A sexóloga Mariana Kiss fala que existe uma gama de possibilidadesDivulgação / Vinicius Victor
O cenário ajuda a explicar o crescimento de serviços que oferecem experiências personalizadas e mais seguras. Para Bernardo Castro, cofundador da Exclusive, plataforma brasileira especializada em acompanhantes e experiências de luxo, os números refletem transformações culturais em curso. "Observamos que muitas pessoas buscam vivências mais autênticas e significativas, mas ainda se sentem receosas em se expressar livremente. O sexo passou a ser visto como parte do bem-estar, mas ainda há medo de explorar desejos de forma consciente e respeitosa", afirma.
Segundo Castro, a proposta da Exclusive é justamente responder a essa demanda, com experiências adaptadas a cada pessoa, respeitando a individualidade, limites e conforto. "Não se trata apenas de conectar pessoas, mas de mapear comportamentos e desejos para criar experiências que priorizem confiança e qualidade", completa.
Para ele, falar sobre sexo é falar sobre nós mesmos, nossos desejos, nossos limites e o direito de viver a intimidade com autenticidade. "A verdadeira revolução sexual não está em quebrar tabus apenas, mas em permitir que cada pessoa viva o prazer como parte essencial do autocuidado, da autoestima e da liberdade", conclui Bernardo Castro, afirmando que a plataforma é aberta a todos os públicos, mulheres cis, mulheres trans e homens, mas as mulheres costumam buscar o serviço em situações específicas, geralmente ligadas a fetiches ou fantasias em casal, como o voyeurismo ou a participação de uma terceira pessoa. "Por uma questão cultural e social os homens procuram mais".
Para a sexóloga Marina Kiss, não se pode associar o prazer apenas ao ato em si. "Quando reduzimos o prazer apenas à penetração, ignoramos completamente o nosso maior órgão sexual, a pele. O orgasmo é resultado de estímulos em terminações nervosas, e essas terminações não estão concentradas apenas na região genital, estão distribuídas por todo o corpo. No caso das mulheres, essa visão limitada reforça um comportamento socialmente construído e machista, que coloca o prazer feminino em função do homem", explica.
Mariana conta que existem muitas formas de vivenciar o prazer além da penetração. "Sensações, toques, respiração e conexões que não dependem do ato penetrativo. Essa compreensão também inclui pessoas com limitações físicas, homens com disfunções eréteis e mulheres com condições anatômicas específicas".
A sexóloga diz que uma das formas mais simples de expandir a vivência do prazer é por meio da massagem. "Sabe aquela massagem despretensiosa, quando a gente chega em casa e o parceiro, marido, namorado ou crush faz de forma leve, quase sem intenção? Esse toque suave é uma excelente maneira de começar a estimular a pele, que é o nosso maior órgão sensorial. Outra forma de estímulo é o sopro: aquele ar leve ao pé do ouvido ou na nuca, que provoca arrepios imediatos. Também vale lembrar que o sexo oral não precisa se restringir à região genital, ele pode explorar o corpo todo do parceiro ou parceira, transformando cada área em um novo ponto de prazer".
Ela fala ainda sobre o tabu em torno de brinquedos eróticos e jogos de sedução. "O tabu em torno do sexo ainda existe porque, historicamente, ele deixou de ser visto como algo sagrado e esse é justamente o sentido original da palavra. Segundo a historiadora Jimena Furlani, tabu significa sagrado. Com o tempo, o termo passou a ser associado ao proibido e ao profano, o que contribuiu para o distanciamento entre a sexualidade e a naturalidade do corpo", aponta profissional, acrescentando que se passássemos a enxergar o sexo como algo sagrado, uma forma de conexão, de prazer e de expansão da consciência, poderíamos encarar fetiches, brinquedos eróticos e jogos de sedução de forma muito mais natural.
