Gabriel Escobar foi convocado para restar esclarecimentos ao governo brasileiroEmbaixada dos EUA/Divulgação
Embaixada dos EUA sai em defesa de Bolsonaro; Itamaraty reage
Nota da diplomacia norte-americana tem potencial para desencadear uma crise na relação entre os dois países
A Embaixada dos Estados Unidos emitiu nesta terça-feira, 8, uma nota em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), reforçando a manifestação feita por Donald Trump. No comunicado, a representação diplomática afirma acompanhar com atenção a situação — em um referência ao julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) da tentativa de golpe de Estado — e que Bolsonaro e a família são parceiros dos EUA.
A nota tem potencial para desencadear uma crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, visto o tom de ameaça. Veja a íntegra do comunicado:
"Jair Bolsonaro e sua família têm sido fortes parceiros dos Estados Unidos. A perseguição política contra ele, sua família e seus apoiadores é vergonhosa e desrespeita as tradições democráticas do Brasil. Reforçamos a declaração do presidente Trump. Estamos acompanhando de perto a situação. Não comentamos sobre as próximas ações do Departamento de Estado em relação a casos específicos".
Nesta quarta-feira, 9, o Ministério das Relações Exteriores reagiu e convocou o encarregado de negócios da embaixada, Gabriel Escobar, para prestar esclarecimentos — o que foi confirmado pela diplomacia norte-americana. De acordo com o Itamaraty, ele conversará com a embaixadora Maria Luísa Escorel, secretária de Europa e América do Norte da chancelaria brasileira.
Aumento da pressão contra o Brasil
Na segunda-feira, 7, Donald Trump iniciou a pressão sobre o Brasil com uma postagem na rede social Truth Social em defesa de Bolsonaro. No dia seguinte, o presidente norte-americano fez nova publicação, afirmando que o candidato derrotado nas eleições de 2022 deve “ser deixado em paz” e voltou a usar a expressão “caça às bruxas”, ao se referir ao processo que tramita no STF.
A Embaixada dos Estados Unidos, em nota enviada ao colunista Jamil Chade, do UOL, se posicionou sobre a questão: “A declaração do presidente [Trump] é clara, e nós a ecoamos”.
Na linguagem da diplomacia, a convocação do encarregado de negócios é a expressão do descontentamento das autoridades brasileiras. A embaixada está sem um titular desde que Trump assumiu a presidência. Ele ainda não indicou um novo embaixador. Eliabeth Frawley Basley, a antiga titular, deixou o posto quando o republicano passou a ocupar a Casa Branca.
Itamaraty reage
A diplomacia brasileira deu sinais fortes de descontentamento com a nota. Fontes do Itamaraty consideram o posicionamento da embaixada norte-americana como ingerência externa em questões internas, em um claro desrespeito à soberania nacional.
No Itamaraty, a avaliação é de que as postagens de Trump têm potencial para desencadear uma crise na relação entre Brasil e Estados Unidos. Ainda que a linguagem da diplomacia busque reduzir estragos e não alimentar polêmicas, é certo que o Ministério das Relações Exteriores adotará um tom mais duro na conversa com Gabriel Escobar.
A escalada na tensão entre os dois países começou na segunda-feira, quando Trump fez a primeira postagem em defesa de Bolsonaro. O presidente Lula, sem citar nomes, respondeu de forma enfática à publicação do republicano: “Este País tem lei, tem regra e este País tem um dono chamado povo brasileiro. Portanto, dê palpite na sua vida e não na nossa.”

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