Enterro de Rafael Fernandes da Silva, de 21 anos, morto em tiroteio no Morro do FubáReginaldo Pimenta / Agência O Dia
Jovens negros representam 73% das mortes por violência ou acidente, aponta estudo
Pesquisa da Fiocruz ainda mostrou que as mulheres são as maiores vítimas de agressões no país
Um estudo da Fiocruz apontou que os jovens negros são as principais vítimas de morte por violência no Brasil, com 73% dos óbitos por causas externas durante a juventude. Ao todo, são 61.346 mortes, com base nos dados do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022 e 2023. A pesquisa, divulgada nesta segunda-feira (25), também pontuou que as mulheres jovens são as principais vítimas de agressões e pessoas com deficiências constituem um quinto das notificações de violências no SUS.
"É extremamente necessário trazer dados e reflexões sobre como a violência se apresenta de maneira distinta em relação à idade, gênero, raça e localização geográfica. Isto ajuda a compreender como agressões e acidentes são associados às condições de vida e trabalho das juventudes brasileiras", destacou a pesquisadora Bianca Leandro, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz).
A morte violenta atinge mais os jovens do sexo masculino, cuja taxa de mortalidade é oito vezes maior em relação ao sexo feminino. Homens entre 20 e 24 anos são os mais atingidos, com 390 óbitos para cada 100 mil habitantes. Entretanto, as maiores vítimas das violências notificadas pelo SUS são as mulheres, tanto em termos proporcionais como na taxa de incidência, em todas as Unidades da Federação (UFs), especialmente entre 15 a 19 anos. O Distrito Federal e o Espírito Santo apresentam taxas de um caso para cada cem habitantes - 1022 no DF e 993 no ES.
Dentre as causas, o sexismo aparece como a motivação mais frequente da violência contra jovens nas notificações do SUS, correspondendo a 23,7% dos casos. As mulheres também sofrem violências fatais mais diversificadas. Agressões por arma de fogo e objetos penetrantes ou cortantes são as principais causas de morte violenta entre jovens. Porém, entre as causas de óbito de mulheres jovens também se destacam a morte por enforcamento, estrangulamento e sufocação. Além disso, as mulheres são mais assassinadas dentro de casa (34,5% das ocorrências, contra 9,6% dos homens), enquanto para os homens jovens o maior risco ocorre nas ruas (57,6%).
O levantamento é o primeiro de um ciclo de informes epidemiológicos sobre a situação de saúde das juventudes que pesquisadores da Agenda Jovem Fiocruz (AJF) e da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio planejam lançar em 2025.
Um dos casos que exemplifica o objeto de estudo da Fiocruz aconteceu em maio de 2024. O mecânico Rafael Fernandes da Silva, de 21 anos, foi morto a tiros durante um confronto entre criminosos no Morro do Fubá, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O jovem chegou a ser socorrido no Hospital Municipal Albert Salgado Filho, no Méier, mas não resistiu aos ferimentos.
Negros e jovens pessoas com deficiência sofrem mais
Os negros (pretos e pardos) representam mais da metade das vítimas jovens notificadas: 54,1% dos casos. O risco de morte por causas externas entre jovens homens negros chega a 227,5 para cada 100 mil habitantes, que é 22% maior que a taxa do conjunto da população jovem e mais que 90% maior que a taxa de mortalidade de jovens homens brancos e amarelos.
A diferença é ainda mais acentuada na faixa etária de 15 a 19 anos. As taxas de mortalidade por causas externas para negros (161,8 óbitos para cada 100 mil habitantes) e indígenas (160,7) são praticamente o dobro das taxas para brancos (78,3) e amarelos (80,8).
Os jovens com deficiência foram 20,5% das notificações de violências no SUS. Na população geral, eles representam 17,6% do total. Os tipos de deficiências mais vitimadas foram relacionados à saúde mental: transtorno mental e de comportamento e deficiência intelectual.
"O direito à vida tem sido uma bandeira dos movimentos juvenis contemporâneos, exatamente pelo fato de que a juventude tem sido o segmento bastante afetado pela violência letal", afirmou o coordenador da Agenda Jovem Fiocruz, André Sobrinho.
"É preciso seguir apontando os dados alarmantes e, mais que isso, afetar as causas que têm a ver em como a sociedade vê os jovens e a ausência de políticas públicas que garantam a proteção dessa população", concluiu.

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