em risco padrão, junto com nações como Indonésia, Malásia, México e Argentina, entre outras. Em risco considerado alto ficaram quatro países: Rússia, Coreia do Norte, Belarus e Mianmar.
Em nota, a comissão destacou que a lista "é um marco importante antes da entrada em vigor da legislação em 30 de dezembro de 2025 para grandes empresas e 30 de junho de 2026 para micro e pequenas empresas".

O levantamento levou em conta sete commodities incluídas no Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR, na sigla em inglês), entre elas gado, cacau, café, dendê (óleo de palma), borracha, soja e madeira.
"Essas commodities foram selecionadas com base em uma avaliação de efeito detalhado que as identificou como os principais impulsionadores do desmatamento devido à expansão agrícola", disse em comunicado.

De acordo com o documento, a classificação define o grau de verificações de conformidade que as autoridades dos Estados-Membros devem prever para cada país, sendo 1% para risco baixo, 3% para padrão e 9% para alto. Com isso, a obtenção de produtos de países de baixo risco implica obrigações simplificadas, sem a necessidade de avaliar e mitigar riscos.
Já países identificados como de alto risco estão sujeitos a sanções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) ou do Conselho da UE sobre importações ou exportações de commodities e produtos relevantes, segundo a Comissão.
Destrução de florestas tropicais
A destruição das florestas tropicais virgens no mundo atingiu um recorde em 2024 na comparação com os últimos 20 anos, com uma deterioração particularmente grave no Brasil e na Bolívia, onde se concentram dois terços da área perdida, informa um estudo divulgado nesta quarta-feira (21).

O relatório publicado pelo 'Global Forest Watch' em parceria com a Universidade de Maryland atribui o retrocesso em grande medida aos incêndios, cada vez mais intensos e violentos devido às mudanças climáticas.

O planeta registrou no ano passado a perda de 67 mil quilômetros quadrados de florestas tropicais primárias, o equivalente a quase toda a superfície do Panamá, segundo os autores do estudo.

O número, que representa um aumento de 80% na comparação com 2023, equivale à "perda de 18 campos de futebol por minuto", disse Elizabeth Goldman, pesquisadora do Global Forest Watch.

No Brasil, as perdas foram de 2,8 milhões de hectares (28 mil quilômetros quadrados) e na Bolívia de 1,5 milhão de hectares (15 mil quilômetros quadrados).

"Este nível de destruição florestal não tem precedentes em mais de 20 anos de registros", afirmou Goldman. "É um alerta vermelho a nível mundial", acrescentou.

Os incêndios são responsáveis por quase metade da destruição, o que significa que, pela primeira vez, o fogo supera a agricultura como causa da perda de florestas.

Estes ecossistemas abrigam as maiores concentrações de biodiversidade e são os ambientes mais ameaçados do planeta. Seu papel é fundamental para absorver CO2, o principal responsável pelo aumento das temperaturas.

A destruição acumulada em 2024 representou o equivalente a 3,1 bilhões de toneladas de CO2 emitidas na atmosfera, um pouco mais do que o total das emissões vinculadas à energia na Índia.

Retrocesso no Brasil
Os incêndios foram favorecidos por "condições extremas" que os tornaram "mais intensos e difíceis de controlar", afirmam os autores da pesquisa.

Sob os efeitos das mudanças climáticas, provocadas pela combustão em larga escala de energias fósseis, e do fenômeno meteorológico 'El Niño', 2024 foi o ano mais quente já registrado no planeta.

O fogo pode ter uma origem natural, mas a maioria dos incidentes foi provocada pelo homem para limpar faixas de terra.

O desmatamento provocado para dar espaço à agricultura, historicamente a principal causa da destruição, aparece em segundo lugar, mas ainda é um fator importante.

No Brasil, dois terços dos 2,8 milhões de hectares destruídos foram perdidos por incêndios que, muitas vezes, tinham como objetivo preparar os terrenos para plantar soja ou para a pecuária.

Em 2023, o Brasil registrou progressos significativos na redução da perda de sua floresta, durante o primeiro ano do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Mas o avanço é ameaçado pela expansão da agricultura", declarou Sarah Carter, pesquisadora do World Resources Institute (WRI), com sede em Washington.

A Amazônia brasileira foi a mais afetada, com o maior nível de destruição desde 2016.

Os dados contrastam com a medição feita pela rede de monitoramento brasileira MapBiomas, que na semana passada registrou uma queda acentuada do desmatamento em 2024.

A proteção das florestas é um tema central na agenda da COP30 da ONU, que o Brasil receberá em novembro na cidade de Belém.

Novas ameaças
Depois do Brasil, a Bolívia é o segundo país com maior superfície de florestas tropicais destruídas em 2024, o triplo do registrado no ano anterior.

Também neste caso, o retrocesso é explicado por grandes incêndios frequentemente provocados para destinar a terra a explorações agrícolas industriais, segundo o relatório.

Em outras regiões do planeta, a evolução é desigual: avanços em países como Indonésia ou Malásia, mas retrocesso significativo no Congo ou na República Democrática do Congo.

Historicamente, a pressão sobre estes ecossistemas responde à exploração de quatro produtos, chamados de "big four": óleo de palma, soja, carne bovina e madeira.

A evolução favorável em algumas indústrias, como a do óleo de palma, coincide com a emergência de novos desafios, como os abacates no México ou o café e o cacau.

As causas do desmatamento não serão necessariamente "sempre as mesmas", apontou Rod Taylor, diretor do programa de florestas do WRI.

"Atualmente, assistimos a um novo fenômeno vinculado à indústria da mineração e aos metais críticos", advertiu, ao pedir uma estratégia global para enfrentar o problema.