São Paulo recebeu, nesta semana, a Wine Trade Fair SP e a Cachaça Trade Fair, feiras de negócios nos segmentos do vinho e da cachaça artesanal. Entre terça-feira (20) e quinta (22), mais de 6 mil profissionais — como produtores, importadores, exportadores, distribuidores, fabricantes de maquinário e fornecedores de insumos e embalagens — estiveram no complexo Expo Center Norte para conhecer, avaliar, negociar e degustar mais de 300 marcas de bebidas.
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Considerado um dos principais eventos do segmento na América Latina, o encontro tem o objetivo de gerar negócios significativos, diante do crescimento do setor de vinhos e destilados no país recentemente. Este ano, ele chegou à 9ª edição com um aumento de 25% no número de expositores e área de stands em relação a 2024. Em busca de boas oportunidades de mercado, compareceram representantes de empresas da Argentina, Chile, Itália, Portugal, Austrália e Georgia, além de rótulos nacionais de diversos estados. Por exemplo, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Minas Gerais, que, aliás, debutou na feira.
Expectativa de recorde
O investimento na estreia se refletiu em um vistoso estande, logo na entrada do pavilhão, onde visitantes puderam conhecer mais da produção mineira a partir de 11 vinícolas e seis cachaçarias artesanais. Houve ainda degustações, dicas de harmonização e uma imersão pelas rotas do enoturismo local e pelos 130 anos da vitivinicultura (prática do cultivo de videiras e da produção de vinhos e demais derivados da uva) do estado.
De acordo com a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG) e da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), o momento exitoso da produção mineira de vinhos resultou no aumento de 52,9% de área cultivada com uvas entre 2013 e 2022. Já para este ano, a meta é bater um recorde: produzir de 4 e 5 milhões de litros de vinhos finos, espumantes e de mesa.
"Se confirmada, será a maior produção da história de Minas, consolidando o estado como um dos principais polos emergentes da vitivinicultura nacional. Em 2020, o volume produzido girava em torno de 1 milhão de litros. Ou seja, em apenas cinco anos, a produção pode quintuplicar, o que demonstra a força desse movimento", comenta o secretário de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Leônidas Oliveira.
Sobre tal crescimento, ele lista alguns porquês: "Adotamos a colheita de inverno, conhecida como dupla poda, uma técnica que permite a produção de uvas com alta concentração de açúcar, acidez equilibrada e sanidade perfeita; investimentos em tecnologia, capacitação e enoturismo; valorizamos territórios do vinho mineiro, como a Serra da Mantiqueira e o Campo das Vertentes; e, sobretudo, o trabalho visionário dos produtores, que aliam tradição agrícola à inovação enológica".
Rio bom comprador
Ainda segundo a Secult-MG, boa parte dessa produção vai para o Rio de Janeiro. Em um recorte mineiro, o público fluminense aparece, no ranking de vendas interestaduais, como o segundo que mais adquire vinho, atrás apenas de São Paulo. Esta informação pode ser uma surpresa para muitos, devido ao clima quente com temperaturas elevadas na maior parte do ano.
Somente em 2024, o Rio comprou das vinícolas mineiras aproximadamente 800 mil garrafas, o que corresponde a cerca de 600 mil litros.
Dentre os principais destinos fluminenses dos vinhos mineiros, estão Paraty, na Costa Verde; Búzios, na Região dos Lagos; e Petrópolis, na Região Serrana: "A proximidade territorial e histórica entre os dois estados, unindo-os pela antiga Estrada Real, estabelece um fluxo cultural e comercial tradicional, que há séculos movimenta produtos, saberes e sabores. Os vinhos mineiros, nesse sentido, apenas retomam um caminho já traçado por queijos, doces, café e tantas outras expressões da nossa mineiridade", observa o secretário.
Atenção aos detalhes
Boa parte dos que buscam os requintados vinhos mineiros, presume-se, são grandes amantes da bebida, com paladar apurado e disposição financeira para gastar. Mas há opções também para os leigos, que, inclusive, devem se atentar aos detalhes para uma compra mais assertiva.
Como o vinho seco pode assustar quem está começando a apreciar a bebida ou prefere algo mais suave, Belisa Costa, sommelier e diretora de eventos da Associação de Produtores de Uva e Vinho de Minas Gerais (UVA), recomenda: "Eu começaria com um suave, embora hoje a gente já tenha secos feitos com uva de mesa, que não ficam tão ardentes quanto os tradicionais. Ou um rosé ou um branco bem geladinho”.
A sommelier Belisa Costa produz vinhos na Fazenda Serra que Chora, em Itanhandu (MG)Luiz Maurício Monteiro/Agência O Dia
Gerente comercial da vinícola Casa Geraldo, fundada em Andradas (MG) em 1969, Fábio Fábio Silva vai na mesma linha: "Vinhos de entrada, um branco, um rosé, um meio seco, talvez. Ou de mesa, que agrada a 80% dos brasileiros".
Já para aqueles que desejam se aventurar ou se aprofundar no universo dos vinhos, mas temem o quanto essa jornada pode doer nas economias, Fábio destaca que a bebida não é só para todos os gostos, como para todos os bolsos. "O pessoal diz que tomador de vinho toma vinho seco. Não é assim. A verdade é que conforme a gente vai aprimorando o paladar, a tendência é preferir os mais secos. Mas a pessoa que toma vinho suave, está tudo certo. Nossos vinhos começam com R$ 20 e vão até R$ 1,5 mil. Temos para todos os públicos", pontua.
