O chef Léo Modesto preparou um almoço no sítio Cacau Xingu, no município de Novo Horizonte, por ocasião do Xingu Chocolat, em Altamira, no ParáAna Carla Gomes

Em uma das pequenas ilhas que servem de parada para o passeio de lancha pelo Rio Xingu, em Altamira (PA), o biólogo Paulo Amorim, de 51 anos, cata alguns resquícios de lixo deixados na areia e logo responde a uma pergunta sobre possíveis ataques de piranhas na região: "Em um ambiente equilibrado, elas não vão atacar jamais. Você até tem ataque hoje em Mato Grosso, mas uma espécie específica". Durante o trajeto, a bordo da sua voadeira, ele também vai apontando para outras ilhas, onde relata a existência de cavernas com pequenos morcegos e a presença de pinturas rupestres, além de permear sua fala destacando a força dos povos indígenas. Goiano de 51 anos, Paulo se mudou aos sete para Altamira e é um dos tantos brasileiros que desbravam o Pará. O estado será sede da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), a ser realizada em Belém, em novembro deste ano.

A capital paraense, inclusive, foi escolhida para receber o evento por conta da importância da Amazônia para o equilíbrio climático, reforçando a necessidade de se preservar não apenas o clima, mas também os ecossistemas e modos de vida que dependem da floresta. Paulo, inclusive, aponta as maiores ameaças que ele enxerga à biodiversidade da região: "A especulação imobiliária agrupada à grilagem de terra, desmatamento e queimadas. Uma outra ameaça está na impunidade aos crimes ambientais, além dos baixos controle e fiscalização in loco. Por fim, é um conjunto de fatores que, somados, interferem e intensificam as ameaças ao bioma Amazônia".

Chef explica que parte do tucupi que seria descartada pode virar vinagre de limpeza

Natural de Curuçá, no Nordeste do Pará, o chef Léo Modesto, que participou do reality 'Mestre do Sabor', da TV Globo, sabe bem como é tirar diretamente da natureza a sua subsistência. É dele um relato emocionado, compartilhado durante a realização do Chocolat Xingu 2025 — que reuniu mais de 140 mil visitantes no Centro de Eventos Vilmar Soares, em junho, em Altamira — sobre um dia em que precisou alimentar os cinco irmãos mais novos enquanto sua mãe tinha ido pescar. "Não tinha a proteína, só a vinagreira no quintal. Naquele dia, a gente estava só com o café com farinha. Fui ao quintal, peguei vinagreira, chicória, alfavaca, temperei aquele caldo, coloquei urucum e farinha. Fiz um pirão escaldado para cada um", contou Léo.

Hoje, o chef está à frente de um projeto, o Maniua, que começou no Sítio Mearim. "A gente pegava insumos que eram descartados. A maioria das comunidades atua com agricultura familiar, nessa nossa região do Nordeste paraense. O que eu observei é que a maioria não tinha como escoar pequenas quantidades de tucupi (líquido amarelo extraído da mandioca). Lá atrás, comecei a desenvolver o trabalho no sítio, inicialmente em família mesmo, com a minha mãe, meu irmão e minha cunhada, agregando o pessoal do entorno. Hoje, temos 40 famílias envolvidas direta ou indiretamente no projeto. Damos treinamento para as comunidades e, posteriormente, desenvolvemos novos subprodutos da mandioca. Às vezes, não tão novos, mas a gente melhora a qualidade deles".

Léo explica ainda que nem todo o tucupi é utilizado para consumo. "Algumas vezes, uma parte desse líquido é descartada. Eu passei a mostrar para a comunidade que eles podem fazer um processo de fermentação e utilizar esse tucupi para fazer vinagre de mandioca para limpeza. Com isso, a gente conseguiu aproveitar bastante material". Esse processo ganha importância quando Léo explica que "a mandioca brava tem a maior concentração de ácido cianídrico, que pode prejudicar o meio ambiente em grandes quantidades". "Mas hoje as comunidades já têm esse conhecimento empírico aliado ao conhecimento técnico", completa.
'A pessoa fala que é sustentável para vender porque sustentabilidade vende'

Jiovanna Lunelli (à esquerda), à frente do sítio Cacau Xingu, no município de Novo Horizonte, ouve as explicações do chef Léo ModestoAna Carla Gomes

