População adapta hábitos e reforça ações de reciclagem e consumo consciente diante da crise climáticaReuters/Ueslei Marcelino
De acordo com o levantamento, essa percepção é ainda maior entre as pessoas que se identificam como parte de povos e comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos e seringueiros. Nesse caso, 42,2% das pessoas dizem já sentir os efeitos provocados pelas mudanças climáticas.
As mudanças climáticas já estão refletindo no dia a dia e no cotidiano dessa população da Amazônia Legal, disse Luciana Vasconcelos Sardinha, diretora adjunta de Doenças Crônicas Não Transmissíveis da Vital Strategies e responsável técnica pela pesquisa.
"A Amazônia vem priorizando a implantação de muitas hidrelétricas, grandes negócios agropecuários, grandes desmatamentos. E isso tem uma consequência. Esse modelo de desenvolvimento acaba sendo excludente e predatório, reforçando pobrezas e desigualdades. E os povos tradicionais são afetados diretamente por essas consequências”, afirmou Luciana, em entrevista à Agência Brasil.
Entre os efeitos mais sentidos pelos moradores da Amazônia Legal estão o aumento da conta de energia elétrica (83,4%), o aumento da temperatura média (82,4%), o aumento da poluição do ar (75%), a maior ocorrência de desastres ambientais (74,4%) e o aumento do preço dos alimentos (73%).
Realizada pela Umane e Vital Strategies, com o apoio do Instituto Devive e disponível no Observatório da Saúde Pública, a pesquisa foi realizada entre os dias 27 de maio e 24 de julho de 2025, de forma online, com 4.037 pessoas que vivem em um dos nove estados - Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins - que compõem a Amazônia Legal.
Temperaturas acima da média
Nesse mesmo período, os moradores também disseram ter acompanhado situações de desmatamento ambiental (28,7%), de piora da qualidade do ar (26,7%) e de piora na qualidade da água (19,9%) na região.
Entre a população que se identifica como parte de algum povo ou comunidade tradicional, os relatos mais fortes foram de piora na qualidade de água (24,1%) e de problemas na produção de alimentos (21,4%).
Comportamento
Segundo a responsável pela pesquisa, apesar dos povos tradicionais serem os mais impactados pelas mudanças climáticas, são eles também que conseguem produzir respostas mais eficientes para essas consequências. “O respeito a essa diversidade cultural, que vem desses saberes (tradicionais) é muito importante quando a gente pensa em como solucionar ou melhorar a qualidade de vida”, disse ela.
“A gente observa que os povos tradicionais estão mais expostos por serem mais vulneráveis e terem, em geral, menor renda e menor escolaridade. Isso está transformando diretamente o território em que eles vivem e seu modo de vida. Mas isso mostra o potencial que eles têm para se reinventar. Eles se organizam muito de forma comunitária, em rede, o que tem ajudado a mitigar as consequências dessas mudanças climáticas”, disse Luciana.
Para ela, além dessa organização comunitária e dos saberes tradicionais, as respostas para a mitigação dos efeitos provocados pelas mudanças climáticas também estão em políticas públicas “que foquem na redução das desigualdades regionais”.
“Isso não é um problema para o futuro. Isso é um problema atual e que traz muitos impactos”, defende a responsável pela pesquisa. “Precisamos fortalecer governanças para ter planejamento integrado e unir esforços para aumentar os recursos financeiros, logísticos e humanos, que são sempre escassos. Então, se fizermos algo de forma integrada, vamos conseguir melhores resultados. Outra forma importante para mitigação desses problemas é um modelo de desenvolvimento que implique participação demográfica, socialização dessas políticas e principalmente sustentabilidade. Temos o protagonismo dos povos tradicionais que tem que ser considerado”, destacou.
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