Agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) retiraram à força e com uso de gás de pimenta artistas e membros da ONG Tem Sentimento de um prédio anexo ao Teatro de Contêiner, na região central de São Paulo, nesta terça-feira (19). O imóvel abandonado era utilizado como depósito de equipamentos e pertences pelo grupo e pela organização social.
Em maio deste ano, a prefeitura entrou com um pedido de despejo solicitando a desocupação de toda a área onde fica o teatro. O prazo para a saída definitiva termina nesta quinta-feira (21). A ofensiva desta terça ocorreu poucas horas depois de a gestão municipal negar um pedido de prorrogação de 120 dias para que o coletivo pudesse deixar o espaço.
Em vídeos compartilhados nas redes sociais, é possível o momento em que os agentes da GCM entram no prédio e retiram os artistas, com uso de força. Uma profissional que trabalha na companhia alerta um dos agentes que se aproxima dela.
"Vocês são policiais? Não são? Não são nem policiais femininas", afirmou.
De acordo com Carmen Lopes, coordenadora do Coletivo Tem Sentimento, que também utiliza o espaço, os agentes quebraram as paredes do prédio para entrar no edifício onde fica o teatro.
"Falaram que iam usar o prédio e a gente começou a tirar as coisas do local, e aí, quando fui ver, começou o tumulto, usaram spray de pimenta. Primeiro veio o pessoal da prefeitura e depois a GCM", relatou.
Do lado de fora, pessoas protestaram contra a ação da GCM. "Covardes", gritaam os manifestantes.
Veja o vídeo:
Em nota, a GCM informou que uma "intervenção" foi necessária pela "negativa para desocupação do imóvel" por parte dos artistas.
"O prédio, que está interditado e será demolido pela Prefeitura de São Paulo, foi invadido por um grupo de pessoas que utilizava um acesso clandestino feito a partir do terreno do teatro. Diante da invasão e da negativa para desocupação do imóvel, foi necessária uma intervenção por parte das forças de segurança", disse.
O terreno pertence ao município desde 2016 e fica entre as ruas General Couto Magalhães, dos Gusmões e dos Protestantes, onde ficava o "fluxo" da Cracolândia.
A reivindicação do grupo junto à prefeitura é que o local seja destinado à Secretaria de Cultura da cidade e que a pasta regularize a situação do teatro. No entanto, a prefeitura pretende dar outra finalidade ao local.
"A área ocupada pelo grupo está dentro de um amplo projeto de revitalização da prefeitura, incluindo a construção de habitações e área de lazer", informou a administração municipal, em comunicado.
A gestão municipal também disse ter destinado R$ 2,5 milhões em apoio às atividades do grupo e argumenta que a prorrogação comprometeria o cronograma da política habitacional e de revitalização da área, que prevê moradias e lazer.
O Teatro de Contêiner pediu à prefeitura a prorrogação do prazo para a desocupação de suas instalações. Porém, não foi atendido pela gestão municipal, que alega já ter dialogado com os artistas por um ano e oferecido dois outros espaços para a instalação do teatro. Os membros da companhia afirmam que os locais ofertados não comportam a atividade teatral em razão da dimensão do terreno, localização e insalubridade.
Um dos gestores do teatro, Lucas Beda explica que não é possível a realocação imediata, por isso eles solicitaram à gestão Nunes a prorrogação do prazo de desocupação por mais 120 dias.
Beda também pontua que eles já possuem um cronograma de apresentações e eventos até o final de dezembro, como a 41ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro, financiado pela própria prefeitura.
"Estamos com três convênios junto ao poder público em andamento. São mais de 60 apresentações agendadas para esse ano, dois festivais em andamento, centenas de trabalhadores envolvidos. Receberemos, até o final do ano, mais de 1.500 alunos de escolas públicas de diversos lugares da cidade para assistirem às apresentações artísticas que acontecerão aqui. O que faremos com tudo isso?", desabafou.
A prorrogação do prazo também foi pedida pelo Ministério da Cultura (Minc), que ainda não recebeu resposta da prefeitura.
"Em ofício, até agora sem resposta, enviado ao prefeito Ricardo Nunes pela ministra da Cultura, Margareth Menezes e pela presidente da Funarte, Maria Marighella, foi solicitada a ampliação do prazo dado pela prefeitura para o despejo do coletivo artístico de sua sede, de modo a permitir que os entendimentos iniciados junto à Superintendência do Patrimônio da União para a busca de novo terreno pudessem resultar positivamente", aponta o Minc.
Em nota conjunta, o ministério e a Funarte lamentaram a ação realizada para a retirada dos artistas e membros da ONG do local.
"Lamentamos que o uso da força tenha substituído a continuidade do diálogo em prol da arte e da cultura, que cumprem papel relevante junto à comunidade do centro da capital paulista por meio da atuação do Teatro de Contêiner, da Cia Mungunzá e da ONG Tem Sentimento. Reforçamos nosso apelo para que o prazo seja ampliado e a negociação pacífica retomada com a maior brevidade possível", disse.
Protesto
Após toda ação, uma manifestação em repúdio ao ato dos agentes municipais foi realizada no início da noite e contou com a presença de artistas, lideranças políticas e apoiadores da causa, que permaneceram do lado de fora do prédio alvo da ação de despejo, mas dentro do terreno, como um ato de resistência.
A vereadora Luana Alves (Psol-SP) relata que a Prefeitura de São Paulo faria um evento nesta quarta-feira no local e acredita que a reintegração antecipada pode ter relação com isso.
"Havia toda uma estrutura para evento, com tenda montada, cadeiras. Agora, depois da resistência, tudo está sendo desmontado. Para mim mostra que foi uma ação [de reintegração] bizarra. O ataque ao teatro tem a ver com esse evento de amanhã [quarta-feira], embora eles [poder público] neguem isso. E eu vou fazer um requerimento ao município para saber quanto custou essa montagem e essa desmontagem", disse.
Apoio contra o despejo
A campanha contra o despejo recebeu apoio de nomes importantes, como a atriz Fernanda Montenegro. Em junho, ela publicou uma carta aberta nas redes sociais, na qual destacou a relevância da companhia.
Na época, os atores Matheus Nachtergaele e Isabel Teixeira compartilharam um post sobre o tema com duras críticas à administração municipal. O comunicado cita que a presença do teatro transformou "uma área marginalizada".
Após a ação da guarda municipal nesta terça, outros atores Erom Cordeiro, Alessandra Negrini, Leo Miggiorin, Graça Cunha, repudiaram o uso da força contra os artistas e apoiaram as manifestações.
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