Eduardo Bolsonaro mobiliza deputados e senadores norte-americanos contra Alexandre de MoraesAgência Brasil

Brasília - "O senhor certamente está ciente do declínio dos direitos humanos no Brasil", afirmou o deputado republicano Cory Mills numa sessão da Câmara dos Deputados americana em 21 de maio, referindo-se ao secretário de Estado, Marco Rubio. "E o que eles estão fazendo agora é uma prisão eminente e politicamente motivada contra o ex-presidente Bolsonaro. O senhor estaria considerando impor sanções ao ministro da Suprema Corte Alexandre de Moraes?"

A pergunta, que rendeu uma resposta direta de Rubio - "Há uma grande possibilidade de que aconteça" - expõe o suporte que parlamentares republicanos têm dado aos planos de Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O deputado federal, licenciado do mandato em março para ficar nos Estados Unidos, diz se empenhar para convencer o governo Trump a aplicar sanções contra autoridades de seu próprio País.

Além de Mills, da Flórida, os deputados Maria Elvira Salazar (Flórida), Rich McCormick (Geórgia), Jim Jordan (Ohio), Chris Smith (Nova Jersey), Brian Mast (Flórida) e o senador federal Mike Lee (Utah) formam uma espécie de "bancada anti-Moraes" no Capitólio. O grupo é reforçado pelo senador estadual Shane David Jett (Oklahoma). Entre assuntos domésticos e internacionais, eles têm direcionado críticas ao Brasil, principalmente contra Moraes.

Esses parlamentares são os principais aliados de Eduardo no Legislativo americano, e com quem o brasileiro tem feito reuniões em solo americano para discutir as investigações contra o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A articulação de Eduardo tem a parceria do deputado federal Filipe Barros (PL-PR) e do comunicador Paulo Figueiredo, que mora nos Estados Unidos.

Aliados americanos
Na semana anterior à pergunta a Rubio, Mills, que é presidente do Subcomitê de Inteligência das Relações Internacionais da Câmara americana, reuniu-se com Eduardo, Figueiredo e Barros, que preside a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara no Brasil. Barros diz que combinou com Mills de criarem "um grupo de trabalho que trocará informações importantes sobre a democracia brasileira e possíveis interferências no nosso processo eleitoral".

Salazar também adotou a pauta de Eduardo. Em maio de 2024, ela chegou a exibir um cartaz com o rosto de Moraes no Congresso americano enquanto criticava suas decisões. Na quarta-feira, 28, ela elogiou a decisão de Rubio de restringir visto para "autoridades estrangeiras e pessoas cúmplices na censura".

"Que isso sirva de alerta aos tiranos e aos simpatizantes autoritários ao redor do mundo como Alexandre de Moraes: se você tentar censurar cidadãos americanos, mesmo além de nossas fronteiras, você não será bem-vindo nos Estados Unidos", escreveu Salazar no X.

Mast é outro a se encontrar com Eduardo. O encontro foi no dia 15 de maio. As pautas da reunião, segundo Barros, foram "o lawfare e o ativismo judicial, a preocupação com o avanço da censura, a interferência da USAID na democracia, a proliferação das facções criminosas e a necessidade de as considerarmos como movimentos terroristas".

Em fevereiro, McCormick publicou uma foto de um encontro com Eduardo, disse ter sido ótimo revê-lo e que o mundo não deve fechar os olhos às "ameaças que as liberdades enfrentam no Brasil".

Um mês depois, após Eduardo anunciar seu autoexílio nos Estados Unidos, McCormick afirmou que ele e sua colega Maria Elvira Salazar tinham enviado a Trump uma carta pedindo a aplicação do Global Magnitsky Act contra Moraes. Trata-se de uma lei que permite ao governo americano impor sanções contra autoridades de outros países que violem direitos humanos, incluindo o congelamento de seus ativos e sua proibição de entrar nos Estados Unidos.

Outros representantes da "bancada anti-Moraes" atuam contra o ministro brasileiro. Fundador de um grupo que reúne deputados ultraconservadores, Jim Jordan preside o comitê que divulgou relatório com documentos sigilosos sobre suposta "censura do governo brasileiro" a redes sociais.

Chris Smith, por sua vez, enviou uma carta a Moraes no ano passado pedindo que o STF derrubasse a suspensão do X. Já o senador Mike Lee, que já se referiu ao menos duas vezes a Moraes como o "Voldemort brasileiro", em referência ao vilão da série Harry Potter, foi outro a se reunir com Eduardo em fevereiro.

Eduardo vem provocando nos últimos dias os críticos que zombavam de sua atuação no exterior. Após a resposta de Rubio a Mills, ele escreveu nas redes sociais: "Antes, eu era chacota. Hoje, vocês me levam a sério o suficiente para me ameaçarem".
Reação
Procurados, Barros e Eduardo não responderam. O deputado Carlos Zarattini (PT-SP), integrante da Comissão de Relações Exteriores, disse não haver no colegiado qualquer formalização de grupo de trabalho binacional com o Congresso americano e chamou a articulação de Eduardo de "criminosa".

O PT entrou com uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR), pedindo prisão de Eduardo por atentado à soberania nacional, e na Comissão de Ética da Câmara pela cassação do deputado.