Liliane França se emocionou ao relembrar a rotina com Laudemir e ao pedir justiça pelo crimeReprodução/TV Globo

Minas Gerais - Após o assassinato do marido, Liliane França, viúva do gari Laudemir de Souza Fernandes, concedeu uma entrevista coletiva e se demonstrou desesperada com a perda do companheiro. O profissional foi morto a tiros pelo empresário Renê da Silva Nogueira Junior no momento em que trabalhava em Belo Horizonte. Amparada por familiares, ela pediu respeito e justiça para os profissionais da limpeza urbana.
O corpo de Laudemir foi velado nesta terça-feira (12) na Igreja Quadrangular do bairro Nova Contagem, em Contagem. 

"Ele vai me fazer muita falta, muita falta mesmo, porque era um homem perfeito. Era uma pessoa que respeitava, que cuidava da gente com muito carinho. Todos os dias de manhã ele falava que iria voltar. Dessa vez, ele não voltou para casa. Me devolveram o Lau num caixão", desabafou.
Liliane afirma que a morte do marido não pode ser em vão. "Isso não pode ficar assim. Tem que haver uma mudança. Tem que haver justiça, sabe?", falou.
"Ele saía todos os dias de manhã falando que iria voltar para casa, que iria voltar para a família, que era o que ele mais gostava de fazer. Ele falava das dificuldades do serviço dele, da falta de respeito das pessoas com eles, das pessoas não respeitarem o trabalho deles", acrescentou.
Laudemir trabalhava há nove anos para uma empresa terceirizada que presta serviços de limpeza urbana à Prefeitura de Belo Horizonte.
De acordo com os familiares, ele era apaixonado pela profissão, estava prestes a ser promovido para atuar na portaria e gostava de preparar o café da manhã aos domingos. Ele deixa uma filha de 15 anos e uma enteada, além da companheira.
Relembre o caso
A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) prendeu o empresário Renê da Silva Nogueira Júnior, 47 anos, após ele atirar e matar o gari Laudemir de Souza Fernandes, 44 anos, no bairro Vista Alegre, região oeste de Belo Horizonte, na manhã de segunda-feira (11).
O gari morreu depois de ter tentado defender uma colega, que era motorista do caminhão de coleta de lixo. Ela teria sido ameaçada pelo empresário em uma briga de trânsito.

À polícia, Renê negou que estava no local onde o gari foi assassinado, depois contou que a arma usada no crime pertence a mulher dele, que é delegada, Ana Paula Lamego Balbino Nogueira.
De acordo com o registro da ocorrência, um caminhão de coleta de lixo estava parado na esquina das ruas Jequitibá e Modestina de Souza, quando um carro BYD cinza vinha na direção contrária e se aproximou da coleta.
Renê sacou uma arma e ameaçou atirar na condutora do caminhão da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU). Logo em seguida, ele atirou contra o gari que estava trabalhando na coleta.

O trabalhador foi atingido na região do tórax, perto das costelas. O gari foi socorrido e encaminhado para o Hospital Santa Rita, em Contagem, mas não resistiu aos ferimentos.

A Polícia Militar (PM) capturou Renê pela placa do veículo, câmeras e radares. Ele foi preso em flagrante em uma academia de alto padrão, na área nobre da capital mineira.

A delegada Ana Paula Lamego Balbino Nogueira, esposa do empresário, foi ouvida na Corregedoria da Polícia Civil.
"Foram arrecadadas na casa da servidora a arma de uso particular e a da corporação. A de uso particular está vinculada e apreendida aos autos do inquérito policial que investiga o crime de homicídio aqui nesse departamento e a arma institucional está vinculada ao inquérito policial instaurado na corregedoria para apuração de eventual infração por parte da servidora", disse o delegado Saulo Castro.

A delegada disse em um primeiro momento que seu marido não tinha acesso ao armamento e que ela desconhecia qualquer envolvimento dele com a morte do gari.
Ana Paula está lotada na Casa da Mulher Mineira, unidade policial inaugurada em março de 2022. Ela é autora do livro Violência Doméstica e Políticas Públicas de Enfrentamento.

Segundo o delegado Saulo Castro, ela segue em sua função regular, porque ainda não há nenhuma indicação da Corregedoria para afastamento, tampouco ordem judicial. Quando ouvida pela polícia, a delegada disse que não sabia que o marido era suspeito. A arma está sob perícia e a duração é de dez dias para concluir se era dela.