Calor não é problema
Histórica e culturalmente, o carioca tende a preferir cerveja a vinho, muito por causa do calor característico da cidade. Mas especialistas garantem que o líquido que vem das uvas também cai bem em meio a temperaturas elevadas.
"A expressão 'vinho na temperatura ambiente' veio da Europa. No Rio, com 30° C, 40° C ou mais, se recomenda resfriar o vinho antes de tomá-lo. O ideal para um seco é de 16° a 20°. Isso seria colocar a garrafa uns 20 minutos antes na última prateleira da geladeira", orienta Fábio, que representou a Casa Geraldo na entrega de três medalhas de ouro e uma de prata pelo concurso anual Avaliação Nacional de Vinhos Brasileiros, da Associação Brasileira de Enologia.
Fábio Silva, gerente comercial da vinícola Casa GeraldoLuiz Maurício Monteiro/Agência O Dia
Já Belisa Costa - que também produz a bebida na Fazenda Serra que Chora, pousada e restaurante em Itanhandu (MG), na Serra da Mantiqueira - vai além ao afirmar que vinho pode ser consumido em quaisquer temperatura e lugar. "Um vinho branco, você também pode levar para a praia, piscina. Essa história de que vinho é bom só no frio é pura lenda. Você consegue beber vinho o ano todo. Basta deixar na temperatura ideal, levar um gelinho, que casa super bem", explica.
Harmonização carioca
Então se o vinho combina com calor e praia, seria demais pensar em aliar uma boa taça da bebida a iguarias usuais dos fins de semana de qualquer carioca, como churrasco e feijoada? Fábio Silva responde: "Feijoada combina muito bem com um espumante, que faz uma harmonização com contraste e acidez. Temos também o vinho syrah, um tinto seco que vai bem com feijoada também. Mas para um carioca tomador de cerveja, eu recomendaria um espumante, um prosecco".
Belisa complementa: "Tintos casam bem com carne de porco, feijoada. E com a carne de boi, no churrasquinho, inclusive se estiver um pouco mal passada".
Cachaça refresca?
Se o vinho pode ser uma alternativa à cerveja mesmo no calor, a cachaça artesanal também. Embora a quentura interna após a ingestão esteja na memória de muitos que já a experimentaram, o mixologista mineiro Léo Gomes assegura que termômetros acima dos 30º C não devem ser um impeditivo para o consumo.
E a estratégia para que a cachaça também seja refrescante parece relativamente simples, mas que muita gente não faz: "É pegar e pôr no freezer. Como ela tem um volume alcoólico muito alto, não vai congelar. Vai ficar como um licor, mais densa, e você vai sentir menos a percepção alcoólica na boca, devido à temperatura baixa", ensina Léo, citando a plataforma digital Pinga & Prosa, da qual é fundador: "Voltada para a valorização dos produtos mineiros, com foco na cachaça".
O mixologista mineiro Léo Gomes, profissional há quase uma décadaLuiz Maurício Monteiro/Agência O Dia
Ainda sobre o potencial refrescante da cachaça, Léo faz outra recomendação, esta sobre uma paixão do carioca: "Na caipirinha, o segredo é colocar sempre muito gelo no copo. Porque o gelo vai manter a temperatura do coquetel baixa por mais tempo. Vai ficar gostoso e geladinho até o fim".
Com quase 10 anos de experiência profissional com a cachaça e drinks derivados, o mixologista encerra com uma sugestão: "Pode colocar chá mate, limão e cachaça. Fica surreal de bom. E não precisa de açúcar, porque aqueles mates de mercado, na garrafa, já vêm adocicado. E se você for preparar, coloca o açúcar no mate. São 100 ml de mate, 30 ml de suco de limão e 50 ml de cachaça. Simples assim".
Caldo de cana, cachaça e limão
E já que o assunto é beber cachaça no calor, um produto apresentado no estande de Minas Gerais no Expo Center Norte é uma espécie de "caipirinha enlatada". O fato de vir gaseificada dentro de uma lata, entretanto, não é a única originalidade da bebida, que leva, somado aos já tradicionais cachaça e limão, um terceiro ingrediente: caldo de cana. Daí, o nome: Xá de Cana.
Sthella Lima, de Belo Horizonte, idealizadora da Xá de CanaLuiz Maurício Monteiro/Agência O Dia
Idealizadora do produto, Sthella Lima, de Belo Horizonte, tem ciência de que a Xá de Cana tem potencial para agradar aos cariocas, pela praticidade de vir em uma lata, o que facilita o transporte para uma praia, por exemplo; e pela recomendação de que seja consumida o mais gelada possível.
Por isso mesmo, ela já prevê a venda para cariocas: "A gente está entrando em São Paulo e avaliando chegar ao Rio. Acho que ainda neste ano, no segundo semestre".
Para Sthella — que estima comercializar para o carioca a R$ 9,99 por lata —, o diferencial cativante da bebida pode ser o caldo de cana, já muito popular entre o público do Rio, em feiras livres, pastelarias e afins. "Carioca gosta muito de caldo de cana. Por isso, a gente acha que tem uma probabilidade maior de o pessoal gostar. Já fizemos uma degustação no Rio, e gostaram muito", lembra a empresária, com mais um exemplo de que o paladar é uma ponte entre Rio e Minas.
*O repórter viajou a convite da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais
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