Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) está marcado para os dias 9 e 16 de novembroReprodução
Diagnosticado há cerca de dois anos com TDAH, o estudante Bernardo Salgado de Oliveira, de 24 anos, relata que sempre teve facilidade para aprender, mas enfrentava grandes dificuldades em manter a atenção. “Na escola, eu era um ótimo aluno, mas há pouco tempo eu percebi que os métodos de estudo dos outros não davam certo pra mim. Eu ficava muito atrás em relação aos meus colegas, mesmo tendo sido um bom aluno no colégio”, conta.
Bernardo só buscou um diagnóstico após perceber o impacto da desatenção na rotina de preparação para o Enem. “Eu tenho picos de energia muito grandes e vales de energia muito baixos. Estudar sempre foi muito sacrificante porque eu não conseguia me manter focado. Só percebia que estava disperso depois de meia hora”, afirma.
Para ele, o processo de solicitação de tempo adicional junto ao Inep foi tranquilo, mas ainda há lacunas na preparação pré-prova. “Acho que falta mais orientação sobre como lidar com a neurodiversidade. O Inep poderia investir em campanhas e cartilhas com técnicas de estudo e manejo da atenção. Não é só sobre medicação, mas sobre comportamento e estratégias”, defende.
Ana destaca, no entanto, que ainda há falhas na comunicação entre o Inep e os participantes. “Em 2025, o edital dizia que quem já teve o atendimento aprovado não precisava enviar novo laudo, mas não deixava claro se haveria nova avaliação. Fiquei semanas sem resposta, ligava para o Inep e ninguém sabia me dizer nada. Só consegui a confirmação depois de muito insistir no site do MEC”, relata.
Para ela, o maior ponto de melhoria seria o treinamento das equipes que aplicam as provas. “Os fiscais eram atenciosos, mas dava pra perceber que não tinham preparo específico. Acho que o Inep deveria investir mais nisso. Eles têm boa vontade, mas falta orientação adequada”, afirma.
“Esses estudantes têm dificuldade em montar um cronograma, seguir instruções longas e manter informações ativas na mente. Isso afeta a leitura, a compreensão e a execução das tarefas. A carga de conteúdo do Enem, que é muito extensa, acaba se tornando um obstáculo ainda maior”, explica.
No caso da dislexia, Fernanda aponta que a leitura e a escrita mais lentas demandam tempo extra e tornam a interpretação mais cansativa. “O disléxico gasta mais energia com leitura e escrita, e tem mais dificuldade de revisar seus textos e identificar erros. Isso afeta diretamente o desempenho na redação, por exemplo”, diz.
O Inep permite que candidatos neurodivergentes solicitem recursos como tempo adicional, prova ampliada, ledor ou transcritor. Para Fernanda, as medidas representam um avanço, mas ainda não são suficientes. “O tempo de prova continua sendo muito extenso. Um indivíduo com TDAH tem dificuldade em sustentar a atenção por tantas horas. Talvez o ideal fosse dividir o exame em períodos menores ou incluir intervalos para autorregulação emocional”, sugere.
A especialista também defende adaptações mais profundas no formato da prova. “Provas frente e verso, com letras pequenas e pouco espaçamento, não são ideais. Na escola, pedimos fontes ampliadas e espaçamento maior entre linhas. No Enem, isso poderia ser uma realidade futura”, afirma.


Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.