Guilherme Derrite apresentou seu texto em PlenárioKayo Magalhães/Câmara dos Deputados
O texto aprovado é o substitutivo do relator, Guilherme Derrite (PP-SP) — secretário de Segurança Pública de São Paulo licenciado — que chegou a apresentar seis versões em duas semanas. Parte das mudanças ocorreu após negociações envolvendo governo e oposição, embora ambos tenham reclamado da falta de diálogo.
Crime de 'domínio social estruturado' e penas até 40 anos
O relatório cria o crime de “domínio social estruturado”, que reúne condutas típicas de facções, como controle territorial, ataques a forças de segurança, sabotagem de serviços públicos e intimidação de autoridades. A pena prevista é de 20 a 40 anos, podendo ser aumentada pela metade ou até dois terços se houver liderança da organização, violência contra vulneráveis, conexão transnacional, ou exploração econômica ilegal, como extração mineral.
O projeto também amplia drasticamente as punições para integrantes de facções e milícias. Entre as mudanças:
Lesão corporal seguida de morte: 20 a 40 anos
Sequestro ou cárcere privado: 12 a 20 anos
Ameaça qualificada: 1 a 3 anos
Latrocínio: 20 a 40 anos
Furto: 4 a 10 anos
Roubo: pena triplicada
Extorsão: pena triplicada
Extorsão mediante sequestro: aumento de dois terços
Receptação: aumento de dois terços
Tráfico de drogas: pena dobrada
Posse/porte de arma ligado ao tráfico: aumento de dois terços
Para líderes, a pena pode chegar a 66 anos. O substitutivo também proíbe anistia, indulto, graça ou liberdade condicional para integrantes de organizações criminosas e eleva em 85% o tempo necessário para progressão de regime.
'Organização criminosa ultraviolenta' e novas definições
O texto introduz o conceito de organização criminosa ultraviolenta, descrita como o agrupamento de três ou mais pessoas que emprega violência ou coação para impor controle social ou territorial, atacar infraestrutura, intimidar autoridades ou executar crimes previstos no projeto. Juristas e governistas criticaram a criação desse novo tipo penal, alegando risco de insegurança jurídica.
Apreensão e perdimento de bens
O substitutivo prevê a apreensão prévia de bens dos investigados, com possibilidade de perdimento extraordinário antes da condenação, sempre que houver origem ilícita clara, sem necessidade de trânsito em julgado.
Os bens apreendidos serão destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública, após o relator abandonar a ideia inicial de encaminhar os valores integralmente ao Funapol, o que gerou forte reação do governo.
Audiência de custódia e julgamento de homicídios
O projeto determina que audiências de custódia sejam feitas preferencialmente por videoconferência, e obriga a criação de salas equipadas em todos os presídios.
Homicídios cometidos por integrantes de facções passam a ser julgados por colegiado de primeiro grau, e não mais pelo tribunal do júri.
Participação do Ministério Público
O texto garante participação do Ministério Público em investigações conduzidas por forças-tarefas, por meio de Procedimentos Investigatórios Criminais coordenados pelos GAECOs.
Disputa política
O governo contestou o substitutivo e tentou adiar a votação — sem sucesso. Governistas acusam Derrite de desfigurar o projeto original enviado pelo Executivo e de tentar descapitalizar a Polícia Federal. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) prometeu trabalhar no Senado para retomar a versão do governo. Já Jandira Feghali (PCdoB-RJ) afirmou que o relatório pode protelar confiscos e proteger organizações criminosas.
Oposição e parte do Centrão, por outro lado, pressionaram para fortalecer o texto. Dois governadores — Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Cláudio Castro (PL-RJ) — estiveram na Câmara para defender ajustes mais duros. A tentativa de equiparar facções a terrorismo chegou a constar da primeira versão de Derrite, mas acabou retirada após resistência.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), classificou o texto como a resposta “mais dura da história da Câmara ao crime organizado”, destacando medidas como envio direto de chefes de facções a presídios federais, gravação de encontros com advogados e fim de visitas íntimas.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.