Sustentabilidade também é palavra presente nas declarações de Jiovanna Lunelli, de 55 anos, que deixou Presidente Getúlio, em Santa Catarina, com apenas dois anos e três meses em direção à Amazônia, em outubro de 1972, e hoje está à frente do sítio Cacau Xingu, no município de Novo Horizonte, no km 48 da Rodovia Transamazônica. O local produz chocolate artesanal com cacau orgânico da Transamazônica e do Xingu. "É muito fácil alguma pessoa chegar e dizer: 'Olha, o meu mel é sustentável'. Mas não sabe nem o que é sustentabilidade. Mas a pessoa fala que é sustentável para vender porque sustentabilidade vende. Mas aí tem um produto que não respeita o meio ambiente, não respeita as pessoas... Se você não respeita o trabalho do seu meeiro, se ele não é bem pago, o lado econômico está só do seu lado, não do lado dele", afirma ela, completando: "A nossa missão é abordar esses assuntos que outras pessoas não querem abordar por acharem que isso é crítico. Às vezes, eu sou convidada para dar palestras sobre o sistema agroflorestal e logo pergunto: 'Vocês querem que eu diga mesmo? A minha fala é o que eu vivo, vou falar coisas que vão impactar. Não vou para lá para falar bonito ou passar pano. A gente vai para falar coisas que a gente sente".
Cacau é destacado como sumidouro natural de gás carbônico

Produção de cacau no ParáAna Carla Gomes

O cacau, matéria-prima desse e de tantos outros sítios da região, é destacado também pelo seu papel no meio ambiente. Segundo a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), "a cultura do cacau, além de importância econômica e social, representa também desenvolvimento sustentável nas comunidades onde está inserido, na Mata Atlântica (BA e ES) e na região Amazônica, como PA, RO e MT". A entidade destaca ainda que "uma das principais características da produção é funcionar como um importante sumidouro natural de gás carbônico, ou seja, além de não emitir gases, ainda absorve boa parte do carbono presente na atmosfera". A AIPC explica também que "boa parte do cultivo de cacau é feita à sombra, com suas árvores plantadas em áreas de floresta, auxiliando na absorção de carbono do meio ambiente".

Equilíbrio também é palavra presente no discurso de José Renato Preuss, de 69 anos. Nascidos no Sul do país, ele e a esposa, Verônica Preuss, de 60 anos, estão à frente de outro sítio de produção de cacau, o Kakao Blumenn, também no município de Novo Horizonte, na Rodovia Transamazônica Km 55. Ao falar de pragas que atingem a plantação, como a vassoura-de-bruxa, ele ensina: "O inseticida é pior para bicho de sangue. Se está matando o inseto, está matando a gente também".

Ao discursar na COP28 em 2023 na cidade de Dubai, no evento que oficializou Belém como a sede da COP30, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, fez questão de enfatizar que a COP30 será diferente de todas as outras justamente pela sua localização. "Uma coisa é discutir a Amazônia no Egito; outra coisa é discutir a Amazônia em Berlim; outra coisa é discutir a Amazônia em Paris. Agora, não. Agora nós vamos discutir a importância da Amazônia dentro da Amazônia. Nós vamos discutir a questão indígena, vendo os indígenas. Nós vamos discutir a questão dos povos ribeirinhos, vendo os povos ribeirinhos e vendo como eles vivem", afirmou Lula.


Biólogo vê a COP-30 como oportunidade para beneficiar os amazônidas

O biólogo Paulo Amorim guia passeios pelo Rio Xingu, em Altamira, no ParáAna Carla Gomes

O biólogo Paulo Amorim reforça a importância da escolha de Belém como sede da COP30: "A escolha é importante e vejo como uma oportunidade de evidenciarmos não somente as ameaças, mas também as oportunidades para beneficiar os amazônidas e direcionar investimentos que possam garantir a produção, desenvolvimento e preservação no curto, médio e longo prazo. Mas esse protagonismo deve ser dado a quem vive na Amazônia, mas o mundo tem que entender que tudo está conectado e nada adianta proteger a Amazônia como estratégia de reserva de mercado para seus interesses sem considerar as ameaças oriundas de países desenvolvidos".
* A jornalista viajou a convite da organização do Chocolat Xingu 2025