Fatores psicológicos pesam
A ginecologista Beatriz Tupinambá, especialista em climatério e menopausa, afirma que a nossa sexualidade é muito além de apenas hormônios. "É resultado de hormônio, nosso corpo, da nossa mente, eles estão todos em conexão. Então, a queda dos hormônios sexuais, principalmente o estrogênio e a testosterona, tem ação direta sobre questão de libido, sobre a nossa lubrificação, o nosso desejo, a nossa sexualidade. Mas os fatores psicológicos têm um peso tão grande ou até maior".
De acordo com a profissional, o desejo sexual pode se manter mesmo sem reposição hormonal. "Importantíssimo a gente resolver todas as questões de dor dessa relação. Então, o sexo não pode ser lembrado como um ato doloroso. Temos lubrificantes excelentes no mercado, hidratantes específicos que você pode fazer uso local desses hidratantes e lubrificantes, isso já melhora muito. Outra coisa, hormônios já são apenas local. Hoje em dia tem que ser liberado mesmo em mulheres pós-câncer de mama. Então tem hormônios que não tem ação sistêmica, são apenas local para recuperação desse epitélio, para melhora da atrofia e retirada da dor e você consegue associar o sexo ao prazer e melhorar a questão da libido".
Segundo o urologista Igor Lima, da Rede Casa, é comum que homens mais velhos apresentem redução da libido, fenômeno multifatorial que pode envolver queda natural da testosterona, doenças crônicas, estilo de vida, uso de medicamentos, como os usados para tratamento da hiperplasia benigna da próstata. De acordo com os principais guidelines da Associação Europeia e Americana de Urologia (EAU/AUA), a avaliação deve incluir exames hormonais, análise do uso de medicamentos e investigação de disfunções urinárias ou eréteis. "O tratamento pode envolver mudanças no estilo de vida, controle de comorbidades e, quando indicado, reposição hormonal supervisionada. A abordagem integrada — médica, psicológica e sexual — é fundamental para restaurar a saúde sexual e melhorar a qualidade de vida".
O urologista Guilherme Braga também diz que a preocupação aumenta com a idade, já que a queda da testosterona, somada ao uso de medicamentos para problemas de próstata, pode impactar diretamente a libido e a qualidade das ereções. A boa notícia é que existem soluções. "Mudanças de hábitos, como manter uma rotina de exercícios, alimentação equilibrada e sono adequado ajudam muito. Além disso, o acompanhamento médico é essencial para descartar ou tratar doenças que podem comprometer o desempenho sexual. Em alguns casos, a reposição hormonal pode ser indicada, sempre com supervisão especializada. Outro ponto importante é cuidar da saúde emocional, já que ansiedade e estresse também reduzem o desejo".
Para a psicóloga Claudia Melo, a sexualidade é um fenômeno complexo, que envolve corpo, mente e afeto. Quando falamos de satisfação sexual, estamos falando, na verdade, de conexão consigo e com o outro uma experiência que depende diretamente da saúde emocional e da qualidade dos vínculos que a pessoa estabelece. "Na prática clínica, é comum observar que a vida sexual reflete o modo como o indivíduo se relaciona com suas próprias emoções. A ansiedade, a culpa, o medo de rejeição, as crenças limitantes sobre o prazer e a repressão do desejo são fatores que interferem diretamente no funcionamento sexual. O corpo fala aquilo que a mente silencia", diz a especialista.
Ela pontua que do ponto de vista psicológico, o prazer está profundamente ligado à possibilidade de estar presente, sem máscaras, sem cobranças e sem o peso do desempenho. Quando a pessoa se sente aceita, acolhida e livre para ser quem é como propõe a Psicologia Humanista de Carl Rogers o encontro sexual se torna um espaço de autenticidade e não de obrigação. "A insatisfação sexual, portanto, não é apenas um sintoma físico, mas um sinal de desconexão emocional. Cuidar da saúde mental é também cuidar da sexualidade porque é na mente que começa o desejo e é no afeto que ele se sustenta".






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