O Conselho Federal de Medicina (CFM) proibiu o uso de sedação, anestesia geral ou bloqueios anestésicos periféricos para a realização de tatuagens. A decisão foi publicada nesta segunda-feira (28) no Diário Oficial da União (DOU).
Segundo com a resolução, a medida vale para procedimentos de todos os tamanhos e em todas as regiões do corpo. A exceção é no caso de tatuagens indicadas por médicos para reconstrução de partes do corpo.
A decisão acontece meses após o empresário e influenciador Ricardo Godoi, de 46 anos, morrer ao passar por uma anestesia geral para fazer uma tatuagem. Ele estava sendo atendido em um hospital particular de Itapema (SC). O caso aconteceu em janeiro deste ano.
O responsável pelo estúdio de tatuagem confirmou que Ricardo faleceu durante a sedação e intubação. De acordo com ele, Godoi havia feito o acompanhamento prévio, com bons resultados, com o mesmo anestesista que o sedou. A tatuagem não chegou a ser iniciada.
Segundo a Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), um estudo epidemiológico descritivo, baseado no DATASUS (2018–2022), mostrou 25 óbitos no Brasil por uso de anestésicos e gases terapêuticos, sendo 9 na região Sudeste (inclui RJ) entre 2018 e 2022. "Em média, são 4 a 6 óbitos por ano, com os avanços tecnológicos e protocolos de segurança mantendo essas taxas baixas".
A SBA aponta que existem existem diferenças entre sedação e anestesia geral:
- A sedação é um estado induzido por medicamentos que reduz a ansiedade e o nível de consciência do paciente. Pode ser leve, moderado ou profundo. Entre as indicações para o uso do recurso estão os procedimentos menos invasivos, como exames diagnósticos, ou associados à anestesia local/regional.
Já os riscos, quando profunda, pode comprometer vias aéreas e ventilação espontânea, causar depressão respiratória, reações alérgicas, náuseas, vómitos e, raramente, depressão cardiorrespiratória.
- A anestesia geral é o estado de inconsciência completa induzido com medicamentos intravenosos ou inaláveis, associado à intubação e ventilação mecânica. As indicações são para os procedimentos cirúrgicos invasivos, longa duração ou complexos, onde é necessária imobilidade, controle da dor e estabilidade fisiológica.
"Entre os riscos estão a hipotensão, depressão respiratória, aspiração pulmonar, lesões orotraqueais, efeitos neurológicos transitórios, náuseas, e excepcionalmente parada cardiorrespiratória ou óbito", disse a SBA.
Sociedade Brasileira de Anestesiologia também destaca os preparativos necessários e riscos se ignorados:
- Consulta pré-anestésica: tem como principal objetivo melhorar o planejamento da anestesia, inclusive com a solicitação dos exames que se fizerem necessários, buscando a redução do risco anestésico e a devida orientação ao paciente para o dia da cirurgia, mediante o conhecimento, pelo profissional médico, das doenças preexistentes, da ocorrência de reações alérgicas, da realização de outras cirurgias e atos anestésicos, da utilização de medicamentos, da verificação sobre possíveis vícios do paciente.
"(Todo esse processo) permitirá relacioná-los com a melhor técnica anestésica, além de estimular a relação interpessoal entre médico e paciente, prevenindo litígios", afirma a SBA.
- Jejum e orientações: o anestesiologista também informa sobre jejum (água incluída), suspensão ou manutenção de medicamentos e esclarece o tipo de anestesia a ser utilizado.
- Consentimento esclarecido (TCLE): o paciente deve ser informado sobre riscos e benefícios do procedimento e autorizar consciente e voluntariamente.
- Ambiente adequado: o procedimento deve ocorrer em local com monitorização, recursos de suporte à vida e equipe treinada para lidar com complicações potenciais.
- Riscos em caso de preparação inadequada: incluem reações adversas, falhas em reconhecimento de contraindicações, eventos respiratórios ou cardiovasculares inesperados, e aumento do risco de mortalidade ou complicações graves.
A reportagem entrou em contato com entidades que representam os tatuadores, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto.
Prática comum entre famosos
Seja para evitar a dor ou para ter a sensação de finalizar logo, alguns famosos utilizam a anestesia para conseguir aguentar a sessão.
O funkeiro MC Daniel, de 26 anos, agitou a internet no ano passado após passar 7h fazendo tatuagens sob o efeito de anestesia, para não sentir dores. O cantor desenhou vários personagens nas costas, como os quatro integrantes de "As Tartarugas Ninja", o Bob Esponja, Naruto, Pikachu e entre outros.
Além dele, outros famosos também recorreram à medicação para realizarem grandes tatuagens no corpo e não sentirem incômodo.
Com o uso de anestesia, MC Poze do Rodo cobriu as costas, mas em homenagem à favela e à sua religião. O desenho escolhido pelo artista mistura um leão com a imagem de Jesus Cristo, uma coroa de espinhos e suas iniciais, "PZ".
O cantor Igor Kannário passou por um longo processo para realizar tatuagens. Nas redes sociais, ele compartilhou um vídeo do momento, realizado em centro cirúrgico, onde mostra que seis artistas foram responsáveis pelos desenhos. No registro, um anestesista ainda conta que acompanhou todo o processo.
Rafaella Santos, a irmã do jogador Neymar Jr., cobriu um desenho que tinha nas costas sob uso de medicação neste ano. Nas redes sociais da tatuadora, o resultado foi compartilhado, que mostra um leão e duas borboletas.
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O DJ, modelo e ex-namorado de Madonna, Jesus Luz, utilizou anestesia para realizar duas grandes tatuagens no meio do ano passado. Em seu perfil nas redes sociais, ele compartilhou os melhores momentos da sessão e escreveu: "Gratidão máxima à equipe pela experiência".
MC Cabelinho também revelou que tomou uma anestesia geral em uma das tatuagens. "Contratei uma equipe médica, fechei uma sala de cirurgia, os médicos disseram que era possível e eu tomei anestesia geral, dormi por 8 horas, fiquei entubado, porque era nas costas. Tatuei as costas toda", explicou em entrevista ao "Na Piscina com Fê Paes Leme".
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